domingo, 18 de maio de 2008

UM MÊS >> Eduardo Loureiro Jr.


Dentro de um mês, cabem vinte e oito dias. E até um pouco mais. Dentro de um mês, cabe a dança de uma lua meia, inteira, nova, cheia. Dentro de um mês, cabem semanas sem Anas, sem Anas. Dentro de um mês, cabe um salário, trabalho, trabalho, trabalho.

Dentro de um mês, cabe uma vez, e outras, e outra vez. Dentro de um mês, cabem a sorte e o revés. Dentro de um mês, cabem pessoas que eu nunca fui. Cabe luz, cabe luz, cabe luz. Dentro de um mês, cabem azuis: o cabimento de ser feliz.

Dentro de um mês, cabe o beijo de hora marcada. Primeiro, voraz. Cabe o amor de madrugada. Cabem namoro e namorada. Cabe uma cama do lado da rede. Cabe a sacada. De tenista, de artista, de casa.

Dentro de um mês, cabe a viagem, a despedida, a ida, a vinda, a lira, a lida, a vida. As outras vidas. Dentro de um mês, cabe o instante em que tudo está. Cabe o cego de olho aberto. Cabe o ego, o superego. Cabe o treco do troço trincando.

Dentro de um mês, cabe a voz, cabem vozes demais. Silêncio sibilante de sabiás. E serpentes. Cabe eu, cabe a gente, cabem as outras gentes. Cabem, cabem, cabem até não caber em nosso juízo o cabimento de tanto caber.

Dentro de um mês, cabe tanto que eu fico tonto de tanto mês. É tudo feito de novo ou é tudo a primeira vez? Dentro de um mês, dentro de um mês, dentro de um mês... cabe o acabamento pra gente morar de vez dentro do tempo, embaixo do tampo da mesa de centro que guarda as almofadas em que sentas e sento.

Dentro do mês, da cartola do mágico, da cautela do módico, da cachola do músico, da cartela do médico, da caixola do mímico, da chancela do mérito, eu tiro esta crônica para você.

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6 comentários:

Tia Monca disse...

Oi Junoca,
Quanta coisa cabe dentro de um mês, quando a gente se permite viver.
Bj,
Tia Monca

Anônimo disse...

Para mim? Fico lisonjeada. Dentro de um mês cabe saudades, cabe vontade de ver de novo, cabe lembranças....

Carla Dias disse...

Nenhum mês que virá será o mesmo, depois de ler sua crônica.

Nem o cabimento será o mesmo.

Tudo transformado.

Em um mês que vem quero que caiba a felicidade no vaso da saudade.

Lindo tempo cabível o seu.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tia, que continuemos nos permitindo.

Anônimo(a), lembrei do que dizia o Leminski: "poeta é quem se considera". :)

Carla, continuo com a impressão de que seus comentários são melhores do que as minhas crônicas. :)

cacau disse...

Bela Crônica!!!! Adoreiiiii...

Bjo ;-)

Debora Bottcher disse...

Ai, Eduardo... Dentro de um mês cabe um mundo interior inteiro - e mais tudo que a gente deseja, perde, ganha, dói, sonha, esquece... :)
Beijo. Lindo texto, sempre.