domingo, 18 de novembro de 2007

DESCONTA LÁ! >> Felipe Holder

Quando eu era criança costumava brincar com os amigos de um jogo chamado desconta-lá. Quer dizer... na verdade não era bem um jogo, era uma brincadeira - normalmente de mau gosto, por sinal.

O negócio era o seguinte: você estava distraído, pensando na morte da bezerra, vinha alguém e tebei! dava-lhe um peteleco na orelha. Ou um catiripapo no toitiço. Quando você se virava, pronto pra retribuir a gentileza, o engraçadinho corria e gritava "desconta lá!" Se você reclamasse, ignorasse a "brincadeira" ou se corresse atrás do cara pra revidar, era logo hostilizado pelos outros. Era um tal de "donzelo", "não sabe brincar", "deixa de ser menino" (e o que é que a gente era?) e outras coisas mais. Pra ser "aceito no grupo", tinha que entrar no clima e passar adiante o peteleco, catiripapo, bolacha ou o que quer que fosse. E assim era o tal desconta-lá. Para uns, uma brincadeira inocente; para outros, como eu, uma coisa pra lá de sem graça.

Pois bem, depois de adulto eu descobri que ainda se joga o desconta-lá. Não o jogo original, mas uma variação igualmente sem graça, em que o objetivo não é passar adiante bolachas, petelecos ou catiripapos, e sim um trabalho que deveria ser seu. Por comodismo, preguiça, falta de educação ou tudo junto mesmo. Deixa eu explicar.

Você chega ao shopping e tem a maior dificuldade pra estacionar. Aquela que poderia ser a última vaguinha foi tomada por um folgado que estacionou ocupando o lugar de dois carros. Caso clássico do desconta-lá moderno, onde os malas preferem parar de qualquer jeito a ter que fazer um "esforço sobre-humano" para estacionar o carro como deveriam. O problema é seu. Você que se vire e continue rodando atrás de outra vaga. Ou que tente colocar ali mesmo, no aperto, fazendo - aí sim - uma manobra demorada que vai deixar você todo suado e ainda com medo de ter seu carro batido pelo preguiçoso do lado.

Você vai, faz suas compras no hipermercado do shopping e em seguida resolve lanchar na praça de alimentação. Ela está lotada, você cheio de sacolas, mas é melhor lanchar logo do que ir deixar as coisas no carro. Afinal, sempre se acha um lugarzinho. Pois bem, lá vem você com a bandeja na mão, equilibrando um copo de refrigerante em cima, e duas sacolas em cada braço. Até que não foi tão difícil: olha um lugar bem ali! Mesa pequena, um lugar só, está ótimo. Mas quando você chega lá encontra uma bandeja cheia de pratos e copos sujos, certamente deixada ali por um jogador do desconta-lá (claro!) que não ia se dar ao trabalho de recolher a bandeja dele. Pra que, se você ia chegar pra fazer isso? O problema é seu. E lá vai você dar uma de malabarista-contorcionista: coloca as sacolas no chão, a sua bandeja na cadeira e se prepara para recolher a bandeja do Zé Preguiça, quando uma alma boa vem em seu socorro: é a moça da limpeza do shopping, que sorri e recolhe a bandeja por você. Aí você agradece, coloca a sua bandeja sobre a mesa, começa a comer e pensa "ainda bem que nem todo mundo joga o desconta-lá; ainda há pessoas conscientes e educadas no mundo". Sim, é claro que ainda existem pessoas assim. E aquela moça certamente pode ser uma delas. Mas você se lembra de que ela é paga pra isso. Tsc, tsc, tsc... era melhor não ter lembrado, não era não?

De volta ao estacionamento. E o que você encontra agora? Um carrinho de compras vazio, bem atrás do seu carro. Deixado ali por alguém que achou muito grande o trabalho de levá-lo até o local onde ele deveria ser levado, a menos de dez metros dali. Se você pode fazer isso, por que ele faria? O problema é seu, claro. Como de costume. E não foi o sujeito folgado do carro do lado quem aprontou dessa vez. O carro dele ainda está lá. Foi outro folgado, outro jogador do desconta-lá. Resignado, você pega o maldito carrinho, controla a vontade de deixá-lo atrás do carro do lado (porque você, ainda bem, não sabe brincar) e o coloca calmamente junto com os outros carrinhos vazios, onde ele não vai atrapalhar ninguém.

E é essa a nova versão do jogo do desconta-lá. Chatinho, não é? Mas existe. E vá se acostumando, pois os jogadores do desconta-lá são muitos...

Aposto como você já deu de cara com muitos deles, não deu não? Pois bem, se não deu foi porque não estava prestando atenção. Eu garanto. Faça isso agora e eu duvido você não identificar pelo menos um, todo santo dia. E não precisa ser no estacionamento do shopping ou numa lanchonete; o jogo é jogado em qualquer lugar, nos quatro cantos do mundo. Se bem que, não sei por que, eu tenho a impressão de que no canto de cá esse jogo é bem mais popular do que nos outros três.

O texto foi grande e cansativo ou estava bom e acabou antes da hora? Deu vontade de reclamar do autor ou de repassar para algum jogador que você conhece? Qualquer que tenha sido a sua reação, vou fazer um pedido: não desconta lá não. Clica na opção "comentários" e solta o verbo. Desconta cá! ;)

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Perfeito! Uma bela combinação de reflexão, bom humor e "abuzadinice". :) Ah, e a foto está uma maravilha: matou a cobra e mostrou o pau. :)

Paula Pimenta disse...

Realmente tem muita gente folgada no mundo! Lendo sua crônica também lembrei de várias situações (e estranhamente todas ligadas a carros), como gente que não dá seta, que pára em fila dupla, que não dá passagem...

Mas queria mesmo era comentar que aqui em BH essa brincadeira "desconta-lá" se chama HOJE NÃO. É a mesma coisa, mas em vez de falar desconta lá, se diz hoje não! :)

Felipe disse...

Oi, Paula! Eu não sabia que em Belo Horizonte também tinha essa brincadeira. Ainda bem que das vezes em que estive na minha querida BH ninguém me disse "hoje não". E olha que todo dia eu pedia à minha anfitriã pra me levar num restaurante típico. ;) Um abraço de Recife!

Francisco Medeiros disse...

Felipe sua crônica está longe de merecer um "desconta lá". Parabéns!!! Eu gostaria de lhe fazer um pedido, posso?
É porque eu sou professor de português de ensino fundamental e gostaria de utilizar sua crônica na escola em que eu trabalho, pois meus alunos brincam de uma "coisa" parecida com o "desconta lá", e como eu estou apresentando crônicas pra eles, achei bem pertinente. Então, se você permitir, por favor, entre em contato comigo através do meu blog! Valeu!

Carol Barcellos disse...

Eu comecei a ler e me veio a mente o trote, aplicado nos calouros das universidades. Existem atrocidades de todos os níveis. E depois os que sofreram, aplicam nos próximos calouros q não tem culpa de nada, como se fosse uma catarse. Geralmente, nessa corrente de desconta-lá, a maioria acaba aprendendo muito bem as regras do jogo. Ainda bem q sou como vc: não sei brincar disso. Nem quero.

Amei o texto, muito legal!