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Mostrando postagens de Maio, 2008

CIDADE ENCANTADA [Debora Bottcher]

Do alto de uma montanha, na varanda do chalé de madeira, eles olhavam a cidade imersa no vale. Sorriram, encapuzados até o pescoço por conta do frio. Fazia algum tempo tinham ido viver ali. Lá embaixo, os movimentos do vilarejo revelavam uma manhã de sábado acolhedora embora a temperatura permanecesse baixa.

A vida por ali é tranqüila. O lugar está sempre repleto de viajantes, pessoas que vêm quase sempre sem a menor intenção de ficar.

Casas de chocolates, perfumes, vinhos e especiarias figuram o cartão de visitas para receber esses que perambulavam pelas ruas estreitas, de pedras, cercadas pelo vento cortante.

Rodeada de montes, chamaram-na Monte Verde e ela se fez verde de verdade: verde de esperança, de chegadas, partidas, idas e voltas intermináveis em busca de origens, mistérios, sonhos, carinhos. Alguns encontram o que desejam: somente esses criam raízes.

Por todos os espaços, fornalhas são expostas alimentadas pela lenha seca que aquece os ossos e as almas. Dizem que fantasmas ca…

POLARÓIDES >> Leonardo Marona

“25 anos” (poema para ser escrito aos 70)

eu passava
leite de aveia
nos bagos
para que tudo
estivesse muito
limpo caso algo
de inesperado
acontecesse.

e raramente
algo inesperado
me acontecia.
mas quando
por algum acaso
acontecia algo
os bagos estavam
sempre sujos.

“atriz”

as palavras,
se elas saem doloridas,
é a tinta negra que sangra
as frases como feridas.

pouco me adiantam
as palavras floridas
que desabrocham no ar:
pétalas amorfas
no mofo do armário.

prefiro um dedo direito
e uma intenção sinistra.

quero de ti
a palavra comida.
quero as palavras
pelos poros da página,
pelo meio da tua virilha.

quero enfim,
segundos antes das cortinas,
escrever aquilo que te cala.

“Ana C.”

a poesia,
se insiste,
quando cisma,
(instinto?)
é um passo
na direção
do abismo,
(infinito?)
ou então são
dois passos
e um colapso
(suicídio?)
nos casos
de poesia
mais rara,
(primitiva?)
ou então coice,
patada de pena.
porque as asas
(comprimidos?)
estão na cabeça
e não nas pedras
portuguesas.

“Augusto dos Anjos”

queria ter nascido Augusto dos Anjos
para compreender a sífil…

A PALAVRA DITA >> Carla Dias >>

A palavra dita, dizem por aí, tem um poder daqueles. Já me aconselharam a não dizer as palavras como se elas fossemgangorrasnum parquinho, porque há uma seriedade pungente na palavra dita. Não dá pra tripudiar com ela, não!

A palavra dita brinca de pular amarelinha em abismos, por isso, melhor mesmo é dizer amor numa combinação inspirada de adjetivos bem docinhos, que é para não azedar a palavra que sai bailando com a voz.

A palavra na boca pode amargar mais do que se escrita em carta de despedida, por exemplo. Se quiser dar uma palavra dita de presente, por favor, esmere-se em saber se a palavra tem cabimento. Sugiro que a deixe ecoar, várias vezes, na sua cachola, antes de botar a boca no trombone.

A palavra dita benquerença vem sempre acompanha de fôlego para superar situações difíceis.

Quando dita, a palavra fome provoca um barulho bem alto no estômago e um buraco daqueles na alma. É um esvaziamento... Por isso, às vezes a gentefica mudo, sentado na sala, as luzes apagadas, e quase de…

AMOSTRA GRÁTIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Minha mãe nos dava presentes — a mim e a minha irmã — por profissão. Muitas vezes, ao chegar em casa, ela retirava de sua bolsa — branca como toda a sua roupa — umas caixinhas miúdas e coloridas. Eram pequenas pastas de dente ou escovas, fios dentais, líquidos coloridos e — se estivéssemos mesmo com sorte — alguns brindes, minúsculos brinquedos.

Quando cresci um pouco mais, eu soube que aqueles "presentes" eram amostras grátis dadas por representantes comerciais que queriam divulgar seus produtos para minha mãe, que era dentista.

