Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2009

NINA >> Leonardo Marona

Hoje não farei. Não direi por que vim até aqui. Não pedirei a seres irreconhecíveis que me dêem passagem ou justifiquem meu desprendimento. Hoje estou por um fio, e estou feliz. Hoje não quero mais a afirmação de que posso rir. Hoje falarei a sério. Não falarei num futuro composto. Não direi dessa vez: “Hoje vou falar a sério”. Mais importante seria dançar algum jazz verdadeiro. Falarei, de fato, pouco de mim. Certamente – não se engane, falo a mim mesmo – pensarei em Hemingway, Dylan Thomas, em como conseguiram, mesmo sem conseguir. Pensarei em Charles Bukowski, em como, sentado diante da máquina, criou espancamentos em frente às janelas do inverno. Pensarei, portanto, em meu pai. O Demônio da Harmônica cessou toda a música, os pulinhos e passes diante do inevitável tombo, ele está morto, com um baralho cigano dentro do paletó. Pensarei no quanto amo meu pai, no quanto dói não saber dizer simplesmente isso, saber que as coisas não são simplesmente isso. Mas mesmo assim quero quantifi…

COMPRAS >> Kika Coutinho

Eu adoro comprar. Assim como adoro comer. Em ambos os casos, sempre exagero um pucadinho. E, ao chegar em casa cheia de sacolas, é inevitável que eu precise de uma estratégia mirabolante:

— Amor, que sacolas são essas?

— Hã?

— Querida, não acredito que você comprou mais roupa. Que sacolas são essas?

— Amor, você não vai acreditar!

— Ai, lá vem...

— Amorzão, escuta essa. É sério. Eu tava no shopping, andando. Imagine, eu sabia que não tava em tempo de gastar, claro.

— Mas gastou...

— Não, não, escuta, querido!

— Tá. Fala.

— Daí, entrei nessa loja, que você sabe que eu amo.

— Sei.

— E foi incrível, amor! Eu entrei, dei o primeiro passo e, de repente...

— Ai, o quê?

— Começou um barulho, tipo um alarme: pe-pe-pe-pe-pe-pe-pe, bem alto, sabe?, disparando!

— Alarme? — ele já estava interessado.

— É, era um alarme... Eu cheguei a pensar que era fogo, né, shopping, você sabe...

— E o que era?

— Vai ouvindo, amor, vai ouvindo...

— Ai, conta!

— Daí, junto com o alarme, umas luzes piscando, fortes, e, num instante,…

CODINOME >> Carla Dias >>

Adotei um codinome.

Ontem eu era isso, anteontem aquilo, mas hoje eu tenho um codinome que é para ele assumir minha existência e viver os segredos que não cabem no meu nome. E o meu codinome tem um heterônimo, porque está escrevendo um livro imaginário e não quer se assumir intelectual ou autor de diário.

Antes, bastava ter codinome, mas já às portas dos quarenta anos de idade e de toda modernidade que veio junto, tive de dar a ele abrigo. Então, além de heterônimo, meu codinome tem Twitter, Blog, Facebook, Orkut, Myspace, MSN, e-mail, até conta no Youtube!

Ele quer ganhar o mundo.

Meu codinome é metido a cineasta... Gosta de filmar pessoas que gargalham à toa, que choram à toa, que amam à toa, que odeiam à toa. Adora as expressões dos rostos delas quando o sentimento as tomam.

Esse codinome não pode ter nome no SPC, no address book do Outlook de ninguém, não frequenta lista de convidados de festas, não está em certidão de nascimento. É um codinome itinerante e que não deixa rastros.

Solit…

TEM DIAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Tem dias que a gente acorda com um engasgo no peito, na garganta, nos olhos. Tem dias que o sonho -- mesmo o quase amargo pesadelo -- parece mais leve que a vida, e os olhos resistem à luz do sol. Tem dias que é melhor deixar fechadas as janelas da alma mesmo com o quarto cheio de muriçocas. Mas até esses dias têm seus compromissos, seus afazeres, suas promessas a serem cumpridas de outros dias mais antigos e felizes.

