Pular para o conteúdo principal

O milagre >> Kika Coutinho

Bem eu que nunca fui sorteada em nada. Bem eu que nunca ganhei em rifa, nem em bingo, nem em nada.

Bem eu, agora, recebi um milagre.

Tudo bem que é um milagre corriqueiro, acontece todos os dias, com muita gente, mas um milagre não deixa de ser milagre apenas por ser comum. O que faz de um milagre um verdadeiro milagre é a sua grandiosidade, seu fator incrível, sua enorme magia e encantamento, e não sua raridade, oras. O milagre pode ser freqüente mas, nunca, banal.

Na verdade, o milagre que me aconteceu não parecia tão milagroso assim, enquanto eu o via acontecer aos outros. A gente se acostuma aos milagres, não? No entanto, basta que eles aconteçam conosco para darmos a eles o devido valor, basta que o milagre seja nosso, seja em nós – e para nós – que, daí sim, o notamos e ficamos naquele estado de choque, um bocado anestesiados, outro tanto abobados, encantados por sermos premiados, sorteados, ganhadores da mega-sena acumulada que nos foi esse milagre.

O meu milagre aconteceu sem eu nem saber. Não faço idéia de quando se deu o fato. Fui notar muito tempo depois. Que coisa modesta é o milagre, né? Vem tão calado, na espreita, devagarzinho, muito, muito em silêncio. É na quietude que acontecem os milagres.

O meu, então, aconteceu em alguma noite qualquer. Eu não notei. Vim a saber depois, muito depois, quando percebi que havia algo diferente no meu corpo. Era o milagre.

Ainda assim não botei muita fé. Passei manteiga no meu pão, fui fazer a unha, mandei uns e-mails, tomei um copo de toddy – estava enjoativo. De novo, era o milagre dando as caras. Fiquei quieta no meu canto. Escrevi uma crônica, trabalhei um bocado, fiz um monte de xixi. Diacho, que tanto xixi que eu faço agora?, pensei comigo sem saber que era a dica, uma sutileza que passou despercebida, um recado do milagre que me acontecera.

Foi só de tarde, quase no final do dia, que resolvi aceitar a sugestão de uma colega e fazer um teste de farmácia. Ainda não tinha anoitecido. Estava sol aquele dia. O sol, certamente, era um milagre do inverno, como que me dizendo que não havia frio nem escuridão no milagre que já acontecia dentro de mim. Foi antes das 5 da tarde que eu soube do milagre. Ali, num teste de farmácia, que reluzia com duas listras diante de mim. Era um sinal de positivo. Um jóia, um ok, uma vida nova, me dizendo o quanto era positivo o fato da vida ainda ser repleta de milagres. Entre o susto e alegria, falei sozinha: “É um milagre!”. Calada, diante da prova irrefutável do milagre, não conseguia deixar de pensar o quanto era incrível que um óvulo, um único óvulo, um pequeno óvulo, tinha sido atingido por um espermatozóide, um micro espermatozóide, que eu nem sabia como era, uma explosão acontecera dentro de mim e, talvez, eu estivesse até dormindo. O milagre era maior do que eu, enfim.

E dentro da minha barriga, que assisto crescer todos os dias, um pequeno-enorme milagre cresce. À revelia do que eu faça ou do que eu coma, ou do que eu pense.

Eu nunca ganhei um sorteio, nem rifa, nem nada, mas, a mim, a vida deu um milagre. Que explodam os fogos, que chovam estrelas sobre nós, eu vou ter um bebê.

Comentários

Kika, fiquei aqui imaginando a felicidade dessa menina (não sei por que, mas imaginei que fosse uma menina) quando ela puder ler, ela mesma, essa sua linda crônica. Sim, que se explodam os fogos e que chovam estrelas. Que bela notícia para uma quinta-feira. :)
Bia disse…
E M O C I O N A N T E!!!!!

Beijos!!!
Marisa disse…
Kika, que belo texto de boas vindas!
Ao contrário do Eduardo, eu vi um menino. Ainda bem que as chances de erros e acertos são de 50%. :)
Anônimo disse…
Querida que lindo este seu texto....nossa filha vai ter que aprender a ler bem rapidinho para ler todos seus textos!!

Te amo
Bjs
Juliêta Barbosa disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliêta Barbosa disse…
Kika,

Que Deus a abençoe!
O meu último milagre gerou um texto ao qual dei o nome de "Despedida". Assim é a vida! Você iniciando a sua trajetória e eu encerrando a minha. Curta bem esse momento, um dia ele será necessário para você entender que a sua vida valeu a pena.bjs

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …