Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2016

SÁBADO EM SÃO PAULO >> Sergio Geia

Ela buscava Jonatas, mas também Glinda e Elphaba; ele não queria saber de Glinda nem de Elphaba, muito menos de Jonatas, mas nós queríamos saber dele. Foi com esse arranjo de ideias que partimos. Antes de pegar a alça de acesso à Ponte das Bandeiras, o automóvel foi apanhado por uma chuva dilacerante; até então eram apenas uma ameaça o céu escuro, o vento, as previsões. No entanto, tão logo a máquina avançou marginal adentro, uma montanha de água nos sacudiu, invadindo ruas, criando piscinões, aprisionando-nos num asfalto encharcado e triste. Os sinais pararam de trabalhar, a Avenida Tiradentes virou terra de ninguém. Ao receber os cartões, já no hotel, descobri que o senhor recepcionista também estivera metido no aguaceiro. Foi o que disse quando mencionei acerca da batalha hercúlea pra conseguir vencer a chuva. Falou-me que em alguns pontos da cidade não chovia, mas que em outros o temporal castigava e impedia o movimento natural. À noite, comemos um bom lanche na Cesário Motta, aind…

ESPERTO METIDO A ENGRAÇADINHO >> Zoraya Cesar

Nasci metido a engraçadinho. Sabe aquele dito ‘perco o amigo, mas não perco a piada”? Pois é, foi feito especialmente para mim. Divirto-me por meses seguidos com minhas brincadeiras sem noção. 
O problema é que nasci, também, com veia de malandro. Não que eu seja exatamente um mau-caráter, mas não costumo ter sérios pudores em me dar bem. E, por injustiça divina, é difícil sobreviver nesse mundo cruel sendo engraçadinho e malandro ao mesmo tempo. Há um momento na vida de um homem em que ele tem que decidir por um ou outro caminho. 
Vejam, por exemplo, aquele episódio em que, de uma só vez, perdi a namorada gostosa, um casamento que ajeitaria a minha vida e o emprego.
Cursava a faculdade de Letras e trabalhava como revisor de apostilas numa gráfica de quinta categoria (eu disse que era malandro, não vagabundo, certo?) quando conheci Vandinha. Era feiinha, a Vandinha, meio desengonçada, mas tinha uma bunda boa e, logo da primeira vez que saímos, mostrou o quanto era gostosa (dizem que mulh…

TOCA RAUL >> Analu Faria

Não gosto de MMA. Não consigo gostar, já tentei. Também não assisto novela. Além disso, não gosto de manga nem de pipoca. Para piorar, não gosto de axé, sertanejo me deixa irritada e até há pouco eu nem sabia quem era Wesley Safadão.

Às vezes eu me sinto sozinha pra caralho, por não gostar dessas coisas. O pior é que quem geralmente tem os mesmos gostos que eu acaba se identificando com alguma tribo, ideologia ou grupo e eu, nem isso. Eu não sou nerd, não sou hipster, não sou de esquerda, nem de direita (muito pelo contrário).

Meus gostos me fazem pensar que Raul Seixas, em "Ouro de Tolo", se inspirou em mim ao escrever:

"Ah! Mas que sujeito chato sou eu  Que não acha nada engraçado.  Macaco, praia, carro, jornal, tobogã  Eu acho tudo isso um saco."
O pior é que, apesar da "solidão", eu não vejo problema nenhum nisso. Fico pensando em quem vai ler esta crônica e pensar "Nossa, que infeliz!". É geralmente o que eu penso de quem pensa isso de mim. Eng…

NÓS E O MUNDO >> Carla Dias >>

Fica cada vez mais difícil não se desapontar. Não falo sobre desapontamento básico, daqueles que figuram na vida da gente como trampolim para aprendizado. Falo sobre um desapontamento substancial, daquele que nos faz parar e pensar: onde iremos parar?