Ao mesmo tempo em que nos trazia esses mimos vindos de pessoas que eu não conhecia, minha mãe advertia para que não aceitássemos — na escola ou na rua — coisa alguma que nos fosse oferecida por estranhos. Mais tarde eu descobriria que traficantes de drogas também distribuíam amostras grátis de seus "produtos" com o objetivo de viciar pessoas e conseguir novos clientes.

Lembrei disso porque ontem, ao tentar contratar um serviço de banda larga …

DA MORTE E SUA BANALIDADE [Debora Bottcher]

“- O Rei morreu! / - Viva o novo Rei!” (Do Popular Inglês)

Três dias depois da morte da escritora Zélia Gattai, eu li que estavam abertas as inscrições para a cadeira dela na ABL.

A China ainda conta seus mortos no terremoto que dizimou cidades praticamente inteiras, mas há imagens por todo canto de homens numa função, digamos, meio fora de contexto para o momento: empenhando-se na restauração dos monumentos. Ao pé de suas escadas, descansam mochilas das milhares de crianças soterradas numa escola próxima.

Estou imaginando que a cadeira do senador Jefferson Péres, morto na manhã de ontem, demorará menos de três dias (úteis) para ser ocupada. Na segunda, talvez, por conta do final de semana.

É como as coisas são: a vida não pára e é urgente. Pra que se demorar em prantos desnecessários?

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Outro dia, fui carregada por uma prima para uma palestra espírita. No meio do sermão, o orador disse que fora convidado para integrar uma equipe que está escrevendo um livro na tentativa de re…

POEMA >> Leonardo Marona

Um dia ou dois em frente ao poema. Um dia ou dois de negação e paz. Esquecer o poema, jogá-lo sob a carne das idéias. Para sonhá-lo durante as noites sem sono. Não tocá-lo! Vê-lo negro em capuz de prata, a foice longa, a face ossuda, se aproximando lento, arrastando tudo.

Mas ele continuará ali, “a superfície intata”, eu não diria exatamente sorrindo, ele quer te provocar, brincar com a tua paciência, ele quer manchar tua glória, deixar-te fraco, à mercê.

Não te zangues, deixa-o quieto, adula-o se puderes, mas tenhas sempre uma faca à mão.

O poema é afirmação de vida, mostra a vida equivalente à morte. Portanto, observe bem este poema ainda seminu, o lençol sobre as partes, o centro em sangue palpitante, a vergonha rarefeita, e por um dia ou dois veja, observe como dele não vem nada, como é surdo de silêncio o que palpita no cerne exato, pois é puro estado de passagem, a frieza do destino dilacerada em mar aberto.

Jamais será teu ou de qualquer um, por sua essência de promiscuidade e rebe…

DESCONEXÃO >> Carla Dias >>

Há alguns anos, li um livro que mexeu demais comigo. Depois de ler a última página, passei muito tempo sentada no sofá, sentindo aquela inquietude de quem não sabe o que fazer com aquilo.

Escrevi um conto.

Sou fã desse escritor. Li um livro famoso dele, mas este sobre o qual falo é outro, não tão famoso, mas ótimo.

Depois de ruminar essa inquietude, resolvi correr o risco e mandar o conto ao autor do livro. Enviei por e-mail, explicando como o conto nascera; comentando como fora importante ler o livro dele. Para minha surpresa, ele respondeu.

Fiquei muito feliz, não só por ele dizer que gostou do meu conto, mas porque é sempre muito bacana conversar com o autor de uma história que nos marca. E eu estava ávida por conversas literárias, por conhecer o nascedouro daquela idéia.

Talvez o tal escritor não tenha mesmo alcançado a importância dessa janela que abriu para mim. Empolguei-me com os meus próprios escritos, passei a escrever com mais freqüência, buscando a minha própria história.

Intern…

PAI NOSSO QUE ESTÁS NA TERRA >> Albir José Inácio da Silva

Acho difícil esse negócio de ser pai. Difícil a ponto de pensar que, se tivesse trezentos filhos, no tricentésimo primeiro ainda não saberia o que fazer com ele.

Pais aparecem na história com atributos tão pesados que chegam a ser insuportáveis. São sempre generosos e prontos a se sacrificar. São juízes infalíveis, incapazes de cometer injustiças. São heróis nos gestos mais cotidianos. Sabem tudo e mais alguma coisa. Têm de cumprir sempre com louvor o papel de pais. Têm o dever de proteger os filhos muito mais do que os filhos querem ser protegidos, o que os torna sufocantes na proteção.

