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DOS MEDOS DE AMAR [Débora Böttcher]

A boca que se esconde sob a barba levemente grisalha procura a dela para um beijo breve e delicado. No instante seguinte, um vulcão emerge do nada, dois seres se fundem, só os sentidos governam...

As mãos dele lhe seguram o rosto, vagarosamente tocam seu corpo, passeando por um caminho muitas vezes percorrido que é sempre como a primeira vez. Vai desenhando nos atalhos dela seu desejo, tatuando sua ansiedade, despejando seu cansaço recebendo algum tipo de paz que não é possível definir.

Seu cabelo escuro tem o tom do trigo; as mechas douradas dela tornam-se negras. A moça quase não percebe mais sua pele clara: ela se mistura à relva morena que a cobre e aquece, e ambos são revestidos de novas vestes, a nudez pura que salta do ar, lobo e águia se amando na superfície da névoa. Um só...

Seus olhos azuis são castanhos, castanhos azuis os dele, luz e sombra brincando com reflexos na penumbra da claridade opaca. Mais tarde, são de todas as cores, espelhos que fotografam a imagem serena e complexa da alegria.

O segundo que os acolhe se figura eterno. O momento se perde na imensidão incontida de um espaço sem dimensão, o mundo inteiro guardado entre quatro paredes, toda magia da abstração escondida nos cantos dos dois amantes.

Alguma música sempre os envolve, mansa e suave, embora ao longe se perceba um silêncio que reina: os rumores que moram na alma vão falando através da ausência de sons, derrubando os mistérios, todos os segredos desvendados sem que nada precise ser dito... Se conhecem...

Quando a loucura inocente se aquieta, estão banhados de suor e brilho, confundidos e perdidos um no outro, o riso dela ecoando dentro dele, seu carinho lhe roçando a face, incansável... Mil beijos... Assim são...

Muito tempo depois, ela ainda está aninhada em seu peito, o braço dele sobre seu ventre. Tranqüilo, derrama sobre ela o peso do seu descanso, o sono calmo. Ela se concentra em sua respiração pausada, o ruído baixinho de vida adormecida ao seu lado.

No meio da noite, num delírio momentâneo, sente-o à sua procura: ela está ali, e todo o universo sombrio da inquietação se desfaz - de volta ele se entrega ao país da inconsciência.

Às vezes, ouve que a chama. A voz embaraçada e distante, um murmúrio que lembraria um sonho... Um sorriso lhe aflora: sabe que agora é parte das brumas que o visitam quando ele está inerte e desprovido de defesas; um pedaço dele, metade que completa seus próprios vazios... A moça sabe que disso ele tem medo...

Ela adormece na madrugada alta, devagar deslizando para o estado tênue onde a escuridão é soberana e parece estancar tudo ao redor.

Quando o sol se levanta e pelas frestas da janela se instala, ainda se guardam um no outro. Todos os vestígios de si estão cravados nas arestas de seus poros, o perfume...

Novo dia começa. Contradição e dúvida os perseguem: de repente, descobrem que não podem fugir dos traços que o destino escreveu. Em ideogramas dourados, na folha em branco que os ventos carregam, seus nomes, lado a lado. A memória abarcou... Num relâmpago, a recordação se faz verdade...

Disso, têm medo os dois...

Comentários

Juliêta Barbosa disse…
Débora,

"...os rumores que moram na alma vão falando através da ausência de sons, derrubando os mistérios, todos os segredos desvendados sem que nada precise ser dito... Se conhecem..."

Belíssimo Texto! Um dos melhores que já li aqui. Obrigada, por partilhá-lo.
Ana disse…
Oi Dé,
que lindo.
que saudades de ler você!
beijos
Cristiane disse…
Debby, é sempre tão bom ler um texto seu. Eles são cheios de significados e metáforas, carícias com as palavras, ofertas de um algo mais. Algo que se esconde sob as linhas. Sob o dito fica o não dito, gostoso de imaginar.

O desejo, nas suas palavras, tem fogo e tem também abraço; tem suor e tem encontro terno de lábios; tem o que quer pressa para sentir tudo de uma só vez (explosão) e tem o profundo de sentir vagarosamente o tudo (intenso).

beijo grande
Debora Bottcher disse…
Meninas,
Ana, Cris, e Julieta, a quem não conheço: obrigada pelo carinho de sempre. Acho que vcs é que têm uma sensibilidade ímpar para ler e sentir as palavras e gestos, a metáfora e a verdade, a intensidade e a calma de um texto -meu e de outros.
Alguém já não disse que quem lê é que enaltece o que está escrito? É o que eu acho: quem escreve talvez apenas monte o cenário pra imaginação alheia divagar... :)
Super beijo e boa semana!
Débora, que bom te ler!
Sempre, depois dos seus textos, fico aqui com cara de boba, sorriso no rosto, pensando: Como pode escrever tão bem?
Beijos
Carla Dias disse…
Me deu até saudade de sentir medo... Lindo que só, Débora.
Que obra-prima de delicadeza, Debora! Um dia ainda quero fazer amor assim. :)

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