sábado, 18 de julho de 2009

AMOR NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE [Cristiane Maria Magalhães]

Tinha uma música que tocava quando eu era criança e que nunca me saiu do pensamento. Ainda pequena, sem entender nada dos jogos da vida, esta canção me fazia chorar, pois aquilo que ela dizia eu conhecia muito bem. O amor dos pais é o sentimento que a gente experimenta primeiro. As mãos grandes e as vozes protetoras reconhecemos de longe. Ao ouvi-la ficava pensando: onde já se viu um filho fazer isto com um pai? E imaginava que aquilo só podia ser história inventada.

A letra da canção era assim: “Conheço um velho ditado, que é do tempo dos agais. / Diz que um pai trata dez filhos, dez filhos não trata um pai. / Sentindo o peso dos anos sem poder mais trabalhar, / o velho, peão estradeiro, com seu filho foi morar. / O rapaz era casado e a mulher deu de implicar. / "Você manda o velho embora, se não quiser que eu vá". / E o rapaz, de coração duro, com o velhinho foi falar: / Para o senhor se mudar, meu pai eu vim lhe pedir / Hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair / Leve este couro de boi que eu acabei de curtir / Pra lhe servir de coberta aonde o senhor dormir / O pobre velho, calado, pegou o couro e saiu / (...)”.

Ficava imaginando aquele velhinho caminhando sozinho pelas estradas afora, doente e cansado. Morrendo de frio, padecendo de fome. Era uma história que eu achava muito triste e dolorida e jurava que nunca, nunquinha ia fazer uma coisa daquela com os meus pais.

Muito tempo depois aprendi um sábio princípio bíblico, que diz “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra”. O princípio é claro, não deixa dúvidas: é preciso honrar pai e mãe para que te vá bem pela vida afora e, indo bem, tenha uma vida longa e boa. Uma matemática simples de entender e, em tese, de colocar em prática.

Se não for pelo princípio em si, vale pela obviedade da sentença. Filho que não honra, que não respeita pai e mãe, a quem mais vai respeitar? A quem mais vai amar, se não ama aqueles que o amaram primeiro? Aqueles que sonharam consigo antes do primeiro gesto? Claro que existem pais e pais... mas estou me referindo a um tipo comum de pai e mãe: aqueles que fizeram o melhor que podiam para os seus filhos, mesmo agindo errado quando acreditavam que faziam o certo.

Eu penso nos pais que abrem mão de seus próprios sonhos, enfrentando jornadas duplas ou triplas de trabalho para entregar aos filhos aquilo que lhes é mais caro: a sua juventude, o resultado precioso de horas de trabalho extenuantes muitas vezes resultantes de desrespeito de chefes medíocres, de lágrimas escapulidas no silêncio dos seus quartos enquanto os ideais se perdiam no torvelinho dos dias e nas muitas horas de sono afanadas pela doença – ou capricho dos filhos.

Com sacrifícios e abnegação estes pais proporcionam aos filhos a vida que, na maioria das vezes, eles mesmos não tiveram, como estudos e viagens. E os filhos sonham e voam. Voam alto, voam para longe daqueles que o criaram, num movimento natural da vida.

Com o passar dos anos, o processo se inverte: agora são os pais que estão carentes de afeto, de atenção e, principalmente, de cuidado destes mesmos filhos que eles amamentaram com o próprio sangue. Pais doentes, pais envelhecidos e arqueados pelo trabalho, pelas amarguras de uma vida inteira, precisam agora do apoio daqueles a quem dedicaram tanta afeição e ternura. Os pais super-heróis de antes se transformam naquele velho sertanejo da música cantada pelos antigos. Seguindo o princípio bíblico e o processo natural que seria de esperar destes rebentos, os pais não teriam com o que se preocupar. Para ser mais clara, a bíblia se repete no mesmo tema, na forma de Provérbios: "Ouve a teu pai, que te gerou, e não desprezes a tua mãe, quando vier a envelhecer."

Princípios bíblicos esquecidos é o tom da música que vejo se repetindo inúmeras vezes bem aqui, do meu lado. Filho crescido, bem empregado, família constituída, coloca os pais para dormir no chão, nas raras ocasiões em que estes o visitam na bela e confortável casa que construiu. Não há um quarto reservado para receber os velhos e amorosos pais, não há um espaço na vida daquele homem respeitável para dedicar àqueles que bancaram sofrivelmente os seus estudos na capital, não há sequer uma palavra de gratidão e afeto por parte daquele filho, ainda tão amado. Numa outra família, a mesma história. Uma mãe doente e enfraquecida é negligenciada pelos seus dois filhos. Não há na casa de nenhum dos dois um espaço para aquela silenciosa e resignada mãe. Também é num colchão velho e sujo, estendido no chão da sala, que ela passa dias e noites quando precisa estar com um ou outro, durante as crises da doença. E esta mãe, com os olhos sempre vermelhos e muito abatida, perambula indefinidamente com sua sacola de poucas roupas puídas, ora na casa de um parente, ora na casa de um vizinho, buscando abrigo perto dos de longe, porque os filhos do coração não a querem. E ela arrasta os dias e as noites, como se fosse um estorvo no mundo. Logo ela, que sempre sustentou a si e aos seus dois queridos filhos, chora em silêncio ao perceber que as pernas não respondem mais ao estímulo mental. Ela se pergunta o que fez de errado para merecer tamanha dor e abandono. E eu, sem resposta, escondo o rosto para que ela não veja as minhas lágrimas.

O inusitado nestas duas histórias é que os pais não reclamam do tratamento recebido dos filhos. Ao contrário, continuam nutrindo por eles amor e cuidado, sempre justificando a falta de afeto. E ainda aparecem correndo quando são chamados numa hora de necessidade dos filhos, para doar o pouco que lhes resta.

“Hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair / Leve este couro de boi que eu acabei de curtir / Pra lhe servir de coberta aonde o senhor dormir”. A velha balada sertaneja se repete todos os dias, bem aqui, debaixo dos meus olhos e eu ainda choro em silêncio, porque o velho avô que antes eu via na minha imaginação infantil, agora são muitos e tem rostos e nomes e eu conheço muito bem as suas histórias – tão infelizes quanto aquela da canção.

Por que é tão difícil que os filhos amem aos seus pais com o mesmo amor que eles lhe dedicaram? Lembrem-se, filhos ingratos, tão certo como a noite vai cair ao final do dia é a certeza de que vamos envelhecer e estaremos tão lentos e teimosos como os nossos pais e não há nada que faça a roda do tempo girar para consertar os erros do passado.

Colecionadora de Palavras

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3 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Cristiane,

Comungo do mesmo pensamento que você tão bem descreveu, e posso lhe afirmar com segurança, que a roda gigante da vida gira, com justiça e perfeição. Estou assistindo, nesse momento, a vida fazer com os filhos o mesmo que eles fizeram com os pais. É a chamada lei do retorno...Um bom texto para reflexão! Parabéns!

João disse...

Querida Cris, é engraçado como certas situações e lembranças nos ligam à infância. Esta música era muito executada nas rádios quando eu era pequenino e eu sentia o mesmo que você. Ficava com dó do pai da canção e com raiva do filho. Achava isso um absurdo.
Hoje, consigo compreender melhor a vida e a letra desta canção e sua tão cruel verdade. Infelizmente, assim como você no texto, eu conheço muitos filhos que tratam com injustiça a seus pais. Lamento por eles, mas sei que a Justiça se fará em algum momento.
Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cristiane, seu texto bem escrito e envolvente fez com que, por dois minutos, eu esquecesse de que não há injustiça nesse mundo. :)