segunda-feira, 5 de maio de 2008

HIDROTERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

O trânsito neste horário é sempre caótico mesmo, então não haveria novidade não fosse o dedão do pé latejando uma dor que se irradiava até o abdômen. A topada também não seria surpresa quando se está com pressa, se com o tropeção a agenda não tivesse emborcado numa água cuja procedência nem quis identificar.

O dia só começava.

Chegou mancando, cumprimentou com monossílabos e sem olhar para os colegas. Não tinha boa cara, o que provocou no ambiente um silêncio constrangido. Derrubou a cadeira com estrondo insuspeitado para aquele móvel tão pequeno. Sentou-se. Agora derrubou o celular que se espatifou em mais pedaços do que era de se esperar de um telefone. Os mais próximos depositaram calados os estilhaços sobre sua mesa. Chegou o café e ela o derrubou sobre uma planilha em que trabalhava há dias. Os colegas se entreolhavam. Ela respirava por suspiros que pareciam amplificados. Insistiu em fazer qualquer coisa e queimou a fonte do computador. Os minutos se arrastavam e ninguém ousava perguntar nada. Súbito, levantou-se. “Vou ao banco”, disse, esbarrando nas outras mesas. Preocupado, alguém ainda se ofereceu: “quer que eu vá com você? Já estava longe.

Entrou na loja de discos, escolheu um, pegou os fones e ficou de cara para a parede. Abriu a carteira, tirou um retrato e apertou “play”.

As lágrimas jorraram de trás dos óculos, lavaram o rosto e encharcaram o peito. Não soluçou nem se alterou sua respiração. Ouviu três vezes a mesma música.

Enxugou quanto pode o rosto e o peito com lenços de papel.

Recolocou o CD na capa e a capa na prateleira, sorriu para o moço do balcão e saiu.

Retocou o batom no elevador e estava de volta à sala em meia hora.

Tirou os óculos escuros e sorriu apertando os olhos inchados. “Tinha uma fila enorme, mas tava divertido...”, mentiu, sentando-se.

Todos ainda a olhavam imóveis quando uma lâmpada fluorescente se desprendeu do teto. O horror nos semblantes a fizeram olhar para cima, apenas a tempo de levantar-se, erguer as mãos e segurar acima da cabeça o cilindro que se precipitava. Flexionou os braços para amortecer o impacto e depositou suavemente o perigo frágil sobre a mesa.

Sorriu para o choque à sua volta e disse apenas: “quase!”

Naquela tarde, só ela conseguiu trabalhar.

E murmurava uma canção.

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

É, Albir reter líquido nunca é bom...Ótimo o tom de suspense e motivação impregnado ao seu texto. Gosto muito do jeito que você escreve!

Bizza disse...

Belíssimo texto, quem o escreveu?