Por isso tanto nos repugna o pai que joga filha pela janela do edifício ou o que estupra filha presa num porão por vinte anos.

Mas, afastados os extremos, pais semideuses e pais semidemônios, sobramos nós, os comuns. Se por um lado nos arrepia o pensamento de qualquer violência contra nossos filhos, por outro, não temos grandes feitos paternos a ostentar.

Eu, por exemplo, nunca salvei meus filhos de i…

UM MÊS >> Eduardo Loureiro Jr.

Dentro de um mês, cabem vinte e oito dias. E até um pouco mais. Dentro de um mês, cabe a dança de uma lua meia, inteira, nova, cheia. Dentro de um mês, cabem semanas sem Anas, sem Anas. Dentro de um mês, cabe um salário, trabalho, trabalho, trabalho.

Dentro de um mês, cabe uma vez, e outras, e outra vez. Dentro de um mês, cabem a sorte e o revés. Dentro de um mês, cabem pessoas que eu nunca fui. Cabe luz, cabe luz, cabe luz. Dentro de um mês, cabem azuis: o cabimento de ser feliz.

Dentro de um mês, cabe o beijo de hora marcada. Primeiro, voraz. Cabe o amor de madrugada. Cabem namoro e namorada. Cabe uma cama do lado da rede. Cabe a sacada. De tenista, de artista, de casa.

Dentro de um mês, cabe a viagem, a despedida, a ida, a vinda, a lira, a lida, a vida. As outras vidas. Dentro de um mês, cabe o instante em que tudo está. Cabe o cego de olho aberto. Cabe o ego, o superego. Cabe o treco do troço trincando.

Dentro de um mês, cabe a voz, cabem vozes demais. Silêncio sibilante de sabiás. E …

DA LOUCURA INOCENTE [Debora Bottcher]

Ela rasgava suas próprias vestes e quando questionada, respondia que abria brechas para que seu corpo enxergasse. Dizia que as roupas a cegavam e tinha que evitar que alguém a machucasse.

Vestiam-na sempre com trajes surrados - dada a inutilidade de aprumá-la -, carinhosamente explicando que eram “defensores do sono”. Ela tinha medo de dormir. Contava que uma vez dormira e algo que morava em sua alma escura ficara acordado. Ela não cuidara de si e fora engolida por esse abismo.

Reclamava do frio mas era impossível aquecê-la: ela estava sempre gelada.

Em outra ocasião contou que descansava à beira de um lago numa floresta densa e os lobos vieram e roubaram sua filha... Pedia a todos que ficassem sempre alertas.

Uma vez falou sobre pontes num vale de fogo que lhe ardia a pele. Ela olhava para as chamas, distraída, e fora inteiramente queimada. Falava de barcos e de como gostava de olhá-los. Descrevia um rio que ninguém sabia onde era. Pedras formando cachoeiras, brisa fresca. O rio a olhava…

PUSHING DAISIES >> Carla Dias >>

Eu ando romântica... As minhas amigas andam tão românticas quanto, assim como um par de amigos. Andamos nostálgicos, na verdade, trazendo para hoje a lembrança da época em que líamos contos de fadas, e havia príncipes e princesas... E vilões... E situações surreais.

Hoje, tiramos os contos de fadas da cartola e os transformamos em desejo... Os príncipes são bem parecidos com os moços que conhecemos, assim como as princesas com as moças, esquecendo os excessos de finais felizes e maldades de madrastas, claro. Mas não há matemática que dê jeito no resultado. Não podemos somar um + outro e fazer com que dê certo, sabe? Então, é apenas o desejo de que, em algum momento, as peças se encaixem.

Na minha vida, as coisas se misturam. Nem sempre a realidade reside onde deveria, ou o meu imaginário dá sossego na reunião do trabalho. Sou uma pessoa misturada que só, que permite que seus universos colidam e fica assistindo ao feito. Às vezes, isso me provoca uma sensação de bem-estar intraduzível; …

PRIORIDADE -- Paula Pimenta

"E por você eu largo tudo, carreira, dinheiro, canudo..."
Exagerado (Cazuza)


Na época da minha avó e até um pouco ainda na da minha mãe, as mulheres não trabalhavam. A elas, cabia apenas uma sina: casar. Nem precisavam ser bonitas, simpáticas, inteligentes, malhadas e bem-sucedidas profissionalmente, como precisamos ser hoje em dia, já que o destino delas já vinha meio traçado. Pra que escola, faculdade, pós e mestrado, se no dia seguinte ao casório elas já ganhavam um diploma fresquinho pra dependurar na parede? “Dona de casa, com louvor”.

