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MICHAEL JACKSON (1958 - 2009) >> Leonardo Marona

foi preciso mais de um mês
para secarem as manchetes,
a saliva das hienas familiares,
cessar a boataria provinciana.
agora passa mais de um mês,
os dentes do mundo trituram
tua carne pútrida, as hordas
se aglomeram sobre o vazio.
estamos todos de mãos dadas,
rumo ao que mesmo teu corpo,
mais perfeito que a suposição
de deus ou de esferas métricas,
não pôde suportar, e tua morte
não é tua morte, é nossa morte.

falavam sobre ti, sobre teu sexo,
porque representavas nossa falta.
dos teus distúrbios psicológicos,
para escamotear as taras diurnas
com as quais damos leves passos.
mas teus passos não eram passos,
eram surtos, convulsão mitológica,
para nós, que trombamos nas ruas,
e desprezamos o gênio para amá-lo.
como o teu pai, com pedaço de pau,
batemos em ti até a morte, e agora
nos perguntamos: que fazer da sobra
com que nos arrastamos pelos dias?
que falar de ti, que parou o tempo?

queira nos perdoar, mister Jackson,
pelos restos que te demos em troca
da mágica do herói de video game.
queira desculpar por ter ofuscados
os olhos quando furaram teu peito
com as agulhas que mantêm vivos
os semimortos, sem cor a cada dia.

você foi a risada mais cruel de deus,
que te aprisionou num corpo mortal,
que te fez perguntar: mas e que cor?
não há cor, Michael, só há perguntas.
não há dor também, restos de pranto.
estamos empoleirados e, sem chapéu,
sabemos que pouco há que se fazer...

a não ser ir atrás da eterna infância
e criar passos que nos façam deslizar
imóveis para trás, sobre a pele da lua.


http://www.omarona.blogspot.com/

Comentários

C. S. Muhammad disse…
"que te fez perguntar: mais que a cor?
não há cor, Michael, só há perguntas."

Seu texto é lindo e sensível e captou muito do que eu sinto. Também eu estou empoeirada, sem chapéu e sem luvas.
Cristiane disse…
O texto é incrível e destaco também a parte que a Carla citou, mas ao invés de 'só há perguntas', eu diria: todos com as suas respostas!
Mundo voyer, 'marias lavadeiras' da vida alheia, com publicações que vendem mais que botão de camisa...
E todo o resto do mundo quer ter também um pouco deste brilho de lata, mesmo que seja para mostrar as suas muitas misérias no programa do Fantástico.
Léo, esse foi o segundo texto sobre a morte do Michael Jackson que fez algum sentido pra mim. Parabéns!

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