sexta-feira, 2 de novembro de 2007

SOBRE OS DOIS LADOS [Heloísa Reis]


Em minhas andanças de arte educadora tenho procurado ensinar, ou melhor, demonstrar às pessoas que para aprender a construir objetos, pintar, escrever ou desenhar é preciso mais do que aprender técnicas e desenvolver habilidades.

Criar ou construir novas formas traz como conseqüência novas maneiras de se ver e fazer a própria vida, pois a arte faz com que os homens vejam o mundo com os olhos da alma.

Esse processo exige o uso do cérebro de maneira diferente do normal. Estudos de anatomia revelam que com o hemisfério esquerdo do cérebro comandamos todo o lado direito do corpo e todo o nosso sistema racional e consciente, enquanto com o hemisfério direito controlamos o lado esquerdo que representa nosso lado sensível e nosso inconsciente.

É com essa forma invertida que nosso cérebro processa a informação visual. E a habilidade de fazer arte parece estar na capacidade de mudar o modo com que nosso cérebro é capaz de ver e perceber a realidade. Observar os vazios, os contrários, as ausências, os significados são atitudes que não apenas enriquecem a observação, mas também revelam a totalidade de todas as coisas.

Portanto, ser artista não é difícil, apenas é preciso aprender a ver diferentemente. E essa mudança mental trará um duplo beneficio: a possibilidade de ver as coisas de modo diverso e a de acessar por vontade consciente o hemisfério direito do cérebro.

Essa experiência leva a uma modalidade de consciência ligeiramente alterada, que permite o desenvolvimento de capacidades artísticas significativas. Ao usar os dois hemisférios o artista pode envolver-se com seu trabalho de tal forma que ele e trabalho tornam-se um. E é aí que reside a autenticidade da obra.

É possível então que se estabeleçam relações não usuais. Por exemplo, o tempo se evapora, os pensamentos se concentram, a racionalidade desaparece para dar lugar à poesia.

Este estado, talvez já experimentado por muitas pessoas, pode ser atingido também pela meditação e muitos exercícios podem servir de estímulo. Basta que estejamos dispostos a usar os dois lados do nosso cérebro.

Imagem: Head View a Model, John Rawlings

Heloisa Reis - Arte Educadora

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Um comentário:

Cris Ebecken disse...

A arte sempre com essa arte de mostrar novas cores...