De padre sendo degolado às manobras para conter a imigração desencadeada pelo desespero. Das ofensas constantes aos desconhecidos à aniquilação de benefícios básicos aos que, por conta e risco, jamais os alcançariam. Pessoas jogando eu sou melhor do que você.

Será?

Às vezes, torna-se uma jornada complexa se levantar e encarar o mundo. É tanto desamparo, e muitas observações a respeito do outro e não a respeito de si. Estamos afastando de nós a responsabilidade pela decadência da humanidade, mas somos os autores dela. Alimentamos essa decadência a cada vez que violamos o direito do outro de ser, de estudar, de ter casa e comida na mesa. Quando, em vez de pensarmos a respeito da situação que encaramos, saímos discursando intolerância. O ou…

É DIA DO AVÔ E DA AVÓ! >> Clara Braga

Memória não é meu forte, quem me conhece sabe bem. Mas existem certos momentos na vida que te marcam tanto que não é preciso ter boa memória, os momentos são inesquecíveis e ponto final.

Eu nunca vou esquecer, dava a hora certinha do término da aula de ballet, lá estavam eles, me esperando no Opala com cheiro fortíssimo de gasolina. Sempre gostei daquele cheiro. Você acabou de dançar, tem que comer! Então íamos ao Forninho Mineiro. Nossa, que lugar delicioso, o melhor pão de queijo e o mais sensacional pão do amor que pode existir na face da terra. Se fechar os olhos, consigo sentir o gosto.

Chegando na casa deles, eu esperava meus pais me buscarem. Brincava, fazia dever de casa, sofria pra aprender tabuada, fazia perguntas sem sentido, assistia televisão. Enfim, lembro que independente da atividade, era divertido. E lembro que às vezes eu sentia dor no joelho, não sei se por causa das aulas de ballet ou qualquer outro motivo, mas tudo era resolvido com o tal do paninho mágico, provav…

SOBRE UM PEDAÇO DE TEMPO >> Cristiana Moura

Tem dias que o coração amanhece batendo desafinado. Foi logo depois de uma noite dessas, quando é difícil dormir. Ou bem o corpo está cansado e o sono não vem. Ou bem o sono quer adormecer o corpo que, agitado, se mantém acordado.

É que dormir, por vezes é alívio, descanso e viagem onírica desejada. Noutras parece temer os próprios sonhos e desejos e camufla o medo numa sensação de que o tempo do sono é perda de tempo.

E passou a manhã, passou a tarde. O peito apertado, o coração desafinado. Acabou por perder o nascer da lua — cochilou.

SAGRADO HUMANO >> Paulo Meireles Barguil

Na crônica A arte da cura, apresentei, sucintamente, o pouco que aprendi sobre saúde e do que precisamos saber e fazer para conquistá-la e mantê-la.
No início da vida aqui na Terra, o bebê acredita que ele e a mãe são um.
Mediante um processo de diferenciação, permeado de emoções, por vezes conflituosas, que ecoam durante anos, décadas, cada um de nós se percebe, enfim, separado da mãe.

Melhor dizendo: muitos nós.

Retificando: alguns de nós.

O que costuma acontecer, infelizmente, é que, inconscientemente, buscamos, sem sucesso, substitutos para a mãe que nos proporcione o gozo eterno!

Na fase posterior, o mundo é percebido com a lente do antagonismo, da dualidade, a qual, ao mesmo tempo em que facilita a interpretação do mundo, necessária para as escolhas diárias e noturnas, é fonte também de empobrecimento e doença, pois nos coloca, sem que percebamos, em permanente conflito.

Várias teorias em distintas áreas do conhecimento vislumbram contrários na realidade, seja de modo integrati…

MEMÓRIA >> Carla Dias >>

Hoje é hoje. Que outro dia seria? Não importam as manchetes, as casas de alvenaria, os cubículos e seus códigos postais. Hora de bater cartão já passou, assim como o momento de reescrever histórias falidas.

