quarta-feira, 7 de novembro de 2007

QUEM NÃO ME TORNEI >> Carla Dias >>

Pensei que tivesse nascido para uma tarefa muito especial. Que, em algum momento, minha existência valeria tanto e mais. E hoje, observando-me com atenção, percebo que se há realmente algo que me faça ocupar este posto, perdeu-se dentro de mim.

As noites que passei em claro, batendo papo com Deus e com o olhar voltado ao futuro, foram noites decisivas. Frente ao espelho, consertando com uma auto-bondade falseada a estrutura de mim que não cabia em panos ou na realidade que sorvia. Encarando o diariamente com aquela inquietude que, para quem via de fora, era apenas um silêncio matuto, de quem ruminava planos que tinham tudo para dar certo no logo adiante. Mas que, no fundo, era a mais pura solidão. E no cenário dela construí esperanças que buscavam pelos seus pares, pois nem mesmo elas agüentam o isolamento por muito tempo.

As provações pelas quais passei, ah, que nem sei como engoli. Não sei, até hoje, por que adoravam galhofar de mim os meninos da escola. E para criar a lonjura necessária entre nós, eu sonhava com um príncipe encantado de desencantos, olhos chorosos, uma penca de problemas para resolvermos juntos. E que se permitia fascinar pela sensibilidade; que conjugava importâncias a ponto de me fazer desejar, profundamente, seguir adiante no universo das querenças e desavenças. Na falta da aparição desse príncipe, permiti-me compreender que, de dentro pra fora, a jornada sempre é solitária.

As noites que passei fazendo vigília às labaredas das velas que me metiam medo. Não sei o que mais me amedrontava, se as velas acesas ou a escuridão total. Se a luz contornando ilusões ou a escuridão criando fantasmas que se encostavam nos móveis, sorriam para mim... Queriam saber do meu futuro. Para os meus fantasmas eu fazia a corte ao vazio. Mal sabiam eles que eu o vislumbrava, como caneta assediando o papel em branco. E que neste fazer havia um quê de coragem que nem sempre se encara nessa vida.

Os dias em que passava assuntando possibilidades eram os que me agradavam mais. Lavando louça, enquanto o pensamento visitava uma idéia. Na minha cabeça, criei diversas de mim: militante, pacifista, antropóloga, pessoa dos afazeres sociais. Pensei, desde sempre, que faria alguma diferença nessa vida; que descobriria um jeito bom de ajudar as pessoas. E então percebi que, freqüentemente, também as magoamos.

As noites ofereciam o silêncio necessário para que eu refletisse sobre meus medos. Temia me tornar uma pessoa medíocre, sem sonhos, sem buscas, acostumada demais com o que vivia que, ainda que insatisfeita, desempenharia sem pestanejar meu papel de conivente com a realidade. E este tem sido um temor companheiro, pois não há época para ele. Não há fase que o delimite.

Acreditei, verdadeiramente, a partir daquele momento da vida em que acreditar é essencial, que faria alguma diferença nesse mundo. Que realizaria grandes feitos, dignos de uma pessoa que passa tanto tempo em companhia das reflexões; que pondera, mas não renega os impulsos. Que acredita no dia seguinte como se nele coubesse somente o melhor. Obviamente, até mesmo as crenças sofrem abalos, e de certa forma isso é um descontruir para reconstruir de uma forma mais humana. Mas no momento em que essa transformação acontece, nossa, dói tudo: corpo e alma.

Pensei que seria uma pessoa de valor imensurável, acreditei piamente nisso, como se realmente houvesse como escolher este significado. Porém, hoje percebo que essa importância é uma conquista diária e que nem sempre está em grandes feitos, mas na sutileza e na simplicidade de cada experiência pela qual passamos. Que se trata de um estado de espírito que é construído aos poucos, e que se desfruta também dessa forma: homeopaticamente.

Posso não ser a pessoa que idealizei na infância das minhas experiências. Talvez nunca chegue perto de ser este alguém. Mas o que torna este pensamento tão ambíguo e ao mesmo tempo revelador, é que eu posso me tornar uma pessoa bem melhor do que, dia desses, eu fui. E acho que isso já é uma possibilidade e tanto, não?

Imagens: Anny Jacopetti

www.carladias.com


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6 comentários:

joão vilhena disse...

Vc já escutou a música do Kleber Albuquerque "Cabimento"? Rubi está cantando no seu último cd "que está bárbaro" diz: Cabe tudo no mundo - que alívio - Cabe até eu - que pensei que nunca caberia. Sua crônica me remeteu ao que esperava da minha vida e o refrão me trouxe uma espécie de alívio!!!que bom essa possibilidade!! joão vilhena

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Essa crônica é tão eu. :) Mas ainda não desisti de todo do que não me tornei. Tenho a esperança de que não precisamos desistir do que queremos, mas apenas da maneira como o queremos. Seu príncipe, por exemplo, ainda vai achar o rumo de lhe encontrar. :) E, pra mim, pessoalmente, você já cumpre uma tarefa muito especial de maravilhosa escritora de sentimentos. :)

Ghii disse...

Que bela crônica. Parece ter sido escrita especialmente para mim.
Simplesmente linda.
Você escreve muito bem.
Muito obrigada e meus parabéns!

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

"Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece:
Como não fui eu que fiz?"

Li. Chocou. Sou eu, desnudada. Como assim? Aí, pensei que fosse a única. Só até ver os comentários.

"Como não fui eu que fiz?" Essa é fácil de responder... tivesse eu o seu talento, poderia tê-la feito, pois me vi ali por inteiro.

Carla, obrigada.

Beijos

Chris

Francisco Medeiros disse...

Carla, estava apenas simpatizando com este blog, mas sua crônica me fez apaixonar. Linda, linda , linda!!! Parabéns!!! Fiquei fascinado, não tenho mais palavras...

Daniela disse...

Acabo de me tornar fã do blog e especialmente de suas crônicas!!! Maravilhoso!! Parabéns!!