Tem dias que a gente nem estranha quando liga o rádio do carro e o MPB-4 começa a cantar "tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu". Tem dias que a gente fala por falar, ouve por ouvir e faz tudo no piloto automático. Nesses dias, até a esperança desespera, os milagres parecem miragem e a crônica crônica não se permite ser escrita.

Tem dias que a gente quer o escuro do quarto, o horizontal da cama, o silêncio da desconversa, mas se vê numa festa de família, na casa da amada tia, entre a avó de 87 anos e as grávidas barrigas da irmã e das primas. T…

DOS MEDOS DE AMAR [Débora Böttcher]

A boca que se esconde sob a barba levemente grisalha procura a dela para um beijo breve e delicado. No instante seguinte, um vulcão emerge do nada, dois seres se fundem, só os sentidos governam...

As mãos dele lhe seguram o rosto, vagarosamente tocam seu corpo, passeando por um caminho muitas vezes percorrido que é sempre como a primeira vez. Vai desenhando nos atalhos dela seu desejo, tatuando sua ansiedade, despejando seu cansaço recebendo algum tipo de paz que não é possível definir.

Seu cabelo escuro tem o tom do trigo; as mechas douradas dela tornam-se negras. A moça quase não percebe mais sua pele clara: ela se mistura à relva morena que a cobre e aquece, e ambos são revestidos de novas vestes, a nudez pura que salta do ar, lobo e águia se amando na superfície da névoa. Um só...

Seus olhos azuis são castanhos, castanhos azuis os dele, luz e sombra brincando com reflexos na penumbra da claridade opaca. Mais tarde, são de todas as cores, espelhos que fotografam a imagem serena e comp…

A CHEGADA DOS VELHOS AMIGOS >> Leonardo Marona

Vocês estão para chegar, a essa altura já estão aqui, e me pergunto: Será que nos reconheceremos? Não mais de um ano se passou desde a última partida. Jogávamos um jogo intenso de olhares, mas havia algo a ser dito que se enterrou na garganta. Pergunta: São os engasgos do que deve ser dito que nos tornam mais velhos? De todo modo, espero por vocês, mas sei que essa frase é inviável. Não espero, porque estou em pedaços, e cada pedaço espera alguma coisa. Mas tenho uma única boca, então sou obrigado a generalizar: Espero por vocês. Mas, na verdade, o que são vocês, aquilo que espero? Talvez que a amizade venha dos códigos silenciosos, e agora é como se precisássemos dizer qualquer coisa – e faltam mais que palavras, falta o fôlego, o mesmo com que disputávamos irreais corridas pelas ruas onde o resto do povo se acotovelava rumo à doença, e nós éramos poetas franceses com nossos largos colarinhos. Mas agora me acotovelo junto a macas infectadas. Máscaras nos rostos, eles já não esperam p…

REPOUSO >> Kika Coutinho

O médico me mandou ficar quatro dias em repouso. Quatro dias em casa.

Quando ele disse isso, excluindo-se as preocupações com o bebê e tal, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Uau! Que delícia, quatro dias inteirinhos só pra mim!" Imediatamente fiz uma lista de todos os livros que iria ler, dos filmes que iria ver, das receitas que poderia pegar na Ana Maria Braga, dos filmes da sessão da tarde, uma vida novela, enfim.

O médico disse, ainda, que não precisava ficar deitada o dia todo, mas para evitar ficar andando muito. Tudo bem, posso me locomover dentro da minha casa que é meu reino absoluto. Não havia mundo melhor.

Preparei uma espécie de QG na minha cama. É QG que se chamam esses escritórios policiais? Ali deixei uma pilha de livros, algumas revistas, meus óculos, os telefones, os controles remotos, um rolo de papel higiênico caso espirrasse e, claro, o computador.

O primeiro dia foi ótimo. Mandei alguns e-mails, assisti ao “Hoje em dia” e li um pedaço de um livro para g…

SOMOS >> Carla Dias >>

Eu sou assim, desse jeito desdito, desengonçado, tenho meus momentos de presteza e desenvoltura, e em outros me sinto estacada no chão. Às vezes grito, mas com a mesma intensidade, eu me calo. Se me viro do avesso, nem pense que é por causa do conforto que não tem braços longos o suficiente para evitar a dolência provocada pela queda.