Recomeços são para histórias sem ponto final.

Mas hoje chega com esse gosto de saudade voluntariosa.

Treinou tanto, dedicou-se muito, foi além da conta para alcançar esquecimento. Ainda assim, hoje é hoje. Que outro dia seria? Daí que toda lógica que atribuiu à própria vida, aquela que vem conseguindo manter elegantemente, desmancha-se diante de uma lembrança acontecida em outro dia, que não hoje. Foi há muito tempo, mas parece que esse tempo é agora.

Só que hoje traz essa coisa de calendário, de celebrar isso ou aquilo, esse ou aquele. Por que diabos nasceu com essa memória seletiva, que pouco se importa com datas significativas para o coletivo, com as vedetes de calendários?

Lembra-se dos pormenores, aqueles detalhes que não se encaixam nos grandes acontecimentos que influenciam…

PARA OS BRAGA DE OLIVEIRA E PARA OS SILVA
>> Clara Braga

Outro dia meus pais vieram falar que assistiram a uma entrevista de uma lutadora na televisão e ela dizia que sofreu por muito tempo por não ouvir da mãe dela que ela a amava. Aparentemente meus pais ficaram sentidos e constataram que eles nunca foram de dizer "eu te amo" pra mim e pro meu irmão, então ficaram se questionando se isso não seria um trauma em nossas vidas.

Consigo imaginar a cena deles falando isso pro meu irmão. A cara dele de "não acredito que esse diálogo está acontecendo", seguida de uma risada e de um ponto final na conversa.

Pra mim não foi diferente, falei logo: "Por favor né, parem com essa frescura!" Mas muita calma nessa hora, ou muita hora nessa calma, não estou falando que a situação da lutadora é frescura. Todos sabemos da importância do amor de uma mãe e da falta que um "eu te amo" pode fazer naqueles momentos mais difíceis. Amor de mãe é algo que todos deveriam ter, seja essa mãe biológica, adotiva, uma vó que é mãe,…

PERDER >> Eduardo Loureiro Jr.

"Perder é a pior coisa do mundo", disse meu sobrinho Enzo enquanto perdia uma partida de Pokémon (um jogo de cartas colecionáveis, para quem não sabia). Eu discordei do Enzo, e disse que a pior coisa do mundo era adoecer. Depois, já em casa, cheguei à conclusão de que ele estava certo, pois para mim a pior coisa do mundo é perder a saúde.

Perder é mesmo de entristecer. Quem já perdeu ônibus em beira de estrada, tendo que esperar trinta minutos ao sol pelo ônibus seguinte, sabe como é. Quem já perdeu amor por abandono, traição ou morte, sabe como é. Quem já perdeu pai e mãe, amores insubstituíveis, sabe como é.

E não é algo raro, que aconteça aqui ou acolá. Perder é uma experiência quase diária. Perdemos a carteira, o dinheiro, os documentos. Perdemos direitos. Perdemos o latim. Perdemo-nos em argumentos. Perdemo-nos em divagações. Perdemos sangue. Perdemos oportunidades. Perdemos tempo. Perdemos o gosto. Perdemos a esperança. Perdemo-nos, a nós mesmos, simplesmente.

Algumas …

VIZINHA CABELEIREIRA >> Sergio Geia

Descobri uma vizinha cabeleireira. Da janela do quarto a observo: ela arruma a tralha na sacada e, enquanto arruma, conversa com alguém na sala; de repente, esse alguém, uma mulher setentona, se senta, e ela começa a trabalhar. Vai cortando; noto que fuma também; corta e fuma. E fala. Percebo que mais fuma que corta; mais fala que fuma. Cabeleireira parece tudo igual: gosta de conversar e de fumar. Eu tinha uma que conversava bastante; e fumava. Adorava falar de novelas, dos filhos, dos estudos e projetos; o tempo de corte dobrava de tamanho. Pelo salão improvisado na sacada, concluo que é uma cabeleireira, mas não uma profissional. Deve gostar do ofício. Deve ter aprendido a cortar de curiosa, fez um curso aqui, outro acolá; agora partiu para a prática. Deve fazer de cobaia a parentada; deve cortar da mãe, dos filhos, das tias. Era assim a minha mãe: cortava o meu, do meu pai, da minha avó, dos meus tios; de vez em quando, de um ou outro amigo. O salão era no quintal. Professora, ela …

