domingo, 25 de maio de 2008

AMOSTRA GRÁTIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Randy Faris/CorbisMinha mãe nos dava presentes — a mim e a minha irmã — por profissão. Muitas vezes, ao chegar em casa, ela retirava de sua bolsa — branca como toda a sua roupa — umas caixinhas miúdas e coloridas. Eram pequenas pastas de dente ou escovas, fios dentais, líquidos coloridos e — se estivéssemos mesmo com sorte — alguns brindes, minúsculos brinquedos.

Quando cresci um pouco mais, eu soube que aqueles "presentes" eram amostras grátis dadas por representantes comerciais que queriam divulgar seus produtos para minha mãe, que era dentista.

Ao mesmo tempo em que nos trazia esses mimos vindos de pessoas que eu não conhecia, minha mãe advertia para que não aceitássemos — na escola ou na rua — coisa alguma que nos fosse oferecida por estranhos. Mais tarde eu descobriria que traficantes de drogas também distribuíam amostras grátis de seus "produtos" com o objetivo de viciar pessoas e conseguir novos clientes.

Lembrei disso porque ontem, ao tentar contratar um serviço de banda larga de internet, a atendente me informou que eu pagaria mensalidade reduzida nos três primeiros meses de contrato. E, refletindo um pouco mais, me ocorreu que essa prática da amostra grátis (ou com desconto) vai muito além do marketing. Ou você nunca reparou que os inícios têm uns agrados que aos poucos vão sumindo — mas sempre nos dando aquela sensação de que foi de repente?

Ocorreu-me mesmo que a paixão inicial nos relacionamentos, aquela que tentamos manter a todo custo mas que, invariavelmente acaba (ou pelo menos diminui) em alguns meses... ocorreu-me que essa paixão é uma espécie de amostra grátis do amor. Naquele início arrebatador, recebemos gratuitamente toda a felicidade do mundo — chegando ao ponto de perguntarmo-nos o que fizemos para merecer tanta coisa boa. Pouco a pouco toda a felicidade do mundo vai se transformando numa felicidade mais modesta: o tubinho de pasta esvazia, a escovinha de dentes desfia, o fio dental acaba e, dos líquidos coloridos, resta só o pequeno vidro transparente; até os brinquedinhos revelam-se frágeis, os carrinhos vão perdendo as rodinhas, as bonequinhas vão ficando sem olhos.

O que fazer?

Há quem peça mais. Mais não há. O tubo que há é grande, a escova é do tamanho padrão, o fio tem muitos metros mais de comprimento e os frascos não são nada franceses. Brinquedos? "Não fazem parte da nossa lista de produtos." Há quem se sinta enganado, indignado. "Eu, pagar por algo que já recebi de graça? Nunca!" Mas a verdade é que a amostra mostrou o que tinha de mostrar e a gratuidade gracejou a graça do produto. Se é bom, por que não pagar por ele? Por que não incluir no orçamento, reservar um dinheirinho pra ter de novo aquela felicidade?

Os representantes comerciais fazem a parte deles. Minha mãe fez a parte dela. A Vida, o Destino, Deus continuam fazendo sua parte, nos oferecendo gratuitas mostras de felicidade e alegria. Também temos que fazer nossa parte: botar a mão no bolso, sintonizar o ouvido na música, encostar o silêncio na paz, aprumar o pensamento na esperança, acordar o corpo no carinho, afinar o coração na paciência... ser gente grande e ganhar com nosso próprio valor a graça de ser mostrado ao que há de melhor.

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9 comentários:

Anônimo disse...

Amigo, triste pq vc não me identificou (Anônimo) no comentário da crônica passada.
Qto a esta, vou lhe dizer uma coisa. Não concordo com essa seu dizer "amostra grátis". Na verdade o "amor é eterno enqto dura". O mistério de uns terem mais metros de fio dental que outros a gente não explica. A vida é assim...Quando a gente se apaixona, é bom vivenciar minutos, segundos e frações de segundos pq isso é legal demais....E pode se acabar assim....Pense numa bola de sabão ..Ploc! estourou. Acho que não é questão de "amostra grátis" (não é marketing) é questão de perder o brilho, acabar mesmo...Mas não fique triste um morre outro nasce...bjosssssss.

