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PAI NOSSO QUE ESTÁS NA TERRA >> Albir José Inácio da Silva

Acho difícil esse negócio de ser pai. Difícil a ponto de pensar que, se tivesse trezentos filhos, no tricentésimo primeiro ainda não saberia o que fazer com ele.

Pais aparecem na história com atributos tão pesados que chegam a ser insuportáveis. São sempre generosos e prontos a se sacrificar. São juízes infalíveis, incapazes de cometer injustiças. São heróis nos gestos mais cotidianos. Sabem tudo e mais alguma coisa. Têm de cumprir sempre com louvor o papel de pais. Têm o dever de proteger os filhos muito mais do que os filhos querem ser protegidos, o que os torna sufocantes na proteção.

Por isso tanto nos repugna o pai que joga filha pela janela do edifício ou o que estupra filha presa num porão por vinte anos.

Mas, afastados os extremos, pais semideuses e pais semidemônios, sobramos nós, os comuns. Se por um lado nos arrepia o pensamento de qualquer violência contra nossos filhos, por outro, não temos grandes feitos paternos a ostentar.

Eu, por exemplo, nunca salvei meus filhos de incêndios ou de assassinatos. Não lutei guerras libertadoras. Não ganhei medalhas olímpicas. Não danço, não canto, sou completamente anônimo. Não tenho nenhuma dessas qualidades que permitem aos filhos saírem por aí se orgulhando em voz alta: meu pai fez isso ou fez aquilo.

Do meu pai ainda posso dizer que passou muita necessidade para que pudéssemos ter casa, comida e escola. Que se sacrificou quanto pôde pelos filhos, para que tivessem vida melhor. Eu não. Embora não tenha dinheiro, tenho emprego, salário e nunca vi ameaçados o teto, a comida e o agasalho dos meus filhos. Meus problemas financeiros são devidos muito mais à indisciplina, às armadilhas bancárias e creditórias, que a dramas como desemprego. Assim, não posso encher a boca para dizer: “criei meus filhos com sangue, suor e lágrimas!”.

As mães têm o crédito da gravidez, da barriga pesada, do parto doloroso, de nutrir o filho com o próprio corpo. Mas os pais, principalmente os comuns, estão ficando a cada dia mais obsoletos.

Verdade que às vezes ficamos umas noites sem dormir, acompanhando uma febre ou uma dor. Mas isso não é nada. Nem precisa ser pai. As pessoas fazem isso por amigos, por colegas e até por estranhos. É um dever de pai, mas não chega a ser um grande feito.

Antigamente pai sabia tudo, respondia a tudo, era sábio só por ser pai. Agora, com a internet, os filhos reúnem informações em minutos que os pais não conseguem amealhar durante a vida inteira. Quando o pai se arrisca a dar uma informação, mesmo sem ninguém pedir, alguém impiedosamente lhe entrega um desmentido que acabou de tirar da impressora. Resta mudar de assunto, ou até de ambiente.

Querendo cumprir bem o dever de proteção, partem os pais para uns conselhos sobre se alimentar bem, estudar muito, ler bastante, fazer exercícios físicos. Mas tudo isso meio sem convicção, meio sem “moral”, já que às vezes comem torresmos, às vezes têm preguiça, às vezes são descuidados, quase sempre conseguem ser chatos e quase nunca conseguem ser convincentes.

Resta aos pais comuns desistirem de ser heróis, desistir dos feitos notáveis. Aceitar que seus atos estão mais para ordinários que para heróicos. Contentar-se que os filhos descubram neles o humano, o contrário do herói, o Macunaíma cheio de boa vontade mesmo atrapalhado.

E já que é impossível a glória dos deuses, que haja pelo menos “paz na terra aos pais de boa vontade”, embora paz não seja exatamente o que se possa esperar da paternidade.

Os mais afortunados conseguiremos, quem sabe, um lugar na memória do coração dos filhos. Amém!

Comentários

Albir, a cada crônica sua eu fico feliz de que tenhamos agora um cronista clássico em nosso time: especificidade e generalização na justa medida. :)
Debora Bottcher disse…
Ai, Albir...
O meu pai foi assim: comum. É certo que lutou, trabalhou, criou-nos com algum suor. Mas o que de melhor dele ficou em mim não foi o seu eventual sacrifício: foi o amor calmo e bom que ele me (nos)dedicou. O amor presente, silencioso, tranquilo, brilhante em seus olhos verdes que nunca julgavam, não questionavam; apoiavam, carinhavam - até mesmo quando bravos.
Tem lugar enorme na minha memória a trajetória do meu pai - que todo dia se faz em saudade...
Tenha certeza de que vc será afortunado.
Beijo enorme.

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