Eu acho que o certo seria dona DA casa, já que era isso mesmo que elas eram. Sem as mulheres, o marido e os filhos não eram ninguém. Eram elas que faziam o café, o almoço, o jantar, que lavavam a roupa e a louça, que arrumavam as camas, que costuravam, bordavam e tricotavam. Eram elas as responsáveis pela educação dos filhos, por ensiná-los a não colocar os cotovelos na mesa, a ir embora da casa dos amigos na hora das refeições, a dizer com…

O PRESENTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Ah, mãe... Eu queria lhe dar... Um presente que eu tenho certeza de que você iria gostar.
Não é conjunto de panelas — você mal sabe cozinhar, embora seja uma delícia o seu miojo, sem falar no seu arroz com ovo.
Não é perfume, tampouco, porque eu sempre preferi mesmo seu cheiro, aquele que fica guardado no seu lençol com o qual eu gostava de me enrolar inteiro — quando eu era criança e até depois de velho.
Não é flor nem rosa ainda, essas eu deixo pro pai, que é romântico bem mais, e entrega pétalas com rimas.
Não é nem poema — alimento, aroma e adorno de palavras — porque faz pouco tempo que eu cantava minha mãe, minha musa, minha música.
Bem que poderia ser esse clima, em que faz sol sem deixar de fazer frio, combinação perfeita de afetuosa luz e arrepiado carinho.
Ou então essa lua, que aqui é inclinada: uma cadeira de balanço na varanda das madrugadas.
Mas não, não é.
Nem posso ser eu, o meu corpo — o presente da presença — embrulhado em abraço e com beijo por etiqueta. Eu que estou sem bar…

TENSÃO PRÉ-MONTREAL >> Felipe Holder

Noites de insônia, programinha de contagem regressiva na tela do computador, dúvida, receio, indecisão. É a TPM, que — acredite — também atinge os homens. Há semanas eu venho sofrendo de Tensão Pré-Montreal.

Quem me conhece sabe o quanto eu sou apegado à minha cidade. Nunca me imaginei morando noutro lugar que não o Recife. E sempre disse isso pra todo mundo. Viver longe do Carnaval, do frevo, do maracatu, dos caboclinhos e do manguebit? Deixar pra lá o forró (o de verdade, por favor) e o São João? E o rio Capibaribe? E a praias de Boa Viagem, Porto de Galinhas, Serrambi? Ficar sem comer aquele siri-mole ao alho e óleo do Bar do Cabo, os caranguejos ao molho de coco do Guaiamum Gigante, os ensopadinhos de aratu e as agulhinhas fritas de Porto de Galinhas? Nem pensar. Passar sem os jogos do meu Náutico, logo agora que ele está na Série A pelo segundo ano consecutivo, depois de doze longos anos afastado? De jeito nenhum. Pior que tudo isso, só viver longe do meu pai e de minhas irmãs e s…

MÃES [Maria Rita Lemos]

Para mim, como para todas as mães, de barriga ou coração, qualquer dia do ano pode ser considerado dia das mães. Por razões que não precisam ser analisadas, no entanto, ficou convencionado que elas, as mães, seriam homenageadas sempre no segundo domingo de maio. Quando digo “homenageadas”, entenda-se, principalmente, “presenteadas”. Presente, aliás, que pode acompanhar a homenagem, ou pode vir isolado. Ou não vir, o importante é o abraço, o pensamento, a lembrança. O reconhecimento. Em meu pensar, porém, a autora da idéia do Dia das Mães* deveria ter escolhido duas datas: segundas e sextas feiras para lembrar alguns tipos de mães e sábados e domingos para outra categoria das mesmas.

