sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Deserto de Hofmannsthal >> Leonardo Marona

“Rape and rebellion in the nurseries of my face”
(Dylan Thomas)

Aos que ficarão eu deixo minha rosa negra, esse hálito espesso das últimas respirações. Sou do tipo dócil, que esconde metralhadoras nas entranhas. De uma ambição tão firme que não permite a tentativa esperançosa. “Não serás nada. Por mais que faças, não serás nada”. As frases como pedras interrompem a perfeição alienada. O problema real é que não falta água: carregamos o deserto dentro do peito, nos arrastamos em nós. Oásis às avessas, pensamos, sentimos, padecemos, mas a crueldade do fragmento caótico não se ocupa de nossas avançadas tecnologias ou das imagens saturadas da nossa falta de sentido cósmico. E, afinal, ao me isolar, me reconheço finalmente como terra minha, infértil sobre a identidade submersa. A relação transborda e mistura os venenos adocicados. Somos todos no fundo feitos de poemas abandonados e frases de consolo as quais desprezamos e dizemos automaticamente, para ocuparmos as bocas que ruminam infanticídios silenciosos. Para não ficarmos de uma vez com “nada a dizer”. Não ter nada a dizer, eis a única revolução estética possível. As palavras se esgotaram ao formarem a ponte de concreto por onde passa amputado o sentido químico das coisas impronunciáveis. A sensação, portanto, de transparência involuntária, de esquartejamento metafísico que enche as livrarias de tédio, não é de forma alguma privilégio deste ou daquele tempo provisório: as palavras, elas já vieram natimortas, tais que viemos assim e somos pais desse Frankenstein, às vezes de veludo, às vezes um alfinete no olho do recém-nascido, às vezes fuga, afago, voragem, um milhão de sentidos belíssimos, mas que não compreendemos. A maldição: sabemos que há dádiva em tudo, pois que a dádiva é uma mentira. Não tocar, dizer timidamente, “não, eu fico por aqui, obrigado”, negar a dádiva porque é uma mentira não parece entretanto a melhor solução. Esperamos debaixo da chuva e não encontramos respostas melhores. A crueldade maior não é não poder tocar, é não querer poder tocar. É dizer: “O jeito é não dar sentido para, e só assim, afirmar, com a própria falência inevitável, que não existe de fato sentido.” Mas por que essa necessidade enorme em querer saber a verdade? Que, em suma, não há absolutamente nada realmente capaz de alterar a rotação do que quer que seja, onde fomos inseridos, ou nos inserimos a nós mesmos... Enfim, o que se sabe é nada, mas colhemos as nossas medalhas. No fundo os que pensam nisso são os mesmos que não têm outra grande habilidade de onde tirar seus louros e preferem, portanto, esmaecer no morno da existência, e nada em volta, nenhuma outra existência, portanto, calcada no progresso, poderá tocar, ou se quer surpreender: eis a miséria.

Aqui estou sentado diante de um quadro que foi achado no lixo e sinto uma enorme compaixão pelo quadro, mas não especialmente sinto amor por ele. O ser humano, não há o que tirar nem pôr: são compassivos ao máximo, sem amor nenhum. E eu poderia usar agora enormes costeletas ou estar com o rosto metido no rapé e diria que não faz diferença ser um escriturário em Wall Street ou um bêbado em Sunset Boulevard, que não tiro proveito das modernidades evolutivas da minha espécie. Que me importa a grande rede? Há uma gripe, “simples como um resfriado comum”, mas interminável, uma gripe da mistura de todo o lixo que fizemos, e essa gripe é o cansaço morrendo, “uma gripe comum”, que não acaba nunca e ataca principalmente ricos, que viajam mais que os pobres e portanto se infectam, chamam ela de “Gripe do Porco”, mas poderia se chamar “Gripe do Leonardo”, de quem quer que seja. Evacuaram escolas, usamos máscaras nas ruas e nos edifícios judiciais, além do que Michael Jackson, o homem das muitas máscaras, acaba de falecer, diz o jornal, de enfarte fulminante, aos 50 anos de idade.

A matemática é exata, nós não. Como é possível que um sistema matemático possa, então, dar conta da nossa aflição? Crença imbecil; comeremos os próprios rabos. Inventamos tudo o que nos leva à preguiça, mas a preguiça só é válida quando é injustificável. Produzimos os sentimentos, repetimos as velhas frases, bolhas de sabão, salmos e notas de rodapé. Somos a cárie do monstro que inventamos. Na verdade monstros somos nós, os de sensibilidade turva, neurônios calados. Monstruoso é acordar todos os dias e ser obrigado a saber que não é necessário que se tenha uma explicação plausível, mesmo assim sabendo que se precisa de uma explicação. A negação tão pouco nos infla de coragem: paramos pelos cantos, não falamos com ninguém e reconhecemos a festa criminosa dos que sorriem e diagnosticam as quimeras de plástico. Fragmentos são as nossas mãos e bocas quando algo nos obriga a pensar. Fragmento é o vazio que arrastamos em terra desnivelada, a fantasia que é o único lugar onde não somos personagens de um romance mitológico em medidas drásticas e sem tempero. As execuções são inconcebíveis, os crimes da existência nos levam até as ilhas e assentimos, baixando as cabeças diante da lâmina.

