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INDEPENDÊNCIA [Sandra Paes]

Dia quatro de julho celebra-se a independência dos USA. Natural as pessoas perguntarem: “O que você vai fazer? Onde vai celebrar?” Eu, que ando ligada a outras questões, levo um certo tempo pra me localizar e responder o simples “não sei!” É claro que estava me referindo a como e onde celebrar a independência do país. Algo tão importante para os patriotas americanos.

Mas o tema não deixou de circular em minha mente essa semana toda. Na televisão, fala-se em independência financeira, independência de governos — por conta do assalto a Honduras —, independência de vidas de maneira geral, como quando vimos a briga pelo corpo e herança de Michael Jackson.

Aqui, no meu cantinho, me encolhi diante da constatação mais evidente: a total dependência da energia elétrica.

Tem chovido demasiadamente todos os dias. Tempestades intensas, dessas com coriscos que assustam a alguns e prenunciam um tempo pesado de furacões. Ontem, antes do escurecer — aqui é verão e o sol se põe pelas oito da noite —, resolvi começar a preparar o jantar. Panelas ao fogo, um pouco de azeite e, ao abrir a geladeira pra pegar o espinafre... surpresa: a geladeira estava escura por dentro. O quê? Só me faltava essa! Será que a geladeira queimou?

Vou olhar os relógios e vejo que estão parados. Pego o telefone pra ligar pra portaria e os telefones estão mudos. O que fazer? Constato que não há energia elétrica. Sem música, sem fogão, sem geladeira, sem televisão, sem telefone, sem internet.

Tudo se paralisou. Minha cabeça também. Fazer o quê? Tomar banho antes que fique escuro e eu tenha que pegar velas. Para quê? Só pra dar um ar de romantismo.

E se foi só na minha casa? Abro a porta e verifico que há luz nos corredores. Ah, o prédio tem gerador próprio e a luz dos ambientes comuns está ligada. Mas e dentro do apartamento? Bom, o jeito é esperar.

Com chuvas terríveis todos os dias, alguma coisa provalmente se passou e levou a condução de energia. Isso sem contar que sinais de satélite, com tempestades, nem pensar.

Fiquei pensando: puxa vida! Tudo nesse país está dependente de satélite, de cabos e sinais transmissores pra qualquer coisa. Sem isso, voltamos pra que idade? Da pedra?

Pensei em tudo que está preso por um fio, o cordão quase que umbilical que sustenta a vida majestosa de nossos tempos modernos. E, é claro, não consegui deixar de pensar nas previsões para 2012 que falam em três dias de escuridão total. Sinal do final dos tempos. Uma maré solar gigantesca danificando todos os satélites, ou muitos deles, e extinguindo o poder elétrico no planeta.

Onde ficaria toda a independência e todo o controle de nossos confortos?

Escrevo nesse instante antes que a tempestade derrube de novo a força que traz luz pelos fios, enquanto ainda posso. Depois disso, há que se pensar na escrita a lápis, a comida fria, o banho gelado, as roupas sem lavar, as comidas se estragando na geladeira e nos congeladores, os telefones mudos e as televisões sem audiência e sem programações e anúncios. Muito silêncio e o convivo diferenciado com o desconhecido escurecimento de tudo. Será uma amostra grátis nesse quatro de julho?

Continuo com o meu “não sei” ainda no ar. E um silêncio que se faz presente depois disso. Ainda me resta a independência das idéias e do sentir. Será?

Comentários

Bela reflexão, Sandra. Deu pra ficar pensando sobre os limites da dependência e da independência.
Anônimo disse…
this chronicle made me wonder about how independent I am now... this made me desperate...

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