sexta-feira, 16 de novembro de 2007

EU QUERO SER BOCÓ >> Cristina Carneiro

Já passaram dias, inteiros
Janeiros, calendário que nunca chega ao fim
Início sim e só recomeçar.
(Pedro Luís e Roberta Sá)

Principiou no Cariri, quentura braba. Essa coisa nascida no Cariri, no Crato, lá no sul do estado, renasceu em mim nesses derradeiros dias. Quente cá na cidade nova. Nem vento faz. Calor medonho. Saudade medonha do calor daquele novembro, 2005, lá no Cariri.

Sala barulhenta. No cantinho da sala, estava eu. Perto da janela fechada, mas era janela, e eu gostava de ficar no canto. As pessoas eram ignorantes do que me acontecia naquele cantinho abafado. “Dilúvios...”

Daqueles dias, lembro também da praça e do meu aniversário: numa churrascaria varandão: sete cervejas divididas com um amigo e muitos olhares para o relógio eletrônico da praça: “19/11/05, 22:00", "19/11/05, 22:00", "19/11/05, 23:15”, "19/11/05, 23:15”, “20/11/05, 00:02”. Garçom, traz a conta. Saimos cambaleando. Meu coração explodia de alegria e de vontade de voltar pra casa, na cidade grande, sete horas de ônibus.

*

Dia 20 de novembro não era mais meu aniversário, mas que veio a ser um dia feliz a partir de 2002. Comemoro aniversário do fim de um namoro chato, muito chato. Cinco anos sem chateação, já se vão este ano. Desesquecimento de datas.

*

No dia 20 de novembro de 2005 o telefone lá de casa tocou às 23h00.
“Eu ouvi uma música que era a cara de dançar com você.”
“Dá pra dançar na praia, numa noite de maré baixa?”

Da janela da cozinha, eu olhava a cidade toda esvaziada. Uma das imagens que eu mais gosto em todas as cidades do mundo: o Centro anoitecido e o esvaziamento. Na cidade nova, coisa que eu gosto é andar de carro de noite, tarde da noite. Sempre gostei de cidades boas para se andar de carro de madrugada. Aqui é.

Depois da ligação, o tempo passou. Três meses. Menos que isso. Vim até a cidade desconhecida, que hoje é a nova. De então pra hoje já são quase dois anos completados. Agora é aqui, na velha cidade desconhecida, que eu moro, quatro meses. Mas insisto em brincar de uma brincadeira engraçada, mas às vezes também triste. É tentar lembrar da primeira vez em que eu passei pelas ruas e vi as coisas dessa cidade aqui, onde eu hoje vivo.

Fico rebobinando as sensações, fazendo um esforço traquino de ir aonde já passou. Aí vem aquele aperto, que deve ser um lamento, dói que só. Um lamento de nunca ter havido uma noite de maré baixa. De não ter vindo pra morar por um motivo, mas por outro.

De tanto eu brincar dessa brincadeira, renasceu isso em mim, isso de que estou falando, que pode ser uma pessoa ou um sentimento ou uma ilusão ou uma humanidade. Em matéria de mim, deve de ser uma invenção. Uma coisa que eu inventei, mas que existir, nem nunca. (Nunca não.)

*

Andei chegando em casa com o coração engravatado com uma gravata bem apertada, eu diria pra quem me perguntasse como ando chegando em casa, se triste ou alegre. Engravatada no coração.

Outro dia, engoli pelo olho uma lágrima que queria cair enquanto eu percorria toda a orla dentro de um taxi. O motorista nem desconfiou. A lágrima engolida virou um entalão na garganta, que está até hoje. Se prestarem bem atenção, os olhos podem ver. Mas que eu já me acostumei, isso eu já.

*

Queria saber: por que renascem coisas que faz é tempo na gente? Por que coisas que faz é tempo não se desmancham como o tempo, como as pessoas, como as coisas boas se desmancham no mundo? (As coisas boas se desmancham no mundo.)

*

Eu tenho uma idéia na cabeça: se eu aprender tudo o que eu quero, nunca mais meu coração vai se engravatar apertadamente. Sei nem de onde que eu tirei essa idéia. Acontece que assim, sabendo de tudo o que eu quero saber, eu fico achando as pessoas muito bestas. Por que eu acho as pessoas bestas, quando a besta aqui sou eu? Eu sou besta de ficar brincando de uma brincadeira que reaviva coisas que faz é tempo e que já deve de ter se desmanchando para além de em mim.

Minha cabeça é uma coisa! Cabeça cheia de relembranças, quase nunca dói, mas nunca pára de pensar, nunca se assenta. Cria coisas, acentos, recria tudo sem fundamento, não cansa nunca. Queria uma cabeça sem pensa. “A mamãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.”¹

*

Quero andar a cavalo. Quero ficar resmungando, resmungando e uma pessoa perto ouvindo, ouvindo, e achando bom meu resmungado. Quero chorar, chorar fundo, soluçar de tanto chorar, até desentalar, até secar o olho todo. Quero ser bocó.

*

1 Manoel de Barros

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Se Barros ou Rosa fossem mulheres ou urbanos, escreveriam tal e qual.

P.S. - É um elogio. :)

Mariana disse...

identificação instantane! Qd meu olho engole a lágrima a garganta aperta e fica doente...cá estou eu de novo com dor...de garganta rsrs.
Lindo texto. Um beijo