sábado, 24 de novembro de 2007

SURPRESAS TRISTES [Débora Böttcher]


Foi quinta-feira: pela manhã chegou a notícia de que o marido de uma amiga/parceira profissional tinha falecido. Não me pegou de surpresa propriamente dita - ele enfrentava um câncer de estômago há pouco menos de um ano. Mas sempre me surpreendo com a Morte...

Quando saí da garagem subterrânea do prédio onde moro em destino ao local da cerimônia de despedida, deparei-me com um dia especialmente azul - que contrastava totalmente com meu traje preto e minha alma sombria. Ventava um pouco, como sempre parece acontecer nessas ocasiões - naturalmente, uma coincidência sem real associação.

Isso também me surpreende sempre: como a vida continua, alheia às terríveis dores e perdas individuais.

Acho que posso dispensar comentários sobre a tristeza do fato: ele era um homem jovem - 51 anos -, bonito - de brilhantes olhos azuis e pele clara -, educado, gentil, divertido, muito alegre. Amante da natureza, de animais, da vida sofisticadamente simples, ele construiu uma casa grande num condomínio fechado, com jardim para abrigar e brincar com os cachorros que criava. Não tiveram filhos - por razão que desconheço, pois eles apenas diziam que tinham decidido assim. Vinte e cinco anos de casamento e escolhas cotidianas me fazem imaginar que haja acordos plenamente satisfatórios, que nenhuma das partes precisa expôr ou explicar.

Não me surpreendi com o que a doença fez com ele fisicamente - já passei por isso com meu pai e o câncer, descobri, arrasa a todos igualmente, independente da região em que se instala.

A dor em mim se deu pela angústia contida e praticamente silenciosa, em lágrimas sofridas, da 'moça' pequena e querida que amargava a perda do marido: "Ele sempre foi mais pra mim do que fui pra ele...", repetia. Essa sensação é compreensível, mas não é verdadeira: muito voltada para sua vida pessoal (apesar de não abdicar da carreira), especialmente no último ano, eu a vi dedicar-se inteiramente a uma batalha incansável, com gigantesca esperança otimista, numa cansativa guerra que ela não sabia, mas era invencível. Isso sempre me surpreendeu em sua postura: uma certeza de milagre quando as evidências eram claras em apontar numa direção contrária.

Aliás, acho que eu sempre me surpreendo com a maneira como as pessoas enfrentam uma doença terminal de um ente próximo: elas se armam de uma coragem inabalável, ignorando sinais, informações concretas, protegendo-se num manto de irrealidade, atendo-se apenas às histórias de superação. Mas vamos combinar: apesar dos avanços importantes da Medicina, as estatísticas não mentem e sabemos que as chances não são
tão positivas.

Na sala memorial, era possível sentir a presença invisível da Morte num canto esquecido do aposento. Ela não sorria - não seria tão dissimulada -, mas assistia a tudo com sua arrogância impassível. Ela, uma soberana ante a Vida, merecia um capítulo à parte - mas isso entristeceria ainda mais esse relato.

Ainda assim, não sou capaz de terminar esse texto sem expressar minha própria melancolia. E a sempre surpresa que me causa, me paralisa, me põe de joelhos quando constato minha total impotência diante da Morte...

Expressões Letradas
Imagens: Travesseiro, Autor Desconhecido; O Dia da Morte, Bouguereau.

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4 comentários:

Mariana disse...

ah, e não dá pra fechar os olhos: as doenças terminais são tantas e tão silenciosas, e muita vezes não são afecções fisicas apenas né...triste saber disso. A arrogância da morte, como vc disse, é o que assusta...ela tem um ar de ´tô nem aí´...pavoroso.
Um beijo, agora melancólica...rs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Debora, sua crônica veio se juntar a outras duas leituras "de morte" que estou fazendo: "A menina que roubava livros" e "A roda da vida". Parece que o tema está me cercando. :)

Tenho uma grande desconfiança de que a morte teme a mudança tanto quanto a gente teme a morte.

Cris Ebecken disse...

A nossa impotência frente a morte tem a mesma proporção da nossa potência frente a vida... e ambas caminham lado a lado nos ensinado sobre sentidos...

Carla Dias disse...

Lembro-me da primeira vez que tive o pensamento “melhor que partisse logo, ao invés de sofrer tanto” voltado a alguém que amava; que fazia parte do meu diariamente. A tristeza que há nessa constatação é daquelas de nos deixar paralisados. Por mais que eu soubesse do desfecho, lutar pela vida era instintivo… E sempre será!

Minha crença pessoal é que, algumas vezes, a espera pela partida de uma pessoa acontece para que alguns possam reencontrar a própria humanidade, e também a força necessária para aprender a conviver com a ausência.

Gosto de pensar que a morte, por intrigante que seja, abriga muitos dos mistérios da vida. E que nos veremos logo mais adiante.