quarta-feira, 8 de julho de 2009

TIPO UM TESTAMENTO >> Carla Dias >>


Ah, o memorial do Michael Jackson...

Quando eu morrer, quero um memorial também, mas claro que nas devidas proporções: um show na sala da minha casa mesmo, ou no quintal do sítio que minha mãe um dia inaugurará (os alicerces já estão prontos!), gente boa batendo uma caixa sem perceber que a morte passou por ali e me levou pela mão. Meus sobrinhos contando, sorriso nos lábios, sobre quando eu lhes dava beijos de cachorro ou rolávamos no chão fazendo cócegas uns nos outros. Mulheres e homens feitos, dando beijos de cachorro em seus filhos e netos, e rolando com eles no chão, fazendo cócegas uns nos outros.

A gente - enquanto gente – em algum momento acaba por imaginar a morte como imaginou a vida: de um jeito quase lúdico, como se fosse um game com direito a vencedor e vencido. Mas acho que não é bem assim ao pensar nisso agora, quando o assunto está alerta como o olhar do girassol lançado ao céu.

Só não quero lavação de roupa suja no meu funeral rock’n roll! Coisinhas terreninhas de tudo, como as mancadas que dei como amiga, filha, tia, sobrinha e por aí vai, bom, elas merecem vir à tona quando eu ainda estiver na terra, viva, ciente do significado de algumas palavras-chave de defesa e aceitação dos erros cometidos.

Mas quero ser cremada! Nada de ocupar espaço sem necessidade.

Há algumas semanas, faleceu a avó de um querido amigo. Eu só sei que o nome dela é vó, viu? Nunca perguntei sobre as letras que a tornavam uma cidadã do mundo.

De alguns anos pra cá, a vó estava com o esquecimento à flor da pele, atacado feito aquela tosse que, crianças, achamos que nunca vai passar e vai acabar estourando nossos pulmões; que nos faz querer somente deitar a cabeça nos ombros da mãe, enquanto ela pensa em salvar a gente do abismo. Então, toda vez que eu aparecia na casa da vó, ela me fazia a mesma pergunta, como se tivesse voltado o calendário e se perdido no caminho, vivendo de passado e esfumaçando o presente. Eu nunca consegui responder a tal pergunta de uma resposta só... Cada dia era uma resposta, houve até o dia em que ela foi apenas um sorriso desalentado.

Será que a vó achou a resposta antes de mim? Espero que sim...

Semana passada, faleceu um baterista muito querido no nosso meio, autor de um método para bateria que ajudou muitos músicos a se tornarem bons profissionais. Em 2003, ele estava com 84 anos de idade, ele veio ao Brasil para se apresentar no Batuka!. Além de uma pessoa sábia, via-se que a bateria era realmente a sua vida. Aquele homem de cabelos branquinhos que só, de encher o olhar da gente de admiração e a alma de inspiração, com tantas histórias sobre a música e sobre suas experiências para contar, foi-se daqui para adiante com crédito no paraíso. Educou muitos músicos, mas também contribuiu com a humanidade de muitos deles.

O que quero dizer é que não foi somente a morte do Michael Jackson que colocou em xeque a minha imortalidade (e a de tantos outros por aí). Tenho pensado nisso, com essa nostalgia que vem junto, como se lembrar dos avôs e das avós que já se foram, ou dos amigos e irmãos que perdemos prematuramente. Vida e morte são companheiras, mas, como na vida da gente, as irmãs sempre entram em atrito em algum momento. Há sempre a mais suave no trato e a tresloucada... Isso quando não tem a do meio, que não fica nem lá nem cá, debruça no muro e vive de morrer.

Viver requer um traquejo e tanto, mas a ciência de que temos prazo de validade nos faz sim temer termos feito mais mal do que bem aos outros e a nós mesmos. E fosse fazer meu testamento hoje, meu espólio seria emocional até, apesar de físico. Deixaria meus livros de prateleira e meus discos aos amigos, meus afetos e questionamentos tatuados neles. E a cada um a quem os dediquei, deixaria os livros que escrevi.

Há pessoas que faço questão que estejam presentes na minha festa de partida, então vou torcer para que não façam o baile antes de mim. E aconteça na sala de casa ou no quintal do sítio da minha mãe, ainda que invada as ruas de São Paulo ou o parque da minha infância, lá na minha querida Santo André; ou que seja desnaturada de tradição e vá acontecer à beira do mar, minha festa será memorável, apesar de eu ter certeza de que há quem lavará roupas sujas, enquanto dança o rock’n roll. Mas fazer o quê? Coisas da vida.

Imagem: Jim (Unprofound)


http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, você tem idéia da minha alegria quando leio uma crônica clássica, perfeita, sem precisar voltar ao tempo de Rubem Braga ou Machado de Assis? Pois foi assim hoje. Você foi do já entendiante noticiário sobre Michael Jackson até o quintal de Santo André com uma destreza, um ritmo e uma beleza de se aplaudir de pé e dançar junto. Se não fosse coisa de mau agouro, eu ia pedir pra você reservar minha vaga no seu funeral. Mas "viver é melhor que sonhar", mesmo que seja com a morte. :)

Marisa Nascimento disse...

Carla, só você para encher a morte de poesia! Sempre achei que nossa cultura promove uma ópera ao sofrimento no momento da passagem. Você semeou alegria para ser colhida num momento que, mesmo de saudade, é a única certeza que temos em vida.

Juliêta Barbosa disse...

Carla,

Achei uma graça nos seus "beijos de cachorro."
Eu também quero ser cremada, mas só depois de ter todos os meus orgãos doados. Seu texto passa a impressão que você é uma pessoa de bem com a vida. Gostei!. Bjs.

Patrícia disse...

Carla, você realmente é demais, não consigo achar palavras para descrever, o quanto tudo o que escreve, envolve, emociona e apaixona. Sou muito sua fã, queria ter mais tempo para conversarmos. Beijo grande no coração, da prima Patrícia

Carla Dias disse...

Eduardo... Mau agouro à parte, seu lugar no meu funeral já está reservado : )
Fiquei muito feliz pelas suas palavras, viu? Fiquei eu sem as certas para lhe agradecer tal carinho.

Marisa... Não que não soframos, até por conta da nossa cultura. Mas temos que nos esforçar para não cavoucarmos um belo de um abismo, não? Prefiro a profundidade necessária para cultivar flores em jardins.

Juliêta... Os beijos de cachorro têm história e já virou até um continho para os meus sobrinhos e sobrinhas. Porque os beijei muito com beijos de cachorro, e contei histórias sobre esses bichinhos que eles ajudavam a construir.
E posso até ter meus momentos de não estar de bem com a vida, mas garanto que não tenho medo algum de fazer as pazes com ela, e rapidinho!

Patrícia, minha prima querida... Fico muito feliz quando você passa por aqui e deixa suas palavras de carinho. Também sou sua fã, afinal, você cuida da vida das pessoas e para isso é preciso um talento e tanto.