É que gosto mesmo de ver a mim de dentro pra fora.

Tem dias que não gosto de absolutamente nada que me dão para comer, nem mesmo do que escolho no menu do restaurante, assim como saborear aquela bolacha água e sal, na hora da fome louca que só, continua uma delícia, mesmo que tenha de dividi-la com quem está ao lado.

Dividir em momentos como este é desafiar o egoísmo que impregna o ser humano, que é eloquente. O egoísmo tem um quê de sabedoria soberba.

Para odiar é preciso técnicas revolucionárias, como aquela que nos ajuda a não nos importar com o outro. Mas não adianta querer transformar amor em ódio, depois que o amor morou tanto tempo na alma da gente qu…

AMIGO DISTANTE >> Albir José da Silva

Há uns amigos com quem estamos sempre quites. Ou, quando estamos devendo, é por pouco tempo. Logo pagamos uma visita, um telefonema, um presente de aniversário. Caminhamos em paralelo, nunca nos afastamos ou nos chocamos com eles. Para esses, ligamos no Dia do Amigo ou pedimos desculpas depois por não ter ligado. Com eles vamos às festas, aos bares, ao trabalho, à escola, ficamos tristes ou alegres conforme eles estejam.

Outros deixaram de ser amigos. Chocaram-se conosco. Desses dizemos que não eram realmente amigos, porque amigos não fazem isso. Que não mereciam nossa amizade. Que gastamos tempo e afeto com eles. Que não souberam honrar a amizade. A esses não procuramos e evitamos encontrar. Chegamos a prevenir outros amigos: -- cuidado com ele. Como somos boas pessoas, não lhes queremos mal, mas não nos interessam mais. Não há o que contabilizar da amizade, a não ser algumas mágoas. Viramos a página e estamos em paz.

Mas há um terceiro tipo de amigo, com quem nunca nos chocamos, que …

O JOGO >> Eduardo Loureiro Jr.

As regras eram as seguintes:

a) eu pediria insistentemente;
b) ela negaria até o fim.

E depois:

c) ela mudaria de ideia e me ofereceria o que eu havia pedido antes;
d) eu, por minha vez, recusaria a oferta.

Esfreguei os olhos com a lateral dos dedos indicadores. E lhe pedi o anel.
Ela negou.
Friccionei a manga direita da camisa sobre meu olho esquerdo. E lhe pedi novamente o anel.
Ela continuou negando.
Perguntei a ela se havia um cisco ou um cílio em meu olho.
Ela moveu suavemente seu polegar e o indicador direito sobre o meu rosto, abrindo delicadamente meu olho esquerdo.
"Não vejo nada", ela disse. Mas continuou passeando os dedos em meu rosto à procura da causa de meu incômodo.
Eu agradeci a tentativa. E renovei o pedido do anel.
Ela renovou a negação.
Eu argumentei. Depois supliquei.
Ela, "não". E "não".

"Pensando bem, vou lhe dar o anel".
"Não, obrigado".
"Mas você queria tanto".
"Nunca quis".
"Mas você pediu".
"Pedi…

AMOR NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE [Cristiane Maria Magalhães]

Tinha uma música que tocava quando eu era criança e que nunca me saiu do pensamento. Ainda pequena, sem entender nada dos jogos da vida, esta canção me fazia chorar, pois aquilo que ela dizia eu conhecia muito bem. O amor dos pais é o sentimento que a gente experimenta primeiro. As mãos grandes e as vozes protetoras reconhecemos de longe. Ao ouvi-la ficava pensando: onde já se viu um filho fazer isto com um pai? E imaginava que aquilo só podia ser história inventada.