Da segunda à sexta feira, sejam lembradas as mães dos bebês que aguardam nas filas dos hospitais, dos “postinhos”, enfim, da saúde pública pela bênção de uma consulta; as mães das crianças que acordam seus filhos, sob sol ou chuva, para deixá-los na creche ou na escola particular, e o som de seus beijos …

CURRICULUM VITAE >> Leonardo Marona

"A Troca da Roda" Estou sentado á beira da estrada, o condutor muda a roda. Não me agrada o lugar de onde venho. Não me agrada o lugar para onde vou. Por que olho a troca da roda com impaciência? (Bertolt Brecht) De fato, sugiro que as mães mantenham suas filhas longe de mim. Posso facilmente me apaixonar pela mãe. Tenho todas as péssimas qualidades de um romântico com crise de identidade. Alguns péssimos hábitos, como andar olhando as árvores e colher sorrisos desesperados de alguém que passe pela rua destilando intrigas. Ou mesmo um certo talento inato para ser arrebatado pelo mais miserável dos acontecimentos súbitos. Tenho a terrível habilidade de ler com os olhos as intenções das pessoas, tendo me equivocado em todas as oportunidades que exigiram certa disciplina, porque elas pareciam valer a pena mesmo assim. Bom lembrar: sou um eterno adolescente em questões emotivas, mas um ancião em questões práticas e de apego irrevogável. Do tipo disposto a atrasos debaixo de chuva perpen…

PARA ONDE VOU QUANDO FUJO DE MIM >> Carla Dias >>

Veio-me a cena de quando visitei um amigo, há muitos anos. Foi a primeira vez que entrei na casa dele. Na época, eu era professora de bateria desse amigo que, além de ter talento para a música, era poeta e artista plástico... E era muito bom exercendo esses papéis.

Ele ficava no porão da casa e lá construiu um universo de cores, imagens e palavras. Lembro-me da sensação de êxtase ao ver aquele espaço intensificado pela arte dele. Lembro-me da alegria por ele ter optado por dividir isso comigo.

Meu amigo mantinha ali o seu lar e uma rota de fuga. Quando se cansava do mundo, e até de si mesmo, mergulhava naquele universo, e de lá só saía depois de muito revirar sentimentos. Às vezes, ele voltava inteiro da jornada, compreendendo situações, aceitando limitações. Em outras, voltava como quem não saiu do lugar.

Uma amiga deu o título de Para onde vou quando fujo de mim para uma série de fotografias de sua autoria. Artista plástica, jornalista, mãe de dois meninos lindos que só, a Carmen també…

HIDROTERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

O trânsito neste horário é sempre caótico mesmo, então não haveria novidade não fosse o dedão do pé latejando uma dor que se irradiava até o abdômen. A topada também não seria surpresa quando se está com pressa, se com o tropeção a agenda não tivesse emborcado numa água cuja procedência nem quis identificar.

O dia só começava.

Chegou mancando, cumprimentou com monossílabos e sem olhar para os colegas. Não tinha boa cara, o que provocou no ambiente um silêncio constrangido. Derrubou a cadeira com estrondo insuspeitado para aquele móvel tão pequeno. Sentou-se. Agora derrubou o celular que se espatifou em mais pedaços do que era de se esperar de um telefone. Os mais próximos depositaram calados os estilhaços sobre sua mesa. Chegou o café e ela o derrubou sobre uma planilha em que trabalhava há dias. Os colegas se entreolhavam. Ela respirava por suspiros que pareciam amplificados. Insistiu em fazer qualquer coisa e queimou a fonte do computador. Os minutos se arrastavam e ninguém ousava pe…

DA LOUCURA DO MUNDO [Ana Carolina Coutinho]

"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”

Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.

Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro…

LAVA >> Leonardo Marona

Barulho demais lá fora e tenho só essa boca banguela, essa vontade seca de sugar todas as etapas, esse medo terrível do apodrecimento das possibilidades. E esse cansaço. Os transtornos que as calçadas em dias de sol tremulante emanam me deixam aéreo. A paisagem se sobrepõe, e eu me dissolvo totalmente. Mas tenho medo. O medo não é matéria como o corpo. O medo é forma, existe antes das coisas. Por isso tenho medo. Medo é o ter. Mas e com relação às perguntas impossíveis? O que fazer com elas? Deixar de pensar? Guardá-las feito pergaminho? Mergulhar com vontade em tudo, como aconselhou certa escritora tetraplégica? O ícone de uma geração? O exemplo da conexão plena entre os elementos? O risco sem curva no céu estrelado? Existe, mas existir não é bem o verbo. Os verbos não são bem verbos, se usados como escudo. É o que fazemos. Usamos verbos como escudos, como abreviações de poder maquiavélico. Usamos os verbos sorrindo, com a boca sangrando. Mas, ouvindo agora a música barroca, vejo com…