quinta-feira, 9 de julho de 2009

O milagre >> Kika Coutinho

Bem eu que nunca fui sorteada em nada. Bem eu que nunca ganhei em rifa, nem em bingo, nem em nada.

Bem eu, agora, recebi um milagre.

Tudo bem que é um milagre corriqueiro, acontece todos os dias, com muita gente, mas um milagre não deixa de ser milagre apenas por ser comum. O que faz de um milagre um verdadeiro milagre é a sua grandiosidade, seu fator incrível, sua enorme magia e encantamento, e não sua raridade, oras. O milagre pode ser freqüente mas, nunca, banal.

Na verdade, o milagre que me aconteceu não parecia tão milagroso assim, enquanto eu o via acontecer aos outros. A gente se acostuma aos milagres, não? No entanto, basta que eles aconteçam conosco para darmos a eles o devido valor, basta que o milagre seja nosso, seja em nós – e para nós – que, daí sim, o notamos e ficamos naquele estado de choque, um bocado anestesiados, outro tanto abobados, encantados por sermos premiados, sorteados, ganhadores da mega-sena acumulada que nos foi esse milagre.

O meu milagre aconteceu sem eu nem saber. Não faço idéia de quando se deu o fato. Fui notar muito tempo depois. Que coisa modesta é o milagre, né? Vem tão calado, na espreita, devagarzinho, muito, muito em silêncio. É na quietude que acontecem os milagres.

O meu, então, aconteceu em alguma noite qualquer. Eu não notei. Vim a saber depois, muito depois, quando percebi que havia algo diferente no meu corpo. Era o milagre.

Ainda assim não botei muita fé. Passei manteiga no meu pão, fui fazer a unha, mandei uns e-mails, tomei um copo de toddy – estava enjoativo. De novo, era o milagre dando as caras. Fiquei quieta no meu canto. Escrevi uma crônica, trabalhei um bocado, fiz um monte de xixi. Diacho, que tanto xixi que eu faço agora?, pensei comigo sem saber que era a dica, uma sutileza que passou despercebida, um recado do milagre que me acontecera.

Foi só de tarde, quase no final do dia, que resolvi aceitar a sugestão de uma colega e fazer um teste de farmácia. Ainda não tinha anoitecido. Estava sol aquele dia. O sol, certamente, era um milagre do inverno, como que me dizendo que não havia frio nem escuridão no milagre que já acontecia dentro de mim. Foi antes das 5 da tarde que eu soube do milagre. Ali, num teste de farmácia, que reluzia com duas listras diante de mim. Era um sinal de positivo. Um jóia, um ok, uma vida nova, me dizendo o quanto era positivo o fato da vida ainda ser repleta de milagres. Entre o susto e alegria, falei sozinha: “É um milagre!”. Calada, diante da prova irrefutável do milagre, não conseguia deixar de pensar o quanto era incrível que um óvulo, um único óvulo, um pequeno óvulo, tinha sido atingido por um espermatozóide, um micro espermatozóide, que eu nem sabia como era, uma explosão acontecera dentro de mim e, talvez, eu estivesse até dormindo. O milagre era maior do que eu, enfim.

E dentro da minha barriga, que assisto crescer todos os dias, um pequeno-enorme milagre cresce. À revelia do que eu faça ou do que eu coma, ou do que eu pense.

Eu nunca ganhei um sorteio, nem rifa, nem nada, mas, a mim, a vida deu um milagre. Que explodam os fogos, que chovam estrelas sobre nós, eu vou ter um bebê.

Partilhar

6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, fiquei aqui imaginando a felicidade dessa menina (não sei por que, mas imaginei que fosse uma menina) quando ela puder ler, ela mesma, essa sua linda crônica. Sim, que se explodam os fogos e que chovam estrelas. Que bela notícia para uma quinta-feira. :)

Bia disse...

E M O C I O N A N T E!!!!!

Beijos!!!

Marisa disse...

Kika, que belo texto de boas vindas!
Ao contrário do Eduardo, eu vi um menino. Ainda bem que as chances de erros e acertos são de 50%. :)

Anônimo disse...

Querida que lindo este seu texto....nossa filha vai ter que aprender a ler bem rapidinho para ler todos seus textos!!

Te amo
Bjs

Juliêta Barbosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliêta Barbosa disse...

Kika,

Que Deus a abençoe!
O meu último milagre gerou um texto ao qual dei o nome de "Despedida". Assim é a vida! Você iniciando a sua trajetória e eu encerrando a minha. Curta bem esse momento, um dia ele será necessário para você entender que a sua vida valeu a pena.bjs