A letra da canção era assim: “Conheço um velho ditado, que é do tempo dos agais. / Diz que um pai trata dez filhos, dez filhos não trata um pai. / Sentindo o peso dos anos sem poder mais trabalhar, / o velho, peão estradeiro, com seu filho foi morar. / O rapaz era casado e a mulher deu de implicar. / "Você manda o velho embora, se não quiser que eu vá". / E o rapaz, de coração duro, com o velhinho foi falar: / Para o senhor se mudar, meu pai eu vim lhe pedir / Hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair / Leve …

MICHAEL JACKSON (1958 - 2009) >> Leonardo Marona

foi preciso mais de um mês
para secarem as manchetes,
a saliva das hienas familiares,
cessar a boataria provinciana.
agora passa mais de um mês,
os dentes do mundo trituram
tua carne pútrida, as hordas
se aglomeram sobre o vazio.
estamos todos de mãos dadas,
rumo ao que mesmo teu corpo,
mais perfeito que a suposição
de deus ou de esferas métricas,
não pôde suportar, e tua morte
não é tua morte, é nossa morte.

falavam sobre ti, sobre teu sexo,
porque representavas nossa falta.
dos teus distúrbios psicológicos,
para escamotear as taras diurnas
com as quais damos leves passos.
mas teus passos não eram passos,
eram surtos, convulsão mitológica,
para nós, que trombamos nas ruas,
e desprezamos o gênio para amá-lo.
como o teu pai, com pedaço de pau,
batemos em ti até a morte, e agora
nos perguntamos: que fazer da sobra
com que nos arrastamos pelos dias?
que falar de ti, que parou o tempo?

queira nos perdoar, mister Jackson,
pelos restos que te demos em troca
da mágica do herói de video game.
queira desculpar por ter ofusc…

VIAGENS >> Kika Coutinho

Há alguns anos atrás eu trabalhava em uma grande empresa e estava alocada em um projeto global, portanto estava na mesma equipe de pessoas que ficavam do outro lado do mundo e tinha diversas conversas telefônicas com os americanos.

Foi numa tarde normal, em que eu falava com uma gringa, que tive um instante de susto quando ela disse qualquer coisa como:

– Você estará disponível no dia tal a tal para participar de um workshop aqui em Chicago?

– What?! – foi o que eu respondi...

A gringa continuou falando, explicando, e eu achei que meu inglês devia estar mesmo muito ruim, porque tinha entendido que a mulher estava me chamando pra ir pra Chicago, imagine. Pedi pra ela mandar tudo por e-mail alegando que a ligação estava ruim. Acontece que, depois, ela me mandou mesmo tudo por e-mail, e era verdade. Alguém agilizou meu visto, passagens, hotel e etc. Estava mesmo tudo certo, mas eu custava a acreditar.

No dia de embarcar, quando cheguei ao aeroporto, cheguei a sentir-me relutante ao fazer o ch…

DESCORTINÁVEL >> Carla Dias >>

Sonhos recorrentes me inquietam...

Ser recorrente me assusta.

Não dizem (digo) que tudo já está na fase do reinventado (invertido)? Toda história já foi contada, e agora o que vale é a lábia, a doçura, o erotismo vestindo o olhar desbotado, inócuo. O dito que é desdito na tentativa de se angariar releituras.

Releituras me intrigam... Que fique claro que releitura não é cópia, mas uma forma diferente de se alcançar o significado (se isso é possível) do que já foi criado. Dizê-lo de forma diferente. Olhá-lo com mais afeto do que o julgamento que acompanha quase todas as observações nossas sobre as crias alheias, principalmente quando desejamos demais sermos os pais delas, não somente seus autores.

É preciso haver humildade para que uma releitura seja gratificante. Para que seus cantos, avessos, assimetrias, fragmentos sejam rearranjados de uma forma muito mais bela, valendo-nos sempre da beleza que transborda das disparidades.

A releitura do vôo rasante me remete aos refúgios emocionais, com…

FINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

"Nem tudo que acaba aqui
deixa de ser infinito."
(Zélia Duncan / Edu Tedeschi)

Eu gosto de finais. Mas não de alguns finais.

Houve uma época em que eu tinha vontade de sair do cinema sempre um minuto antes do filme acabar. Eu tinha a sensação de que os diretores não sabiam concluir os filmes, que terminavam sempre depois do ponto ideal.

Não, eu não tenho nada contra finais felizes, até gosto muito do "viveram felizes para sempre", mas de vez em quando acho que se força um pouco a barra. Para a alegria ou para a tristeza.

