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MÃES [Maria Rita Lemos]



Para mim, como para todas as mães, de barriga ou coração, qualquer dia do ano pode ser considerado dia das mães. Por razões que não precisam ser analisadas, no entanto, ficou convencionado que elas, as mães, seriam homenageadas sempre no segundo domingo de maio. Quando digo “homenageadas”, entenda-se, principalmente, “presenteadas”. Presente, aliás, que pode acompanhar a homenagem, ou pode vir isolado. Ou não vir, o importante é o abraço, o pensamento, a lembrança. O reconhecimento. Em meu pensar, porém, a autora da idéia do Dia das Mães* deveria ter escolhido duas datas: segundas e sextas feiras para lembrar alguns tipos de mães e sábados e domingos para outra categoria das mesmas.

Da segunda à sexta feira, sejam lembradas as mães dos bebês que aguardam nas filas dos hospitais, dos “postinhos”, enfim, da saúde pública pela bênção de uma consulta; as mães das crianças que acordam seus filhos, sob sol ou chuva, para deixá-los na creche ou na escola particular, e o som de seus beijos é igual, ao despedirem-se deles para enfrentar novo dia de trabalho, mal ou bem remunerado.

Homenagem seja dada, ainda, às mães que deixam seus filhos aos cuidados de outras mulheres, talvez mães também, para se dedicarem, das mais variadas formas, aos filhos alheios.

Peço a sua bênção, mães de crianças portadoras de necessidades especiais, que das segundas às sextas feiras da vida, por toda a vida talvez, aguardam o horário da saída de suas crianças nas clínicas e escolas especiais para tomarem-nas nos braços, loucas de amor que são por esses filhos lindos e especiais que lhes foram destinados, com certeza por puro merecimento mútuo. Mães que carregam esses filhos, crianças por dentro mas que são, por fora, muitas vezes pesados e adultos, levam-nos ao colo como se fossem plumas... e que não se cansam de esperar por cada gesto de progresso e aprendizagem, como se fossem diferentes milagres.

São tantas, as mães dos dias de semana, que nem me lembro de todas...

Aos sábados, lembro-me com respeito das mães de adolescentes, que esperam insones por toda a madrugada, aguardando o som maravilhoso da chave girando na fechadura ou do portão eletrônico sendo aberto, enfim seu filho chegando são e salvo para casa, resistiu mais uma vez à violência do mundo lá fora.

Aos domingos, em todos os domingos de Maio e dos outros onze meses, beijo as mãos das mães de filhos encarcerados, sejam adultos ou adolescentes -quase- crianças, seja nos presídios ou nas “Fundações Casa” da vida. Quero beijar as mãos dessas mães a quem a sociedade culpa, muitas vezes por desconhecimento, pelo comportamento de seus filhos. Mães que, entre segunda e sexta feira, preparam sobremesas e economizam para levar doces e cigarros para seu menino no domingo, que geralmente é dia de visita. Mães que se humilham, despindo-se para a revista, diante de outras mães estranhas a elas, barrigas que não são saradas, peitos caídos e murchos, tudo vale a pena para ter, por algum tempo apenas, seu filho perto de si.

Em todos os dias da semana, nos finais de semana também, há que pedir a Deus que envie sua força às mães sozinhas, persistência às mães fracas e doentes, do corpo ou da mente; sabedoria e paciência às mães que, como eu, enfrentam a saudade de seus filhos que estão distantes, para estudar, trabalhar ou, simplesmente, exercer suas escolhas.

Por todos os dias, suplico compaixão, enfim, para as mães adolescentes, quase meninas, assim como pelas mães de jornada tripla, como tantas.

Nesse Dia das Mães, peço a Deus que olhe com carinho por uma mulher que não está mais ao meu lado, mas cujo abraço eu relembro todos os dias. Uma mulher que, todas as noites orava por nós, seus cinco filhos, e todos os netos e netas que já havíamos lhe dado. Uma mulher como foi minha mãe, até aquela tarde sonolenta de outubro, quando, sem se despedir, talvez porque odiasse despedidas, ela partiu de repente, foi para o andar de cima, de onde não a vejo, mas sei que ela me vê. Era dia, aliás, quase noite; era a hora do anjo de uma quinta feira.

(Esta matéria foi adaptada do livro de minha autoria, “Minha Mãe de Cetim Verde”, Editora W/A Comunicações)
* Só por curiosidade, o Dia das Mães foi criado em 1872 pela americana Julia Ward Howe.
MARIA RITA LEMOS É PSICÓLOGA E TERAPEUTA FAMILIAR.

Imagens: Anne Geddes

Comentários

aahollas disse…
Muito bom, minha amiga. A abordagem é exatamente no ponto. Bom mesmo. Um abraço, Armin.

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