terça-feira, 13 de maio de 2008

PRIORIDADE -- Paula Pimenta

"E por você eu largo tudo, carreira, dinheiro, canudo..."

Exagerado (Cazuza)


Na época da minha avó e até um pouco ainda na da minha mãe, as mulheres não trabalhavam. A elas, cabia apenas uma sina: casar. Nem precisavam ser bonitas, simpáticas, inteligentes, malhadas e bem-sucedidas profissionalmente, como precisamos ser hoje em dia, já que o destino delas já vinha meio traçado. Pra que escola, faculdade, pós e mestrado, se no dia seguinte ao casório elas já ganhavam um diploma fresquinho pra dependurar na parede? “Dona de casa, com louvor”.

Eu acho que o certo seria dona DA casa, já que era isso mesmo que elas eram. Sem as mulheres, o marido e os filhos não eram ninguém. Eram elas que faziam o café, o almoço, o jantar, que lavavam a roupa e a louça, que arrumavam as camas, que costuravam, bordavam e tricotavam. Eram elas as responsáveis pela educação dos filhos, por ensiná-los a não colocar os cotovelos na mesa, a ir embora da casa dos amigos na hora das refeições, a dizer com licença e por favor, a ter personalidade e atitude de gente decente, e o resultado disso eu até já escrevi em outra crônica.

O que eu quero dizer com isso tudo é que antigamente as mulheres não tinham muita escolha, a não ser seguir o marido. Se ele fosse convidado pra um mestrado do outro lado do mundo, onde ela não soubesse falar nenhuma palavra da língua local, problema dela, podia ir fazendo as malas (dela e da família inteira) e acompanhar, sem nenhuma reclamação, afinal, mais do que estado-civil, esposa era a sua profissão.

Hoje em dia, tudo mudou. As mulheres trabalham, não precisam ficar acompanhando nenhum caixeiro viajante por aí afora. Elas mesmas é que desbravam o mundo, que resolvem se mudar, que são convidadas para o mestrado no exterior. Elas têm construído carreiras de dar inveja e também estão derrubando os tabus das profissões consideradas masculinas.

Essa emancipação toda foi muito boa para a auto-estima e realização feminina, mas um novo problema foi criado por conta disso. E quando o marido/noivo/namorado precisa se mudar por causa do trabalho e a esposa/noiva/namorada tem um forte vínculo com seu próprio emprego? O que fazer? Largar o salário de dar inveja e tentar começar tudo de novo na cidade para onde ele vai, ou largar o moço e se casar com o emprego?

Outro dia ouvi uma história que me deixou meio triste. O rapaz foi transferido para alguma cidade perdida na fronteira do Acre com a Bolívia, e a namorada – ao ser convidada por ele para acompanhá-lo – não teve dúvidas em dizer que “para lá ela não ia, não”. Trocou o namorado pelo Rio de Janeiro. Não conheço os envolvidos, não sei se ela tinha um salário milionário, mas de uma coisa eu tenho certeza: ela não gostava muito desse cara.

Se realmente fosse louca pelo namorado, ela largava tudo. Largava a família, o emprego e as amigas. Largava o guarda-roupa, o shopping e o cabeleireiro. Se ela gostasse de verdade, se ela o amasse do fundo do coração, ela não priorizaria o trabalho. Sei que atualmente está bem mais difícil conseguir emprego do que namorado, mas se essa menina tivesse certeza de que aquele moço era o amor da vida dela, ela não teria deixado que ele fosse sem ela. Ela não teria aceitado ficar sem ele.

Emprego, quando a pessoa é boa na profissão, se arruma em qualquer lugar. Mas, pessoas que realmente contam em nossa vida, são muito poucas. As que se importam, que querem que você as acompanhe pela vida seja onde for, que fazem de tudo para que você esteja junto, que fazem questão da sua presença, essas se contam nos dedos.

