sexta-feira, 10 de julho de 2009

É QUE EU PRECISO DIZER >> Leonardo Marona

E então Bebel Gilberto olhou para mim com os olhos emprestados do demônio e me ensaboou de amor próprio, a mão no meu ombro: “E você, babaquinha, o que você faz, hein?”. E olhando para ela sentada na mesa do traficante mais famoso do Baixo Gávea, cabelos grisalhos, provavelmente um derrame ou óleo quente na prisão, um que age sempre em frente ao Bar Hipódromo, habitualmente acompanhado por uma bela loira sincera em termos de nádegas, que leva o branco até o nariz do podre. E olhando para ela, filha Dele, Bebel, abraçar os garçons daquele jeito, um rapaz de Sobral chegou a ajeitar a borboleta no pescoço com a violência da paixão despercebida de quem fez... E faz... E viu... E nasceu... E brilhou!

Enfim. Ela estava com os dentes amarelos e podres bem na minha cara, queria saber de mim. Eu sabia dela. E o que não sabia ainda, já sabia agora. Tentava lembrar daquela música, “...te amar ou perder sem engano...”, aquela que o Cazuza deu para ela cantar. E ela era exatamente ela mesma naquela época e eu era exatamente eu mesmo também, poeira cósmica com cacos de vidro na barriga da mamãe.

- Cara, tu te recordas daquela do Cazuza que ela cantava? Sei que é alguma coisa parecida com: ...nanana nananá nananána... te ganhar ou perder sem engano...

- Porra, ela é bem pior do que a Leandra Leal! – alguém gritou bem alto.

De repente, lá está Bebel muitas-coisas-juntas, lá está Bebel entornando a Guanabara, o ego escorrendo pelo nariz junto com a vontade de ser verdadeira. Ela corre na nossa direção e grita:

- Fiquem quietos! Parem de falar agora! Fiquem quietos pela-môr-de-deus!

(Os olhos fechados, as mãos para o alto).

- Ah, Bebel... Tá doidona? Eu, hein! Fica na tua aí... Tá chata.

Para quê?

- Olha aqui, seu...

E, finalmente, a mão no meu ombro.

Fiquei olhando para ela e ela tendo uma atitude dessas de mãozinhas quebradas no ar, goles borbotados e sapateado russo. Eu olhei e tudo sumiu de repente. O que eu poderia dizer a ela? Havia feito uma pergunta simples e eu não sabia o que responder a ela: “E você, babaquinha, o que você faz?”. Boa, Bebel, boa pergunta. Excelente!

Permaneci olhando para Bebel, estático. Aquilo durou cinco segundos. Depois um amigo olhou para ela e tentou quebrar o gelo na fanfarronice:

- Porra, Bebel, aquela ali naquele outdoor não é você não, é?.

- Aquela dali é outra mulher!

(Mão joga cabelos para trás).

- OUTRA MULHER, OUVIU BEM!?

Então voltamos todos, inocentes sem pátria, a beber e cantar Chico Buarque. Porra, eu podia ter nascido sem braço e sem perna, sem amor algum ou sem nenhuma compaixão, mas por que, senhor, por que o senhor não me deu o dom de apreciar a música fabulosa de Chico Buarque? Por que basta ele cantar e eu sinto dor de barriga e aflições, começo a roer as unhas e olhar o relógio? De onde vem essa culpa de ouvir Chico Buarque com a sensação de inquérito policial? Terá sido um passatempo pré-edipiano?

Ficamos lá, cantando. Eu ainda tentava lembrar: ...te ganhar ou perder sem engano... E a pergunta de Bebel tilintando dentro da minha cabeça. “O que você faz, babaquinha?” Se você não puder responder a um bêbado, não pode responder a si próprio também. E de que adiantava querer que se afastassem?

Sentimentos, muitos e poucos. Quem sabe esperar um pouco mais? Fale tudo e não fale de mim. Mas não, nada. QUERO SABER AGORA! Vamos, fale a verdade, cospe aqui em cima de mim que eu sei muito bem como são os do seu tipo: sórdidos, escorregadios. Eu, mais uma vez, mudo. FALE ALGUMA COISA! Maltrate-me. já sei, então é isso, é isso e isso e isso, e você não é nada, por isso tem que me dizer o que é, o que quer, agora, vamos, tá ouvindo o barulho?, é desse tic-tac escroto, ele corre, ó!, e você precisa saber, não importa o que você ache que seja honesto ou não, sincero ou não, cruel ou mais cruel, me deixe em paz e diga que me adora e que quando me abraça ganha o mundo só pra ti. Mas se eu disser Te Amo, mentiroso, Se disser Te Odeio, sem coração, Se disser Perdão, pro diabo!, Se disser Paixão, errado, é F-U-N-C-I-O-N-A-L-I-D-A-D-E, Amor, cama de gato, trocados furados, um ganha, outro perde, é a vida, uma prece?, Cassino Royale, sempre com poucas fichas e muito vício, mas Se disser Não Sei, não estou pensando, estou fazendo, estou sentindo, tentando me deixar embalar, AHÃ, NA-NA-NI-NA NÃO! NÃO VALE!, Covarde Covarde Covarde! Felicidade, logo ali, uma esporrada torta e espinhas são as culpadas. Alguém chame o patrão, por favor. Não estou me sentindo bem. Vou ler o Universo em Desencanto e virar pai de santo. TEMPO TEMPO TEMPO, Bebel me levou todo e me deixou apenas com Chico e meus guardanapos sujos.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belo texto, Léo. Entre o trágico e o divertido. :)

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, acho que vou ser repetitiva, mas você escreve do clássico ao cômico e consegue manter uma riqueza literária impressionante, tanto de texto como de forma! Parabéns!