Debora Bottcher disse...

Oi, Eduardo,
Nunca tinha olhado pra paixão como uma amostra grátis do amor, mas a metáfora me soa interessante, assim como sua conclusão. Não dizem que a gente tem que merecer o sentimento alheio? Pois então: também tem que conquistar, todo dia renovar pra que ele continue ardendo... Eu acho que é parte da 'dança da vida'. :)
Beijo. Adorei, como sempre.

Carla Dias disse...

Eduardo,
Sua crônica me fez lembrar das amostras grátis que já recebi nessa vida. Do xampu a aula de música; dos remédios às balas de hortelã; do perfume ao olhar que mexe tudo no dentro da gente. Daí que inspecionei minha alma, dei uma geral mesmo... E percebi que há amostras grátis que valem o trabalho de, mais tarde, enfiar a mão no bolso e tirar de lá todo poder de conquista.
Mais uma crônica pra eu adorar!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônima, quando optamos pelo anonimato corremos o risco de não ser reconhecidos. :) Legal você ter lembrado do outro lado da moeda. Creio que estamos mesmo sempre buscando o equilíbrio entre — para citar Vinícius — o "que seja eterno enquanto dure" e o "eu sei que vou te amar por toda a minha vida".

Debora, penso que a gente sempre merece o sentimento alheio. E, se quiser ter um merecimento diferente, tem que dançar diferente: a dança é mesmo uma boa analogia para esse movimento.

Carla, mas você é uma grande felizarda: quantas amostras grátis! :) Quando a gente começa a pensar no tanto que já recebeu, tem mesmo é que agradecer. :)

Denise disse...

Eduardo,

Penso que a paixão é forte, mas superficial, tem o lado bom de estar apaixonado, tudo fica lindo, mas também tem o lado ruim, da limitação da realidade. Um grande amor, na maioria das vezes (não necessariamente), nasce de uma paixão, mas com o passar do tempo, vai se transformando em amor ou então acaba. Se os parceiros tiverem afinidades, acredito que a paixão dá lugar a um amor pleno, ao gostoso exercício da convivência no bem querer. Como você disse em outra crônica, “Para manter o brilho do sorriso, recomenda-se carinho, leveza e bem-querer.” Penso que é por aí.

Beijo

Denise

carolina disse...

eu adorei sua crônica servirá-me para um trabalho de escola
beijos
carolina

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Denise, nada como uma leitora para nos lembrar do que escrevemos antes: isso auxilia esse ser tão desmemoriado a ter constância e firmeza de pensamento. :)

Carolina, que bom que gostou. Já que você vai usar na escola, agora já posso dizer "Eduardo também é cultura". :) Convide seus colegas e professores para virem ao site de vez em quando.

Carol Barcellos disse...

Eduardo, amei ler sua crônica. Assim como a Debora, eu também nunca tinha pensado na paixão como amostra grátis, e me diverti muito com a forma que vc conduziu essa linha de pensamento. Concordo com vc quando diz que, se quisermos, podemos sentir de novo as alegrias, as sensações únicas. Pra ter de novo aquele perfume tão gostoso, basta economizar, e desta vez, comprar um no tamanho original. Quando ao amor, já fica mais difícil, porque as duas pessoas tem que querer. E infelizmente, algumas se satisfazem com pouco: a amostra grátis. Será que não dá pra entender que a amostra grátis é um estímulo, e não um incentivo ao comodismo???
Vc me fez pensar nessas coisas todas agora, e, para mim, isso que o que há de mais gostoso na leitura de uma crônica.

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carol, interessantes as reflexões. A gente tem que caprichar na amostra grátis para que seja um estímulo. Ao mesmo tempo tem que caprichar no produto pra não ficar muito aquém da amostra grátis. :)