Eu não abriria mão de um amor. Na situação da tal moça, nem pensaria duas vezes. Acho que ela não precisava ter jogado o namoro para o alto, apenas adiado um pouquinho os planos profissionais. No lugar dela, eu tentaria arrumar algum trabalho pra mim na mesma cidade que ele, mas se não desse, preencheria meu tempo de outra forma. Estudaria, malharia, escreveria, e não me importaria de viver um período como a minha avó, cuidando da casa, cozinhando, e até tendo um tempo pra aprender coisas novas... encararia aquilo como um estágio ou umas férias. Depois de um tempo, tenho certeza de que ele conseguiria uma transferência e eu poderia me reorganizar profissionalmente. Largar minha felicidade pela profissão? Jamais. Podem me chamar de antiquada, mas amor pra mim é prioridade.


Partilhar

4 comentários:

Monica disse...

Paula,
E eu que pensei que não existiam mais mulheres como antigamente, que largam tudo para acompanhar seus maridos :)
Eu, pensei, se fosse hoje, faria que nem a namorada, ficava aqui, curtindo meu amor-marido à distancia, tocando minha vida com meus outros amores (trabalho, amigos,comodidades,filhos,familia...)enquanto ele voltasse.
Outra opção era ele desistir de ir para o bem de todos :)
Que bom que essa vida tem namoradas e namoradas.
Gostei de ler e gostei que tenha me incomodado. Tem alguma coisa aí prá eu pensar.
Um abraço,
Monica

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Paula, penso que o que você escreveu vale também para os homens: se disporem a ser donos de casa ao acompanhar suas mulheres quando elas tiverem de trabalhar em outra cidade (ou na própria cidade).

Luiz com Z disse...

Lets, há casos e casos. Pra um artista, tudo bem. Afinal, normalmente os artistas de classe média têm algum apoio da família por trás ou uma soma investida caso o relacionamento vá gorar lá frente.

Mas imagine que a pessoa é concursada, que não vai mais ter tempo pra estudar de forma a vencer milhares, milhares de concorrentes pra depois passar anos de incerteza sem saber se vai ser chamada pra vaga antes que o prazo do concurso expire. Imagine que a pessoa já passou por isso tudo uma vez, que isso gerou tensões, noites mal-dormidas, dívidas de tempo com a família, amigos e namorada(o), dívidas financeiras etc., até o dia de ser chamado(a) pro concurso redentor.

E aí o par tem que se mudar pra outra cidade, e a pessoa não pode acompanhar. Isso não é falta de amor. É uma questão de amor-próprio e de sobrevivência. Tem gente que não tem condição financeira de sair onde está porque ela ou a família simplesmente não tem bens ou renda pra bancar. E isso tem que ser levado em consideração da mesma forma que ninguém cortaria um braço pra provar seu amor.

Cada um tem suas limitações, Lets. E pra muita gente nesse mundo, seu emprego é como um órgão ou um membro. Sem ele, ou você não vai durar muito tempo vivo ou você vai viver infeliz. E aí o relacionamento vai pras cucuias, te deixando sozinho e desempregado ao mesmo tempo.

Não é à toa que no Banco do Brasil, onde eu trabalhei, existe a piada de que funcionário do BB adora se reproduzir em cativeiro. :D O mesmo acontece na Petrobras ou mesmo no meio artístico: as pessoas daquele meio casam entre si, porque, como os dois têm a mesma vivência, conhecem o mesmo mundo, um entende as limitações do outro e as respeita. É uma questão de conseguir se pôr no lugar do outro e entender suas limitações. Sem isso, nenhum relacionamento tem futuro.

Sleep on it. :) Beijão,
Luiz.

Carol Barcellos disse...

Paulinha, me amarro no que vc escreve! Bem, quanto às prioridades, eu penso o seguinte: por que só a mulher é que tem que largar tudo e ir? Acho que as duas partes devem ceder de alguma forma...e quem sabe, se for possível, encontrar um meio-termo?

Beijos doces cristalizados!!! :o*