Pular para o conteúdo principal

POEMA >> Leonardo Marona

Um dia ou dois em frente ao poema. Um dia ou dois de negação e paz. Esquecer o poema, jogá-lo sob a carne das idéias. Para sonhá-lo durante as noites sem sono. Não tocá-lo! Vê-lo negro em capuz de prata, a foice longa, a face ossuda, se aproximando lento, arrastando tudo.

Mas ele continuará ali, “a superfície intata”, eu não diria exatamente sorrindo, ele quer te provocar, brincar com a tua paciência, ele quer manchar tua glória, deixar-te fraco, à mercê.

Não te zangues, deixa-o quieto, adula-o se puderes, mas tenhas sempre uma faca à mão.

O poema é afirmação de vida, mostra a vida equivalente à morte. Portanto, observe bem este poema ainda seminu, o lençol sobre as partes, o centro em sangue palpitante, a vergonha rarefeita, e por um dia ou dois veja, observe como dele não vem nada, como é surdo de silêncio o que palpita no cerne exato, pois é puro estado de passagem, a frieza do destino dilacerada em mar aberto.

Jamais será teu ou de qualquer um, por sua essência de promiscuidade e rebelião. Deve ir com qualquer um, cigano, um cigarro na ponta dos lábios, sempre o capuz de prata cobrindo seu verdadeiro mandante. Provavelmente sob chuva fina dessas que nos fazem pensar em filhos. Mas ele teve o ventre arrancado ao nascer, o poema, e ficará olhando, estripado, esperando que o tempo o cubra de terra.

E a chuva passará, haverá decerto algumas escoriações, alguns pássaros mortos cairão das árvores, haverá talvez uma súplica tardia, um tremor pneumônico, quanta tristeza haverá quando o derem como falecido?

Engraçado no fundo não ver o rosto do poema, mas enchê-lo com pás da nossa própria substância, tão certos de sua passagem mítica, e o medo que nos causa, um dia ou dois em frente ao poema, negar tudo e recolher para ficar em paz com o ritmo caótico dessa alegoria em movimento.

Portanto, não esperar dele o que seria possível agarrar com as próprias mãos. Ele é o bobo da corte, seu sexo híbrido, sua risada sórdida, vazante de vinho tinto, ervas e papoulas as correntes de Adão, as costas de vidro e as mentes venezianas, o rosto de ferro. Ele que não será amor, que não será afeto, e quem der a mão o levará, ele que é fácil e injeta nas veias químicas heterodoxas.

Pobre poema, seminu, incompleto, quase roxo de frio, sem poder olhar para os lados de tanto medo, porque antes era pântano, agora é seca, adquire-se dia-a-dia a riqueza frágil dos homens, todos prestes a se matar, e não existem mais espécies, vocês já viram formigas brigarem?

Quando quiser parar me avise, poema, e deixe-me em paz por mais alguns instantes, apenas olhando de fora para dentro, tal que até gosto dessas vírgulas pretensiosas, mas ainda te vejo mistificado e cansado com o peso, a terra dos séculos pobres demais para nós dois.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …