quarta-feira, 28 de maio de 2008

A PALAVRA DITA >> Carla Dias >>

A palavra dita, dizem por aí, tem um poder daqueles. Já me aconselharam a não dizer as palavras como se elas fossem gangorras num parquinho, porque há uma seriedade pungente na palavra dita. Não dá pra tripudiar com ela, não!

A palavra dita brinca de pular amarelinha em abismos, por isso, melhor mesmo é dizer amor numa combinação inspirada de adjetivos bem docinhos, que é para não azedar a palavra que sai bailando com a voz.

A palavra na boca pode amargar mais do que se escrita em carta de despedida, por exemplo. Se quiser dar uma palavra dita de presente, por favor, esmere-se em saber se a palavra tem cabimento. Sugiro que a deixe ecoar, várias vezes, na sua cachola, antes de botar a boca no trombone.

A palavra dita benquerença vem sempre acompanha de fôlego para superar situações difíceis.

Quando dita, a palavra fome provoca um barulho bem alto no estômago e um buraco daqueles na alma. É um esvaziamento... Por isso, às vezes a gente fica mudo, sentado na sala, as luzes apagadas, e quase desaparece.

Palavra dita tem força pra atrapalhar as idéias da gente, basta ser inesperada e sincera. A palavra dita sincera tem perfume de arco-íris desembocando no lago, onde pessoas colocam suas esperanças de aprender a nadar e chegar a algum lugar onde faça sentido quem se é.

Não sou da palavra dita... Não sei entoá-la ao gosto do meu coração. Na verdade, estou na fase em que começo a dizer, mas emudeço. Então, faço uma careta, deixo pra lá, quem sabe mais tarde que tarde não há de chegar.

A palavra dita tristeza compõe sonatas com as lágrimas da gente.

Ando mais preguiçosa do que nunca para dizer a palavra, mas acho que é medo de gastar saliva e dizer palavra que ninguém está a fim de ouvir. E a palavra dita, quando ignorada, fica dolente de um jeito miúdo; e não dá pra saber por que dói e nem curar. Ela fica lá, batucando mágoas, plantada num jardim de inseguranças.

A palavra dita noite pode garantir um amanhecer tão alegre quanto é a cara do girassol.

Poderia dizer a palavra, mas teria de ser da que evapora... Uma palavra que ficasse no pra sempre como fosse lembrança. A palavra fragrância, ofertório. Gosto de engolir a palavra que, se dita, desampara o sonho do outro.

Queria dizer a palavra lamento, mas sem lamentar tê-la dito. Que ela fosse a porta aberta, fim da distância entre mim e os outros; que tivesse o poder de atrair, não de forjar solidões. E que provocasse alvoroço, desarrumação, inquietudes dignas de recomeços.

A palavra morte carrega com ela pontos finais e vestidos pretos.

A palavra dita tem passado, presente e futuro. Quando conjugada aos verbos, sai berrando necessidades. Mas acontece de outra palavra dita lhe fazer companhia e amansar suas urgências.

Palavra dita fragmentada é aquela que diz mais do que reza o dicionário.

Aos pares, a palavra dita fica mais feliz e dá a luz a frases. Dia desses, uma frase dessas coube direitinho dentro do momento e soprou um sorriso no olhar do moço triste de carteirinha. Ele não soube de onde veio, mas agarrou uma gargalhada num abraço e rabiscou um poema no ar.

A palavra sossego dá sono quando dita na beirada do fim da tarde de inverno.

www.carladias.com

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Perfeita, Carla: em intenção e execução; forma e poesia. Clap, clap, clap!

Debora Bottcher disse...

Ai,
Que texto bom de ler! Quantas belas palavras ditas!!! :)
Beijo enorme.

Carla Dias disse...

Eduardo e Débora: que bom que gostaram das cores que dei às palavras : )