terça-feira, 27 de novembro de 2007

BELEZA PRÓPRIA -- Paula Pimenta

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress when she walks treads on the ground.
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

(Soneto 130 - William Shakespeare)

Meu namorado reclamou porque eu disse que prefiro o seu corpo um pouco mais 'cheinho'. Ele disse que eu quero o seu mal, que não gosto de vê-lo em forma, que eu desejo que ele ande feio por aí.

O que ele não entendeu é que é exatamente o contrário: eu o considero mais bonito com 'recheio' do que sem. Sei que a referência que temos de beleza, atualmente, são modelos anoréxicas, a moda prega que quanto mais magro, mais bonito. Mas eu, simplesmente, não concordo. Acho que algumas pessoas, quando magras, ficam bem. Outras, quando gordas. E ainda outras, no meio do caminho.

Imaginem o Jô Soares magrelo. Perderia completamente o charme. Ao contrário, pensem na Gisele Bündchen gorda. Mais que o charme, ela perderia até o emprego. O que seria do Gérard Depardieu sem o nariz? E se o Ronaldinho Gaúcho raspasse o cabelo? Ambos perderiam a marca registrada, ficariam sem personalidade.

Acho que cada pessoa tem o seu jeito físico próprio e as imperfeições são o que dão o charme, que realçam o restante. É muito fácil amar alguém só pelas suas qualidades, mas amar também os defeitos é que prova que o amor é real.

Uma amiga, recentemente, colocou silicone nos seios. Eu só faltei chorar quando soube. A menina era perfeita do jeito dela. E agora ela é igual a milhares de outras que acham que para ser bonitas precisam usar sutiã tamanho 44.

Em um episódio de “My so called life” (um seriado americano já extinto, mas que todas as pessoas do mundo deveriam ter assistido), o cara mais bonito da escola começa a namorar uma menina normal, que não era nenhuma “cheerleader”, nem popular, nem modelo, apenas uma garota como qualquer outra, bonitinha, mas não de parar o trânsito. O mocinho, no começo, não queria assumi-la publicamente, só ficava com ela escondido, no porão da escola. Até que um poema de Shakespeare, o que inicia esta crônica, fez com que ele abrisse os olhos e percebesse que a graça da menina era exatamente o fato dela ser real, humana, de ter defeitos. Isso fazia com que ela fosse única. Ela era bonita para ele e isso bastava, não precisava do aval de mais ninguém, só para ele isso importava. E ele, então, a assume na frente da escola inteira.

A graça de se gostar de alguém está exatamente na escolha, em gostar dessa ou daquela característica que só aquela pessoa tem, da beleza própria dela. Se não fosse assim, se todos fossem iguais, era só pegar a primeira que passasse na frente, seria tudo igual mesmo...

Existe gosto pra tudo nessa vida, minha mãe sempre diz: “O que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo.” Ainda bem, porque se todas as meninas do mundo achassem meu namorado tão bonito quanto eu acho, não ia dar certo, não suporto sentir ciúmes.

E agora um recado exatamente pra ele, o 'muso inspirador' dessa crônica, que eu espero que agora tenha me entendido: Você é tão lindo que dói. Hoje, descendo no elevador, eu olhei pra você de terno e cavanhaque e me deu até um aperto no coração por não poder ficar o dia inteiro te olhando e pela certeza de que todo mundo por quem você passasse iria fazer isso, por culpa dessa sua beleza toda. Eu nunca vou te achar menos bonito por causa de três centímetros a mais. Na verdade, vou continuar gostando de você mesmo se você ficar careca e com barriga de chopp. Agora deixa de bobeira e vai ali no carro comer as amanditas que eu deixei no seu porta-luvas, e aproveite para aprender com elas que biscoito recheado é muito mais gostoso do que aqueles secos, sem recheio nenhum.


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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela crônica, Paula. A beleza está no olhar. E é grande o prazer que a gente sente quando vê beleza onde antes não havia (para os outros ou para nós mesmos). Muito legal também o poema do Shakespeare, que eu não conhecia.

Carla Dias disse...

Ah, que definir a beleza ainda é assunto para muitos bate-papos. Acho que está aí a graça, sabe? O que torna a beleza capaz de realçar o belo... O fato de ela não se esgotar e poder, com o passar do tempo e o conhecimento sobre o outro, tornar-se ainda mais abrangente, chegando mesmo a estirar-se sobre as mudanças que o tempo provoca.
Beleza de fora pra dentro, mas principalmente, de dentro pra fora. Não é qualquer olhar que a alcança... Somente aqueles que se permitem olhar além.

Nícolas Macrina disse...

Valeu Paula..depois de ler sua cronica fiquei mais animado..até eu então tenho minha beleza rs...
brincadeiras a parte..parabéns, sua cronica é leve, daquelas que a gente não tem preguiça de ir até o final..e o tema..muito bom..

padma wangmo- disse...

ahahah, falou, tá falado!!!!

a-do-ro amanditas.

Anônimo disse...

Testando anônimo, Paula.

Testador disse...

Testando apelido agora.

Julio disse...

Não sei se gostaste do meu comentário passado, porém é todo franco. Nesta sua crônica, todos dizem que a mulher é mais madura que o homem e assim você está provando que é, mas em principio eu digo:
Jó Soares quando ficou magro perdeu tudo que ele tinha de graça, muitas pessoas deixaram de assistir.
de fato só você é que pode sentir se o seu namorado ficará bem ou não mais gordinho e tem outra observação para que que ele quer ficar tão magro se já existe você na vida dele.
Termino dando meus parabéns pela sua crônica, crônica esta muito adulta e manda o seu namorado não dar mancada.
Abraços
Julio Lopa