quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOMOS >> Carla Dias >>

Eu sou assim, desse jeito desdito, desengonçado, tenho meus momentos de presteza e desenvoltura, e em outros me sinto estacada no chão. Às vezes grito, mas com a mesma intensidade, eu me calo. Se me viro do avesso, nem pense que é por causa do conforto que não tem braços longos o suficiente para evitar a dolência provocada pela queda.

É que gosto mesmo de ver a mim de dentro pra fora.

Tem dias que não gosto de absolutamente nada que me dão para comer, nem mesmo do que escolho no menu do restaurante, assim como saborear aquela bolacha água e sal, na hora da fome louca que só, continua uma delícia, mesmo que tenha de dividi-la com quem está ao lado.

Dividir em momentos como este é desafiar o egoísmo que impregna o ser humano, que é eloquente. O egoísmo tem um quê de sabedoria soberba.

Para odiar é preciso técnicas revolucionárias, como aquela que nos ajuda a não nos importar com o outro. Mas não adianta querer transformar amor em ódio, depois que o amor morou tanto tempo na alma da gente que pode se transformar em ressentimento, mágoa, mas não em ódio. Para isso acontecer, efetivamente, o um teria de matar o afeto do outro de um jeito tão tirano que significaria que sua própria alma foi esvaziada de vez.

A indiferença é um bicho maluco. Ser indiferente é não se importar de um jeito enorme. Para se conquistar a indiferença é preciso alcançar essa enormidade toda. Parece fácil, mas não... Até para freqüentar o pólo negativo de si mesmo é preciso um refinado talento.

Às vezes, estamos todos assistindo ao mesmo filme, mas na hora de contar a história para aqueles que não foram ao cinema, bom, cada um tem uma versão, o que é realmente inspirador, contanto que deságue na mesma trama, que ela não se perca em abismos imaginários.

Acontece de uma pessoa estar sentada na primeira fila do teatro e a outra na última, em certos momentos de suas vidas, ainda que já tivessem dividido o mesmo lugar milhares de vezes, e até as mesmas angústias, a mesma vida, cada uma na sua, mas sintonizadas pela amizade que cultivaram. Pode acontecer de, neste espaço que as separa, estarem sentadas centenas de mal-entendidos, de mágoas, de pseudo-indiferenças, porque a indiferença crua – reacendendo a chama do assunto - é para os que jamais experimentaram o gostar, o se preocupar, o se aninhar no universo do outro até que o medo de viver passe.

E ele passa, ainda que por um tempo. E este intervalo provido de amansamento é necessário para alimentarmos as emoções capazes de desabonarem a força dos maus agouros.


http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



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6 comentários:

albir disse...

É, Carla. Seria impossível viver sem esses intervalos no medo.
É bom quando você fala de você porque acabamos lendo sobre nós.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, esse seu texto tem o sabor de suas crônicas antigas e seu fuxo labiríntico de pensamento reflexivo. Ler foi como matar saudades.

Carla Dias disse...

Albir... Fico contente pelo seu comentário. É sempre bom saber que quem somos vale um passeio sobre quem são aqueles que nos lê.

Eduardo... Confesso que o labiríntico me agrada. Querendo ou não, ele sempre volta e me pega pela mão. Saímos para passear e depois eu volto repleta de reflexões prontas para ganharem um texto.

C. S. Muhammad disse...

Adorei o texto e concordo com o Albir, pois foi como descobrir algo novo em outrem ao me olhar no espelho.:)

Debora Bottcher disse...

Carla, querida, Seus textos sempre me deixam sem palavras, profundamente silenciosa. Assim, normalmente, não posso comentar. Mas acho por bem, afinal, que vc saiba que sempre te leio.
Beijo enorme.

Carla Dias disse...

C. S. Muhammad... Adorei sua definição, a forma como enxergou o texto. Obrigada por abrigá-lo em sua alma.

Débora... Só posso dizer que me sinto honrada quando você visita minhas palavras. Nem sempre pelas palavras, quase sempre pela visita em si. Beijo enorme pra você também.