domingo, 5 de julho de 2009

LINDA SENHORA >> Eduardo Loureiro Jr.


Ela tem sido minha companheira mais fiel...

Esperava por mim antes mesmo de eu nascer. Acompanhou meu parto. Mesmo não sendo minha parente direta, esteve presente em todos os meus aniversários. E, se não aparece nas fotos, é por pura timidez. Esteve comigo naquela festa junina em que fiquei, menino, sem par. E me acompanhou naquele briga contra os colegas de rua. Escutava, pacientemente, eu mudar de emissora em emissora no rádio durante as madrugadas adolescentes. Sempre cuidou de mim quando minhas namoradas viravam ex. Em meus momentos mais felizes, sempre foi discreta; recolhia-se a seu canto com humildade e nunca quis partilhar das glórias que foram gestadas em nossos encontros. Chegamos a fazer um pacto de morte, mas achamos melhor não levar adiante.

Mesmo eu tendo crescido, ainda nos encontramos vez por outra. Quando ela vem, adio todos os compromissos e faço como ela faz comigo: dedico-lhe toda a minha atenção. Ela traz uns filmes, uns livros, uns CDs, e a gente fica vendo, lendo, ouvindo em silêncio. A gente se fala pouco. Aproveita o tempo só pro aconchego. Ela não precisa de mim, mas faz jeito de quem precisa, pra que eu não fique tão desconfortável ao me abandonar em seu colo. Se dá vontade de chorar, eu choro, e ela chora junto, me consolando com sua própria solidão. A gente passa dias, semanas, sendo um do outro. Ela tem um cheiro gostoso que enche meu peito de saudade. A vida vivida e também a que não vivi ficam ali feito eu e ela, lado a lado. Ela é uma linda senhora, que parece apenas um pouco mais velha do que eu. Nunca lhe perguntei a idade, acho que não interessa. Ela vem quando quer, não tem pressa de sair. Eu não me incomodo. Com ela me sinto à vontade, até mais à vontade do que quando estou sozinho. Às vezes, fico pensando como será a vida quando ela não puder ou não quiser mais vir. Mas minha imaginação não vai muito longe. Ou então nosso amor é mesmo para sempre, embora eu saiba que não sou o único. Sei que, quando durmo, ela vai ao encontro de outros, e não tenho motivos para pensar que ela os trate pior do que a mim. Não tenho ciúmes. Sou capaz de ficar anos longe dela e nem mesmo sentir saudades. Mas quando ela volta, o abraço e o silêncio são todo o conforto que eu sempre quero.

Todo mundo fica triste às vezes. Depois desfica. Depois fica de novo. Eu prefiro pensar que a Senhora Tristeza vem me visitar de vez em quando.

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11 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo, meu amigo, você não podia ter dormido. A ‘Senhora Tristeza’ se sentiu abandonada e pediu abrigo a mim. Quis negar-lhe, mas foi em vão. Ela mergulhou fundo e alojou-se nas minhas entranhas...
Por favor, acorde! Nesse momento, eu preciso de um abraço e da doçura de suas “palavras caramelo.”

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, linda a poesia para a Senhora Tristeza...Acho que ela só te visita de vez em quando, porque fica sem graça de ser tão bem tratada e poetizada...
Espero que aquela outra, a Senhora Felicidade, tenha uma morada fixa aí no seu coração.:)

Tia Monca disse...

Junoca,
Bela forma de expressão da sua tristeza. Desse jeito ela vai querer vir mais vezes :o)Como me sinto mais à vontade com a Sra Alegria desejo que venha lhe visitar em breve, e fique por muito tempo:o)
Tia Monca

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Desculpe o cochilo, Juliêta. :) Também estou precisado de caramelo.

Marisa, que sua esperança se torne realidade.

Amém, Tia.

Cristiane disse...

Sempre tão renegada, a 'Linda Senhora' encontrou par nas suas palavras. Tive ela comigo por tantos anos (praticamente toda a infância e adolescência) que agora em que ela aparece só para um dedo de prosa rápido nem me dou conta do quanto ela me foi fiel e amiga. Como você, não tenho saudade quando ela se vai, ao contrário, sempre espero que ela tarde em voltar. Ando acompanhada de outra, uma tal Senhorita Liberdade. Belo texto!
Um beijo

Felipe disse...

Seu xarazinho mandou perguntar qual a reação dessa senhora quando você assistiu a "Os embalos de quarta à tarde". :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Cristiane, parece mesmo que as senhoras Tristeza e Liberdade não se bicam: não tem como convidar as duas pro mesmo evento. :)

Só você mesmo, meu amigo... :) Diga ao Eduardinho que a senhora tremeu nas bases e, quando pensou que eu não estava olhando, ficou mexendo o braço esquerdo e requebrando.

Carla Dias disse...

A Senhora Tristeza tem essa coisa de passar a mão no rosto da gente quando parte, essa promessa muda de volta. Os sábios sabem apreciá-la... Como você.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Linda essa imagem da mão passando no rosto, Carla. Grato pelo "como você". :)

البتراء Petra disse...

edu-Ard(u)o!

Dostoyèvski, escreveu:
"Um dia a Beleza ainda vai salvar o mundo".

E eu concordo, sobretudo ao ler mais uma belíssima crônica de sua autoria.

E talvez por isso mesmo, reCORdo que a ALEGRIA é mais rara, mais difícil e infinitamente mais Bela do que a Sra. Tristeza.

A esse respeito, escreveu André Guide: "Feita essa descoberta, você precisa acolher a alegria - até mesmo - como uma obrigação moral".

Eu?
confesso que essa sua "linda Senhora" aí, quase me alcançou num abraço quando você não abriu a porta do seu orkut ao meu 'toc..toc"...
mas graças a Deus outro poeta menino, me deu a mão e lembrei que "a vida é bonita, é bonita, e é bonita".
;o)
E por assim ser, acolho e respeito o seu livre arbítrio enquanto cantarolo baixinho: "liberdade, liberdade...abre as asas sobre nós... e que o sol da liberdade...seja sempre a nossa voz". ;o))

No mais...que nesse novo tempo essa tal Linda Senhora te dê uma folga...e que nada que não seja a mais pura expressão da "outra" (a que é a Puta Alegria) sequer se aproxime de vc.

;o)

Ps. do coração: Eu também AMEI O "COMO VOCÊ"...da nossa Carla, que sempre está em DIAs, com a mais bela poesia!
;o)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Petra, acho que estou justo nesse momento da obrigação moral de acolher a alegria. :) Ah, seu Orkut é que está fechado para recados. Como eu não sabia — e ainda não sei —, quem estava fazendo toc-toc, deixei como estava.