sábado, 3 de maio de 2008

DA LOUCURA DO MUNDO [Ana Carolina Coutinho]


"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”

Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.

Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro, quando ainda não estávamos nem na metade do caminho, eu murmurei: “Está tudo errado”. Ele não entendeu. Tentei explicar que não poderia ser certo ter uma multidão ali, aprisionada entre os carros, todos absolutamente parados, por mais de uma hora, passivos, sem que ninguém se rebelasse. Sem que ninguém saísse do carro aos berros, sem que ninguém subisse no capô, sem que ninguém, nenhum carro ao lado, estivesse se descabelando.

Meu marido achou que a louca era eu e iniciamos uma disucssão. Antes de chegarmos na metade da discussão, eu me pus a chorar... Chorei porque me senti, subitamente, incompreendida. Como poderia ser normal passar tanto da vida ali, entre os carros? Como não pedimos demissão, como não largamos tudo, como não vamos morar em uma casinha de sapê, na beira de qualquer rio? Ou então, que seja, como não vamos morar em uma árvore, na selva, como éramos antes, porque talvez fôssemos mais sentatos quando éramos gorilas?

Não, claro que não, porque isso é ser louca. A resposta estava clara, eu era louca porque eu, chorando pelas horas que perco no trânsito, sou a fora da curva, a estranha, a maluca, claro. O normal é aumentar o som, cantarolar, tavez xingar com os vidros fechados, nem sei. Nem tenho como saber, porque eu sou pirada, meus amigos. Louquinha. De pedra.

Depois aconteceu de novo, um dia desses, quando uma amiga me confidenciou que pôs botox. Na testa. Disse que é uma agulha fina, lá, direto na testa. E incha, dói, fica vermelho, roxo, nem lembro. Parei de ouvir em algum momento da conversa e refleti que minha amiga, tão querida pobrezinha, enlouquecera. Claro, só uma pessoa louca poderia se mutilar assim e, ainda por cima, pagar uma fortuna por isso. Minha amiga é jovem, linda, rica, mas é louca, a coitada. Eu não soube como dizer isso a ela, mas, em seguida, quando o restante das amigas começou a contar das plásticas, das agulhas, dos cortes, eu fiquei sem-graça e notei, mais uma vez, que eu era a louca.

Meu Deus, eu sou absolutamente louca. Sou louca de aturar a minha barriga molenga sem fazer nada contra isso. Sempre achei que barriga normal era barriga assim, meio salientezinha, como a natureza a fizera, oras. A natureza não produz barrigas chapadas, não. São os exercícios, os pesos, os remédios, as tesouras que as fazem. A natureza faz aquela barriguinha que, com o tempo, vai ficando curva, mole, barriga das loucas essa, né? Sim. Essa é a barriga das loucas, portanto, soy jo. Sou louca de comer um balde de M&M, sou louca de permitir, absolutamente passiva, que meus peitos caiam desenfreadamente. Sou louca, mais uma vez confirmei isso.

E depois ainda teve o caso da menina que os pais mataram - ou sei lá se mataram. Depois os loucos que ficam na frente do prédio deles, jogando pedras. Ah! não, louca sou eu que ainda penso que, quem sabe, os pais podem afinal não ter matado a própria filha.

E tem o padre que voou pendurado à balões, tem os políticos, tem o cara que teve filhos com a própria filha (foi isso mesmo?), tem os roubos, as mentiras, as traições, as crianças fazendo malabarismo nos sinais, meu Deus, como eu me sentia sozinha às vezes, até aquele momento. Até aquele momento em que um quase desconhecido trouxe a mim a frase que era um bálsamo. Era isso: o mundo está louco. Eu não, eu não. Eu estou livre, eu sou normal. Estou por fora, sou gordinha, enrugada, velha, estressada, mas, ai, ufa, sou normal. O mundo, esse sim, está louco. Piradão. Mundo-louco. Eu-normal.

Alguém aí me acompanha?

Doce Rotina

Imagens: Spirit of the Wood, Brand X; Mother Nature, Ladscapes Photography; Earth Cycle, Brand X.

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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Eu, eu, eu!!! Louquinha de pedra também. :)

E solitária - que também quando converso com alguém, marido, enteados, irmãos, amigos - sou olhada meio de viés.

Loucas - sim, nós.

Então tá. Eu sempre tive uma metade de mim enterrada na loucura mesmo, nunca me incomodei. Mas me incomodou, sempre, a sanidade às avessas da humanidade - que a cada dia nos surpreende mais...

Beijo, bonita. Saudade sempre.
Adoro te ler.

Monica disse...

Eu também,

Adorei ler e me identificar com as loucuras, desse mundo louco :)

Monica

Maria Rita disse...

Ana, minha linda: Faço companhia a você e à Debby, e a todas que se também são loucas. Também sou gordinha, e as plásticas e botox nunca me atraíram, eu que já tive que fazer várias cirurgias por razões de saúde messssmo. Só que nossa loucura é mansa. É doce. É santa. Estou certa de que gostaria que mais gente nos acompanhasse...
Beijos, moça. Meu melhor. Lindo seu escrito, e verdadeiro.
Maria Rita

Mariana disse...

Louquissima aqui também...
Uma normalidade tão noemal que só pode ser meio pirada...rs
Mais feliz com M&M's do que com injeção na testa...aliás, esta, dizem que se for de graça, ok...não é?
beijo
Mari