quarta-feira, 28 de novembro de 2007

OS DIAS >> Carla Dias >>

Encaro minha humanidade como desafio, pois nem sempre me sinto capaz de exercê-la. Às vezes, encosto no tempo e fico a galantear vazios. Sou assim: meio lá, quase acolá.

Tem dias em que a felicidade me embriaga, e em outros, peço licença à tristeza para trafegar em seus campos, a melancolia a tiracolo. Não há regra, não domino a linguagem dos significados das jornadas. Mas sei que no final de cada uma delas há um réquiem à espera, pois como mencionam os oráculos, é preciso morrer para renascer; benfeitorias no aguardo.

E tem dias em que me sinto repleta, sem motivos ou expectativas. Trata-se somente de uma sensação boa que se levanta comigo; abro os olhos e percebo a vida mais mansa. Dias assim são preciosos, porque a identidade deles vem justamente do efêmero. E o que eterniza esse começo que se agarra fervorosamente ao fim, é a nossa capacidade de mantê-lo vivo na memória; mas não como um cemitério de lembranças, de onde tiramos uma nostalgia truculenta, que recorre às cobranças sobre não termos conseguido algo parecido ou melhor. Falo sobre perceber tais dias como milagres que são. Milagres de leveza e agrado, muito parecidos com aquele instante que antecede a revelação de um mistério. Quando percebemos que, depois dele, o antes jamais será o mesmo, ainda que venha a ser bem melhor.

Os dias são como páginas de um livro. Estamos sempre ligados à página atual pelo o que nos revelou as anteriores; e ao desejo pungente de saber o que há nas páginas que virão. Tecelões saberiam explicar melhor a teoria de que cada dia é um, ao conceberem suas obras a partir de retalhos, partes, fragmentos.

Fascina-me orientar solidões ao regalo dos fragmentos. Há inteiros disfarçados nestas partes. Então, há dias em que fico muda, bicuda, sem graça; daqui a pouco sorrio, gargalho, reverbero tolas valentias. Dias em que mil páginas cabem em uma, numa mistura sem regra de passado experimentado, presente destrambelhado e futuro idealizado. Dias em que todos os silêncios gritam sua mudez na minha alma.

Em dias como este: aquieto. Desafio minha humanidade olhando o mundo de longe. E, nessa lonjura, desperto a capacidade de voltar ao índice, ler prefácio, reiniciar a leitura de mim mesma.

Imagem >> Cristiane Zamora

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, inevitável pensar, lendo sua crônica, como o seu sobrenome é perfeito: Dias.

Ela me chegou num dia em que estou naqueles dias. Homem também deve ter alguma espécie de menstruação. :)

Lembrou-me a crônica, ainda, de uma música da Flávia Wenceslau chamada justamente "Os dias". Qualquer dia lhe mostro.