sábado, 10 de novembro de 2007

QUEM PILOTA SEU AVIÃO? [Maria Rita Lemos]


A pergunta pode parecer sem significado, mas tem - e muito. Ouvi muitas vezes, em diferentes lugares, a famosa frase tipicamente feminina: “meu marido não deixa”. Eu ouço e me assusto, quando tento mergulhar fundo no significado disso. A afirmativa diz, sem qualquer dúvida, que o homem (ou pai, ou companheiro) é quem estabelece o que a mulher deve fazer ou deixar de fazer, onde deve ir e de onde deve voltar...

Enfim, tem o homem dessa mulher que proferiu a frase acima o direito total - não de voto, mas de veto. O pior de tudo é que a recíproca não é verdadeira. Mulher alguma proíbe. No máximo ela esperneia, grita, protesta. Mas não lhe é dado o direito de “deixar ou deixar de deixar”. Meus leitores e minhas leitoras devem estar perguntando: “mas o que é que esse marido hipotético não deixa?” Ouso responder: Ele não deixa viver em plenitude. Ele se coloca contra tudo aquilo que poderia representar liberdade de pensamento e ação para a mulher. Ele não permite que ela cresça, que deixe de ser uma menininha que deve obediência ao pai, ou ao amo e senhor.

Lembro-me de uma fase, há muitos anos atrás, quando trabalhei em São Paulo, na co-autoria de alguns manuais da Coleção Sesi. Não foram poucos os taxistas que me olhavam admirados, perguntando “se meu marido deixava” que eu viesse sozinha a São Paulo, muitas vezes para passar alguns dias no hotel, a trabalho.

Além, muito além do direito de ir e vir, a mulher “moderna” (existe isso?) se depara com o problema da posse de seu corpo que, a partir do momento em que “deu a mão” em casamento, passa socialmente a ser de seu marido, tal qual a terra apropriada passa a ser do posseiro.

Aí, vem a pergunta do início dessa matéria: quem pilota seu avião? Por que você se deixa levar, deixa que pilotem a única coisa, ou a coisa mais importante que tem, que é sua vida, sua vontade e seus talentos? Algumas mulheres responderão que é por medo, por comodismo, por abnegação. Para viver bem. No entanto, não é medo nem abnegação que vejo tantas vezes no rosto e percebo na voz das mulheres que dizem que “seus maridos não deixam”.

Eu vejo e percebo um certo orgulho, um tanto de vaidade. É como se dissessem, em outras palavras, que têm um dono, a quem elas pertencem, e o fazem prazerosamente, porque lembram-lhe as palavras do papai, quando eram meninas, filhinhas. Nada mais justo que tenham mudado de dono, e o mesmo discurso seja repetido. Assim, mesmo no século 21, muitas mulheres ainda se acomodam sob o manto ditador de homens que “deixam” ou “não deixam”. É a deixa de que necessitam para fazer parte da sociedade, para ingressar nos clubes de serviço, para exercer filantropia nos chás beneficentes nas tardes de dias úteis.

A grande maioria dos homens latinos, e aqui vale falar dos brasileiros, não tem cabeça para conviver com mulheres independentes, e que odeiam ser cerceadas, mandadas, comandadas. Principalmente se esse homem não está seguro de si mesmo, não confia no seu taco, não tem certeza de que sua mulher pode até ir, porque vai querer voltar. Infelizmente, ainda há muitos homens assim, donos da situação, pilotos sem brevê. Ou melhor, com o brevê cúmplice do resto das famílias, sogros e sogras, mães e pais que só conhecem velhos padrões, e “afastam tudo o que não conhecem”, como diz Caetano Veloso.

São homens que se acham modernos, porque “não deixam que suas mulheres trabalhem”, mas as deixam estudar. E as universidades se enchem de mulheres inteligentes, capazes, que vão precisar de carrinhos de mão para carregar os diplomas para, enfim, cozinharem diante dos mesmos. Obesas intelectuais, mestras, doutoras, mas conduzidas como ovelhas na mão do pastor. De repente, surge uma nova mulher, que é profissional, bem sucedida, e insiste em manter o que conquistou a duras penas. Sai do rebanho. O jeito, então, é o lado masculino apelar para a frase odiosa: “ou o trabalho ou eu...”

Esse “eu” leva muita força, tem raízes profundas, balança fortemente aquilo que nos ensinaram, para que fomos criadas: sermos mulheres e mães. Transformando nossos anseios profissionais, colocando-os em balanças cujo contrapeso são os filhos e a família, acabamos nos rendendo. Admitimos, afinal, que ser profissional pode ser só um capricho. Que pena! A decisão entre “ a carreira ou eu” é sempre dolorosa. Odiosa, eu diria. Por isso, a necessidade de deixar claro, antes de juntar as escovas de dentes, que não precisa mais, em nosso mundo, haver uma relação de obediência e submissão, a não ser (e ainda com muito diálogo) entre pais e filhos.

Não é necessário que, entre pessoas que se amam, haja imposição e escravidão. Muito melhor é estabelecer que cada um tem seu próprio avião, e é livre para conduzi-lo como achar melhor, fazendo sua própria rota, com seu jeito peculiar de ser. Que, longe de afastar, apenas fortalece o verdadeiro Amor.

Imagens: Les Amoureux / Girl Before a Mirror, Picasso

Palavra de Mulher


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belo diagnóstico, Maria Rita! :)

Cris Ebecken disse...

Ou um piloto no comando, ou dois jardineiros pela estrada...

Mariana disse...

Penso que neste diagnostico tem boa dose de orgulho e vaidade que pra facilitar chamamos de machismo...orgulho que traz pessimos efeitos colaterais. Muitos, acho que pra disfarçar que são os pilotos do avião alheio, gostam de chamar a mulher p´ropria e a dos outros pejorativamente "patroa não estressou de vc vir?" ou então.."Ih, se eu sair pra ver ojogo hoje temos que aguentar a Dona Encrenca ", sofrível...Pra se pensar, antes de selecionar o proximo piloto...:)

Ana disse...

oi Maria Rita,
Adorei a crônica!
Adorei a idéia de termos cada um, o seu próprio avião, e adorei toda a analogia, foi perfeita!
Mas, eu, pessoalmente, tenho visto mais e mais mulheres pilotando o seu próprio avião sim.
Claro, deve haver ainda - e talvez até muitos - desses maridos que não deixam. Mas, não sei se é otimismo demais meu, ainda acho que são poucos.
Pelo menos, aqui, nas minhas bandas, o que vejo mais são mulheres fortes, grandes, e desbravadoras do seu próprio caminho!
Bjs querida!
Ana