O CLUBE DOS PROSCRITOS – 2ª e última parte
>> Zoraya Cesar

O Clube dos Proscritos - 1ª parte -Ele tinha uma missão: conseguir a informação, fazer o pagamento e partir. Mas achou que poderia lucrar mais jogando por conta própria.
Ele entrou, regozijante. Os doormen que o revistaram, por experientes que fossem, não descobriram a faca de mola escondida na manga de seu suéter. 
No salão, dez mesas, um grande balcão e uma jukebox, de onde saía a voz de Helen Humes e a guitarra de T. Bone Walker. Nas paredes, pôsteres de grandes jazzistas misturavam-se aos de vários personagens famosos do mundo do crime: piratas como Anne Bonny e William Kidd; os espiões Kim Philby e Mata Hari; bandidos como Butch Cassidy e também os investigadores William J. Burns e os irmãos Pinkerton. Uma enorme bandeira pirata Jolly Roger estava hasteada num canto. Havia também trevos, figuras de Leprechauns e fadas. Se o dono do clube não fosse irlandês, ninguém mais o seria.  Helen Humes, Memphis Slim e T. Bone Walker: Blues ain't nothing but a woman
(E ele era, efetivamente,…

PRECISA-SE DE GENTE ANTIPÁTICA >> Analu Faria

Ir atrás dos seus direitos é um troço de gente antipática. Pelo menos é o que pensa um usuário de um fórum público de discussão no qual entrei dia desses. O "deixa de ser antipático" é a versão século XXI do conceito de "homem cordial".
Era um fórum sobre direito do consumidor, área na qual atuo hoje. Um leitor perguntava se o dono de uma academia tinha direito de recusar o pagamento em dinheiro. Pelo que entendi, o tal dono só aceitava cartão de crédito. Logo depois da pergunta, havia vários comentários apagados, de um tal de Eduardo, seguidos de uma resposta do leitor, que dizia mais ou menos: "Desculpa se minha pergunta te ofendeu, mas eu só estou tentando entender que direito tenho." Daí o Eduardo solta uma resposta bombástica: "Ser antipatizado é escolha de cada um."
Meu Deus, é isso! Acabo de resolver uma grande equação existencial! Eureka: eu sou antipática! Eu nasci antipática. O anjo da antipatia visitou meu berço quando eu era bem peq…

DIA DO ROCK >> Carla Dias >>

Hoje celebramos um merecedor de celebrações, o bom e velho Rock. Conheço algumas pessoas que se dizem avessas a ele, mas que já citaram, em alguma situação em que insinuaram gostar mais do que desgostar de algo, It’s only rock’n roll but I like it.

A primeira banda da qual participei era bem rock and roll. Aos meus companheiros de jornada, devo o mergulho para o conhecimento do gênero, que eles me apresentaram uma série de gente boa da música. Lembro-me de passar horas no quarto, escutando os discos que eles me emprestaram, tentando compreender o motivo de tanta fascinação. Veja bem, escutar Hocus Pocus, da banda holandesa de rock progressivo Focus, pela primeira vez, foi um atiçador de sentidos.

Havia, ainda, o repertório que fui conhecendo ao ter de tocá-lo. Made in Brazil, Casa das Máquinas, Rolling Stones, Little Richard e por aí vai. Aquela banda foi uma escola para mim, não apenas como instrumentista, mas como ser humano aberto às descobertas musicais.