O que levaria, por exemplo, um homem relativamente jovem, aparentemente sadio ou não exatamente, de fato um pouco amarelado e com os intestinos entupidos por pavorosas infecções cumulativas, a cogitar a possibilidade de que, em condições perfeitamente controladas e propícias, não tem a menor idéia de como verbalizar o que lhe afunda o peito no meio de uma noite não tão fria, ao som do esgoto mal conservado que despeja nossos restos e cansa a tristeza dos homens? O que faria afinal com que um homem, que leva consigo o Saara, as grutas da Mesopotâmia e as minas dinamitadas do Congo dentro do peito rasgado por um quelóide no centro, que não é câncer, é o fogo em brasa do mundo à beira do último choque sem qualquer resolução - mas este homem precisa sair da inércia e terminar a pergunta, isso o torna um sujeito perigoso, pois talvez seja preciso discorrer sobre o peso morto que cada um carrega para não nos esbarrarmos acidentalmente nas esquinas. É preciso mais uma vez que um homem, um homem esteja no escuro e sem a sensação confortável da ilusão da consciência parcial de que não há qualquer regra e, portanto, qualquer medida. E todos podemos criar condições e por isso criamos porcos, mas o que faz este homem, apenas um rapaz latino-americano, pequeno até mesmo para se comparar a um símio, usar a palavra símio uma hora dessas, já não seria motivo suficiente para crer que...

Pobre rapaz, com a responsabilidade de quem sabe derreter em praça pública ou ser afrontado pela própria imagem com profundas olheiras, na posição fetal, um Bartleby cujo cordão umbilical é uma linda gravata e entre seus dentes há tinta e séculos de transições forçadas por necessidades úteis à evolução do corpo inclinado à decadência inevitável, mas este homem um dia levantará, olhe em volta, ele está nas ruas e nas festas de aniversário, olhe para o lado, ele dança de olhos fechados e fala sobre a desenvoltura de uma carreira promissora, ele assina papéis com cores extravagantes e mancha com decência hinos de sabedoria e paz. A tudo diz sim, pois Camus está morto. Vemos um milhão de Jean-Pauls circulando um osso roído, homens com bochechas vermelhas e microscópicos olhos molhados, católicos pelas manhãs, irritadiços à tarde, abençoando as certezas com frases divertidas, esperando pelo fim de semana, basta olhar em volta ou atrás das portas dos banheiros públicos infestados com assinaturas pederastas, basta olhar para ver como dou-carrego-me-mato por qualquer um que me tire daqui.

Mas mal sabia Melville que o problema não estava em dizer Não: a comunhão no fim se torna uma divisão magra de restos. Com apenas dizendo Não, preservaríamos a função dos extremos, voltaríamos a morrer de inanição ou de amores impossíveis, retornaríamos ao tempo dos sonhos idiotas quando nos dizíamos gênios – ah! mas precisamos morrer tantas e tantas vezes e, afinal, dói demais o sol quando rompe o peito do avesso, essa ilha de calor sem plantas onde o desejo chora.

Mas mal sabia Camus que não é mais preciso dizer Não para se rebelar – a rebelião, ao contrário, está no sim apavorado e minúsculo e febril diagnosticado no centro de um tempo falso, de quem sem estômago pretende engolir tudo, pois reparem no tempo que leva um sorriso quando os dentes estão podres, repare na chuva quando brota do coração do silêncio ancestral, o isolamento que vivemos e nos acompanha como o cheiro ruim que vem do estômago da hiena, o mundo virtual das teorias e dos bisturis, Atacamas sólidos que se manifestam no olho do polvo, separados pela unificação da língua, acorrentados pela indiferença, pelas guerras que fazem sentido e são pescoço nos caninos – ah! se algum teórico suspeitasse como faz frio nos picos mais elevados da solidão incipiente, como é bonita a terra quando vista do seu próprio barro, nem uma página por isso, nem uma solução, apenas seguir os mil imãs do norte, rapaz do meio do nada, não é preciso andar, seguir sem pensar em nada, pensar e não seguir.

Resta apenas esse prazer insuspeito e quase irônico, essa cruz de aço que gela as cicatrizes e acende as brasas. E resta andar, andar sem direção já que giramos em escala menor e, afinal, o deserto que nos separa é o mesmo que faz com que as palavras - estas míseras, traidoras, dentes podres - estejam sempre onde já não está mais o que nos fez nomeá-las ao erro, fundando a nossa história de depravação silenciosa e culpa, não mais um desejo reprimido, mas em alerta. Os portões se abriram, a madrugada pegou fogo – que fim dos leões de pedra e das enormes bocas morais? – e os desejos são eunucos excitados, mas há um rapaz, nesta noite não mais tão gelada, há um rapaz que, sem saber de nada, sabendo e sentindo a cada dia que sabe menos do que, no entanto, reconhece distante e imprescindível, pois há um rapaz que desaparece, ainda assim, tentado escrever algo, com quatro cigarros à varejo, uma incrível dor nas costas e o medo de se convencer de que pode acertar o alvo e estragar toda essa incrível desconfiança pueril que, na falta da compreensão e diante dos buracos da nossa fé, nos põe aos encontrões em terrenos vazios encharcados de pequenas comemorações acerca de especialidades vulgares que visam abastecer com cera o cadáver selvagem que é o deserto chamado Evolução da Espécie diante – e sem escapatória – de um seco ponto final, impronunciável.

http://www.omarona.blogspot.com/



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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, texto perfeito, final mais que perfeito!
Parabéns!

leonardo marona disse...

marisa, querida, talvez seja ridículo dizer isso, mas fico grato por vc ter aguentado até aqui. um beijo.