quarta-feira, 21 de novembro de 2007

HIPOPÓTAMO, MUNDO E LOBOS >> Carla Dias

Minha sobrinha me ligou e disse: “ontem foi seu aniversário, né?” e respondi “né”. Então, ela me deu os parabéns e começamos nossa conversa de doidivanas que somos. Apesar de ter ficado com ela na quinta-feira, com direito a dengos, colo de tia e afago de sobrinha, não a vi na sexta passada, dia em que completei meus trinta e sete anos, porque passei parte deste dia na casa de uma tia. Depois, voltei pra casa… Pra tevê a cabo e pipoca.

Batemos altos papos, porque somos moças descoladas. Apesar de meus trinta anos aquém dos sete dela, nos entendemos muito bem. Já conversamos seriamente sobre a idade, porque ela pensa em se tornar muitas coisas, inclusive bailarina e professora, mas se nega a crescer e a envelhecer. Hoje, ela já aceita que será mais alta do que é agora, o que, acreditem, é um avanço e tanto.

Ouvissem alguns políticos o jeitinho que ela diz “não pode fazer maldade!”; pudessem ver a seriedade na carinha dela, a verdade na sua declaração, quem sabe se envergonhariam de enfiar as mãos nos bolsos do povo e privar muitas crianças de terem um futuro com perspectivas. Porque as perspectivas delas são de uma beleza confessa a cada nascimento.

O que me fascina nessa minha sobrinha é a esperteza com requintes pueris. Ela percebe muitas coisas destinadas ao universo dos adultos, e até discursa sobre algumas delas. Porém, é um tal de colocar nesse balaio os macacos e as bonecas, a adoração pela comida da avó e, principalmente, pela avó mesmo, que tudo fica muito mais agradável. De um jeito que nós, adultos, deveríamos aprender a lidar com quem nos tornamos e a forma como convivemos com aqueles que sempre estão ao nosso lado.

Há dois anos, mais ou menos, conversávamos ao telefone e chegamos ao medo que ela tinha de lobo mau. Por conta disso, inventei um lobo que morava comigo, que era todo bondoso, apesar de bonachão. Então, até hoje ela pede para falar com ele: “chama o Seu Lobo, tia?”, e eu disfarço a voz e conversamos outra conversa. Uma conversa que criança só teria com lobo mau de mentira mesmo. E tem mais... Ela inventou uma loba para contracenar com ele. Desde então, é comum que durante nossas conversas telefônicas, ela pergunte pelo Seu Lobo. Aí eu digo que ele saiu só pra que ela possa sussurrar que o danado está na casa dela, que foi buscar a Dona Loba pra passear, enfim, para que ela possa inventar sua própria versão do Seu Lobo e da Dona Loba. Teve um dia em que ela soltou: “ai tia, acredita que deixaram os lobinhos comigo e foram dançar?”.

Hora de desligar o telefone, e ela manda: “um beijo do tamanho de um hipopótamo no seu coração”. E eu, toda comovida pela grandeza do beijo que ela rendou de um jeito que tivesse a ver com nossa diferença física e de idade, fui além: “um beijo do tamanho do mundo no seu coração”. E ela soltou uma daquelas risadinhas que bem conheço; de quem saca todas e acha a desinformação do adulto engraçada. E disse: “Ih... Acho que não vai caber dentro de mim!”. E gargalhamos juntas, desse jeito bom que fazemos com quem amamos a ponto de inventar caras e bocas para o que sentimos.

Eu tenho seis sobrinhos e sou tia coruja assumida. Este é apenas um fragmento do prazer que eles me dão, e também do quanto eles me ensinam sobre a vida. Hoje eu falei sobre uma dessas crianças, mas podem esperar que tenho histórias com as outras cinco, também; pessoinhas lindas de um tudo.

O que espero no meu novo ano, é que a Amanda continue assim: feliz. E que a criançada desse país, desse mundo, possa olhar lobo mau nos olhos e convidá-lo pra brincar de ciranda-cirandinha, porque ele se tornou vegetariano e amigo de viagem. Que os beijos de amor transbordem dos corações das pessoas e, quem sabe, o mundo chegue a eles, através desses beijos, sem perigo de lá não caber.



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2 comentários:

Francisco Medeiros disse...

Acho que estou me tornando seu fã! Rs, rs, rs, rs, rs!
Mas num ligue pra isso não. Gosto do seu jeito de enchergar as situações da vida, me fizeram rir algumas de suas crônicas. Parabéns, parabéns!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que linda crônica, Carla! Que sorte a sua e a da Amanda de terem uma à outra. Que amizade bonita de tia e sobrinha. E que palavras certeiras as que vocês trocam e as que você usa para nos contar essas preciosidades. Um beijo do seu tamanho, talvez um pouquinho maior,