O final não pode ser fruto de "um jeitinho", o final tem que estar de acordo, concordar, de coração, com a história. Isso não quer dizer que não possa ocorrer uma reviravolta no final. O final mais impactante que já vi tem uma grande reviravolta. E o personagem, na cena final, não se parece em nada com o personagem durante todo o filme, mas pra mim é impensável que o filme pudesse terminar de outra forma.

Vejam por vocês mesmos o final de "…

É QUE EU PRECISO DIZER >> Leonardo Marona

E então Bebel Gilberto olhou para mim com os olhos emprestados do demônio e me ensaboou de amor próprio, a mão no meu ombro: “E você, babaquinha, o que você faz, hein?”. E olhando para ela sentada na mesa do traficante mais famoso do Baixo Gávea, cabelos grisalhos, provavelmente um derrame ou óleo quente na prisão, um que age sempre em frente ao Bar Hipódromo, habitualmente acompanhado por uma bela loira sincera em termos de nádegas, que leva o branco até o nariz do podre. E olhando para ela, filha Dele, Bebel, abraçar os garçons daquele jeito, um rapaz de Sobral chegou a ajeitar a borboleta no pescoço com a violência da paixão despercebida de quem fez... E faz... E viu... E nasceu... E brilhou!

Enfim. Ela estava com os dentes amarelos e podres bem na minha cara, queria saber de mim. Eu sabia dela. E o que não sabia ainda, já sabia agora. Tentava lembrar daquela música, “...te amar ou perder sem engano...”, aquela que o Cazuza deu para ela cantar. E ela era exatamente ela mesma naquela…

O milagre >> Kika Coutinho

Bem eu que nunca fui sorteada em nada. Bem eu que nunca ganhei em rifa, nem em bingo, nem em nada.

Bem eu, agora, recebi um milagre.

Tudo bem que é um milagre corriqueiro, acontece todos os dias, com muita gente, mas um milagre não deixa de ser milagre apenas por ser comum. O que faz de um milagre um verdadeiro milagre é a sua grandiosidade, seu fator incrível, sua enorme magia e encantamento, e não sua raridade, oras. O milagre pode ser freqüente mas, nunca, banal.

Na verdade, o milagre que me aconteceu não parecia tão milagroso assim, enquanto eu o via acontecer aos outros. A gente se acostuma aos milagres, não? No entanto, basta que eles aconteçam conosco para darmos a eles o devido valor, basta que o milagre seja nosso, seja em nós – e para nós – que, daí sim, o notamos e ficamos naquele estado de choque, um bocado anestesiados, outro tanto abobados, encantados por sermos premiados, sorteados, ganhadores da mega-sena acumulada que nos foi esse milagre.

O meu milagre aconteceu sem eu n…

TIPO UM TESTAMENTO >> Carla Dias >>

Ah, o memorial do Michael Jackson...

Quando eu morrer, quero um memorial também, mas claro que nas devidas proporções: um show na sala da minha casa mesmo, ou no quintal do sítio que minha mãe um dia inaugurará (os alicerces já estão prontos!), gente boa batendo uma caixa sem perceber que a morte passou por ali e me levou pela mão. Meus sobrinhos contando, sorriso nos lábios, sobre quando eu lhes dava beijos de cachorro ou rolávamos no chão fazendo cócegas uns nos outros. Mulheres e homens feitos, dando beijos de cachorro em seus filhos e netos, e rolando com eles no chão, fazendo cócegas uns nos outros.

A gente - enquanto gente – em algum momento acaba por imaginar a morte como imaginou a vida: de um jeito quase lúdico, como se fosse um game com direito a vencedor e vencido. Mas acho que não é bem assim ao pensar nisso agora, quando o assunto está alerta como o olhar do girassol lançado ao céu.

Só não quero lavação de roupa suja no meu funeral rock’n roll! Coisinhas terreninhas de tudo,…

LINDA SENHORA >> Eduardo Loureiro Jr.

Ela tem sido minha companheira mais fiel...

