quinta-feira, 8 de novembro de 2007

ELA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Ela, que queria tanto da vida. Ela, que queria porque acreditava que, de algum modo, as coisas chegam se você as quiser de verdade. E ela queria muito, queria tudo, queria de verdade. Queria amar - e isso não era difícil - e queria, principalmente, ser amada. Ela que sempre sonhou com o dia em que alguém olharia fundo nos seus olhos e diria, sem riso nem fuga, "eu te amo".

Ela, que tinha tantas esperanças e planos e motivações. Ela que viu em sonhos imensos as pequenas mãos do filho que teria. Ela que imaginava o choro de seu bebê, e até mesmo sentia o corpo miúdo e macio dele aconchegado em seu seio. Logo ela, que acreditava tanto no mérito da sobrevivência e no milagre da vida que todos os anos celebrava seu próprio aniversário com bolo, velas e risos.

Justo ela, que acreditava tanto na verdade. Ela que pensava não existir nada mais correto do que dizer a verdade, mesmo que a verdade pudesse causar algum desconforto. Porque ela realmente cria que a verdade liberta. Ela não tinha medo de chavões ou frases feitas. Ela apenas esperava ter outra verdade de volta quando oferecia a sua própria.

Ela que lia livros, via filmes e ouvia música, sorvendo cada nota, gesto e palavra delicadamente, recolhendo tudo o que parecia belo para guardar em algum lugar especial e muito íntimo. Ela que estudava e ensinava, que pedia e dava, que ouvia e falava, na esperança de que isso a ajudasse a construir a pessoa que seria um dia.

Pois foi ela que, numa manhã cinzenta, pegou aquela maldita lâmina. E pensou na vida que vivera até então e em tudo o que acreditava, esperava, planejava, queria. E percebeu, com perplexidade, que os dias eram curtos demais e que agora era tarde para receber um novo amor, ter um filho, ler um livro ou mesmo...

Ou mesmo continuar a querer, a acreditar, a esperar, a planejar.

E então ela não sentiu mais nada, nem mesmo a dor pelos riscos rubros e profundos desenhados pela lâmina.

Foi tudo muito suave.

E frio.

Tão frio que, quando entrei no quarto, naquela noite, encontrei-a enrodilhada, como se tivesse, no último momento, presenteado a si mesma com um abraço.

A mim, só deixou essas palavras, as poucas que usei para contar tudo que sei sobre ela.

E o silêncio.

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2 comentários:

Paula disse...

Ah, não...

Quando comecei a ler achei que ia ter o final mais feliz do mundo, estava até me identificando com a menina sonhadora e aí esse susto no final! Puxa, fiquei triste... Mas adorei "te ler", como sempre!

Beijo!

Debora Bottcher disse...

Valha-me... Que texto! Mas ao contrário da Paula, eu previa um final assim. Talvez porque eu seja um pouco parecida com ela - mas sem tanta coragem (porque penso que é preciso muita coragem para deixar a vida num silêncio assim...)
Beijo, moça.