quarta-feira, 7 de maio de 2008

PARA ONDE VOU QUANDO FUJO DE MIM >> Carla Dias >>

Veio-me a cena de quando visitei um amigo, há muitos anos. Foi a primeira vez que entrei na casa dele. Na época, eu era professora de bateria desse amigo que, além de ter talento para a música, era poeta e artista plástico... E era muito bom exercendo esses papéis.

Ele ficava no porão da casa e lá construiu um universo de cores, imagens e palavras. Lembro-me da sensação de êxtase ao ver aquele espaço intensificado pela arte dele. Lembro-me da alegria por ele ter optado por dividir isso comigo.

Meu amigo mantinha ali o seu lar e uma rota de fuga. Quando se cansava do mundo, e até de si mesmo, mergulhava naquele universo, e de lá só saía depois de muito revirar sentimentos. Às vezes, ele voltava inteiro da jornada, compreendendo situações, aceitando limitações. Em outras, voltava como quem não saiu do lugar.

Uma amiga deu o título de Para onde vou quando fujo de mim para uma série de fotografias de sua autoria. Artista plástica, jornalista, mãe de dois meninos lindos que só, a Carmen também me ofereceu, através desse título, um questionamento:

Para onde vou quando fujo de mim?

Meu amigo ia para seu porão encantado, mas eu também tinha lá minhas rotas de fuga. Com o tempo, elas foram mudando... As saídas ficaram ainda mais difíceis de encontrar, mas sempre vale o esforço e eu as alcanço. Reinvento-as sempre que empalidecem.

Quando fujo de mim, não vou pra Califórnia como o Led Zeppelin foi com a sua canção. Há uma década, eu costumava colocar a cadeira no quintal, madrugada alta, sentava-me com a cabeça apoiada, de jeito a ver o céu. As noites de inverno eram as preferidas para esse ritual de namorar estrelas. Anos depois, cortejar a lua pela janela; e então as longas caminhadas pela cidade. Contar telhados, traduzir jardins, desvendar olhares.

Quando fujo de mim vou parar na poesia das coisas, e sim, romantizo até doer, porque disso não dá pra fugir: sou uma romântica até de cara com a dolente melancolia. Vivo de reerguer sonhos de destroços; empinar esperanças. Vivo de confiar que o melhor há de chegar, portanto, é preciso arregalar os olhos para não perdê-lo de vista.

Para onde vou quando fujo de mim?

Para o meu dentro... Às vezes, perco-me por lá e passo dias a empurrar a realidade e a obedecer os acenos do relógio, a lista vigente de afazeres. Em outras, invento personagens... Dou-lhes nome, destino e identidade. Crio tempo para eles, fomes e sedes; sutis rebeldias e extravagantes ideais. Acampo na história deles que, apesar de ter muito da minha, é outra.

Esses lugares, sentimentos, sensações para onde vamos quando fugimos de nós mesmos, também nos definem. Fugir é bom, mas voltar é melhor ainda. Reencontrar quem somos e adicionar nessa existência o que aprendemos ao nos ausentarmos, é também dedicar a nós mesmos um tempo para tecer recomeços. Alimentar compreensões.


Imagens: Carmen Novo >> Para onde vou quando fujo de mim


www.carladias.com

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4 comentários:

ines disse...

Bonita e interessante sua crônica, Carla.
"Para onde vou quando fujo de mim?" poderia ser complementada por outra pergunta, "Para onde vou quando sinto saudade de mim...?"

Vou dormir querendo saber quais são minhas rotas de fuga.

Abraço,

Inês

Carla Dias disse...

Oi, Inês...

O bom do questionamento é que ele se desdobra, não?

Espero que suas rotas de fugas sejam tão bacanas quanto as linhas de chegada.

Abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Longas caminhadas e filmes em seqüência... grato por me fazer atentar para minhas próprias rotas de fuga, Carla.

Carla Dias disse...

Está convidado para todos os passeios interiores que eu fizer, meu amigo : )