domingo, 4 de novembro de 2007

RODOPIANDO E TECENDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Man Juggling Fire - Roy McMahon/zefa/CorbisUm dia, existiu uma menina que não fazia nada além de rodopiar e tecer. Ela principiou usando fios, mas, como não utilizava apenas as mãos e sim o corpo todo em rodopio para tecer, terminou ficando emaranhada. A mãe desatou-lhe os nós que formavam um lindo bordado:

— Menina, não vá ficar presa na beleza que tece. Não faça mais isso.


Mas a menina que existiu um dia não sabia fazer nada além de rodopiar e tecer. E resolveu usar os próprios bichos em vez de seus fios. Aranhas e bichos-da-seda ficaram tontos em seu rodopio e, daquele exótico e encantador bordado, o grito silencioso de milhões de pequenas criaturas se espalhou até chegar aos ouvidos da mãe, que os devolveu a seus casulos e teias.


— Menina, não vá aprisionar os outros na beleza que tece. Já não lhe disse para não fazer mais isso?


Mas que poderia fazer, além de rodopiar e tecer, a menina que existiu um dia? Sem fios nem bichos, tratou de encontrar outro material. E em seu rodopio teceu um novo bordado ainda mais surpreendente. Era tanta a beleza que atraiu o olhar da mãe para aquele bordado de luz.


— Menina, você não tem jeito! E nisso sinto o cheiro do seu pai. Vamos, Terra, minha filha, tomar banho, jantar e dormir.


Mas, além de rodopiar e tecer, que poderia fazer a menina que existiu um dia?


E aquele um dia nunca parou de existir.



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6 comentários:

Debora Bottcher disse...

Oi, Eduardo,
É um poema esse texto... Muito belo...
Lembrou-me de Marina Colasanti, em "A Moça Tecelã". Vc conhece? Se não, depois te envio, pois vale ler.
Beijo grande.

Anônimo disse...

Muito profunda. Estou matutando para penetrar na sua essência. Primeiro eu compreendi que não tem limites para quem quer construir. Com bichos, sem bichos, com fios de qq forma se produz. E cada vez melhor, com mais beleza e mais brilho. Por que a lembrança do pai? Por que o nome "Terra"? É ela que produz. Tudo q se planta dá?

Inês disse...

Arteira essa menina que existiu um dia! Terra tecendo dias de luz...

Que nossos rodopios teçam bordados de luz e nossos "um dia" nunca parem de existir.

Adorei a crônica, Edu! É linda!

Beijo

Carla Dias disse...

Gosto muito quando a poesia invade a sua prosa, assim, sem pudores. E se enrosca toda nas possibilidades.

Cris Ebecken disse...

Emaranhou-me... :))))

Anônimo disse...

Dear Edu,
this story makes us think about the great importance of the Earth to our lives..Thanks for the warning,
love
Renata