Esperava por mim antes mesmo de eu nascer. Acompanhou meu parto. Mesmo não sendo minha parente direta, esteve presente em todos os meus aniversários. E, se não aparece nas fotos, é por pura timidez. Esteve comigo naquela festa junina em que fiquei, menino, sem par. E me acompanhou naquele briga contra os colegas de rua. Escutava, pacientemente, eu mudar de emissora em emissora no rádio durante as madrugadas adolescentes. Sempre cuidou de mim quando minhas namoradas viravam ex. Em meus momentos mais felizes, sempre foi discreta; recolhia-se a seu canto com humildade e nunca quis partilhar das glórias que foram gestadas em nossos encontros. Chegamos a fazer um pacto de morte, mas achamos melhor não levar adiante.

Mesmo eu tendo crescido, ainda nos encontramos vez por outra. Quando ela vem, adio todos os compromissos e faço como ela faz comigo: dedico-lhe toda a minha atenção. Ela traz uns filmes, uns livros, uns CDs, e a gente fica vendo, lendo,…

INDEPENDÊNCIA [Sandra Paes]

Dia quatro de julho celebra-se a independência dos USA. Natural as pessoas perguntarem: “O que você vai fazer? Onde vai celebrar?” Eu, que ando ligada a outras questões, levo um certo tempo pra me localizar e responder o simples “não sei!” É claro que estava me referindo a como e onde celebrar a independência do país. Algo tão importante para os patriotas americanos.

Mas o tema não deixou de circular em minha mente essa semana toda. Na televisão, fala-se em independência financeira, independência de governos — por conta do assalto a Honduras —, independência de vidas de maneira geral, como quando vimos a briga pelo corpo e herança de Michael Jackson.

Aqui, no meu cantinho, me encolhi diante da constatação mais evidente: a total dependência da energia elétrica.

Tem chovido demasiadamente todos os dias. Tempestades intensas, dessas com coriscos que assustam a alguns e prenunciam um tempo pesado de furacões. Ontem, antes do escurecer — aqui é verão e o sol se põe pelas oito da noite —, reso…

O Deserto de Hofmannsthal >> Leonardo Marona

“Rape and rebellion in the nurseries of my face”
(Dylan Thomas)
Aos que ficarão eu deixo minha rosa negra, esse hálito espesso das últimas respirações. Sou do tipo dócil, que esconde metralhadoras nas entranhas. De uma ambição tão firme que não permite a tentativa esperançosa. “Não serás nada. Por mais que faças, não serás nada”. As frases como pedras interrompem a perfeição alienada. O problema real é que não falta água: carregamos o deserto dentro do peito, nos arrastamos em nós. Oásis às avessas, pensamos, sentimos, padecemos, mas a crueldade do fragmento caótico não se ocupa de nossas avançadas tecnologias ou das imagens saturadas da nossa falta de sentido cósmico. E, afinal, ao me isolar, me reconheço finalmente como terra minha, infértil sobre a identidade submersa. A relação transborda e mistura os venenos adocicados. Somos todos no fundo feitos de poemas abandonados e frases de consolo as quais desprezamos e dizemos automaticamente, para ocuparmos as bocas que ruminam infanticíd…

MENINOS DO BATUKA! >> Carla Dias >>

Estamos aqui, na correria para a realização da 11ª edição do Batuka! Brasil International Drum Fest, um festival de música voltado à bateria e à percussão, idealizado pela baterista Vera Figueiredo, com quem trabalho há quase dezesseis anos.

Dos quase dezesseis anos, dez deles eu trabalhei na produção do festival que, desde sua primeira edição, em 1996, serve como ponto de encontro para instrumentistas e público em geral vindos de vários estados brasileiros. Essa colcha de retalhos cultural vem nos servindo de ferramenta para defender o que mais nos interessa nesse projeto: criar espaço para instrumentistas e sua diversidade cultural, promover o intercâmbio entre músicos brasileiros e estrangeiros e, principalmente, divulgar a nossa cultura. Foi dessa forma que o Batuka! Brasil entrou para a lista mundial dos mais importantes festivais do gênero.

O Batuka! Brasil recebe artistas brasileiros e estrangeiros para apresentação de performances, workshops, palestras e shows. Além dessa progra…