Uma das histórias que mais…

QUE HORAS? QUE DIA? >> Clara Braga

Quer fazer mestrado? Só se dedicar um pouquinho todo dia, escrever um bom projeto e se preparar bem pra prova que dá tudo certo!
Tocar melhor? Nada que umas horinhas por dia na frente da bateria não resolvam! Já sabe o que estudar, agora é só investir pesado!
É professora? Realmente, o momento em sala de aula é só parte do trabalho, mas nada que umas horinhas por dia na frente do computador não resolvam. Prepara aula, preenche diário, lança nota, prepara material para reunião de pais e mestres! Ufa!
Está trabalhando com fotografia, né? Ah, que ótimo! Nada como um tempinho todo dia para fazer aquelas vídeoaulas, aprimorar a técnica, descobrir um novo público alvo e sair para a batalha!
Escreve crônicas? Que interessante! Deve ler muito não é mesmo, afinal, de onde arruma tanta inspiração? Mas nada que umas horinhas do dia lendo e outras escrevendo para praticar não resolvam!
Tudo na vida é questão de dedicação! Mas a dedicação tem que ser diária!
Nesses momentos eu me pergunto, quantas horas…

A ARTE DA CURA >> Paulo Meireles Barguil

 Saúde.
Quem não a deseja?
Há quem diga que, com ela, a pessoa pode correr – voar, andar, pular... – atrás do que deseja.
Eu acrescento: e também fugir do que não almeja!
Saúde.
Dente, cotovelo, dedo do pé: eu nem me lembrava que os tinha antes de eles doerem!
Ainda bem que o protesto deles é isolado: um de cada vez...
Acho que eles são parentes de cometas adolescentes, cujas aparições são esporádicas e não esperadas.
Saúde.
De quem?
Do corpo, da alma, da mente?
É possível separá-los?
É possível uni-los?
Seria a doença a manifestação da cisão da harmonia entre eles?
Saúde.
Arte, Ciência, Filosofia e Religião: qual construto cultural tem a poção curadora?
O outro pode cuidar de mim?
Pajé, curandeira, xamã, rezadeira, mago, clérigo, médico, psicólogo: múltiplas opções.
Escolha uma, se assim desejar, ou até mais de uma!
Saúde.
Afinal, por que adoecemos? 
Buda declarou que a causa do sofrimento humano é o fato de que a felicidade está sempre acabando, pois o que caracteriza a vida é a …

CASO DE TERAPIA QUE É UM CASO DE AMOR >> Mariana Scherma

Uma suposta amiga me disse que eu tinha problema em gostar tanto de ler romances, que era melhor levar esse assunto pra terapia. Veja bem, eu nunca achei que isso fosse um problema. Ela só sabia que gostava de devorar livros, dos romances com final feliz aos com protagonista serial killer, passando por algumas histórias fantásticas. Biografias também, não só romances. Sei lá, mas sou mais eu quieta na minha poltrona com o livro que transforme um pouco o que sou. Por que raios ela achou que isso seria um problema, eu não sei.
Mas na semana seguinte da terapia, lá fui eu com a dúvida: “seria mesmo um problema trocar um dia de compras no shopping ou um café da tarde com pessoas que nem lhe acrescentam nada por eu, eu mesma e meu livro?”. Óbvio que a psicóloga já sabia que eu não tinha problemas de socialização, era bem falante e estava longe da depressão. A resposta foi: “isso é seu charme. Seu hobby. Uma paixão. Ninguém tem nada com isso”. É bem por aí: ninguém tem nada com isso. Nem ess…

O BOM OUVINTE >> Carla Dias >>

Seu pai está cansado de lhe dizer, a voz rascante, que ele pare de ser infeliz. Que a vida não espera os infelizes encontrarem a felicidade em um esbarrão. Que a vida quer nem saber dos infelizes. Diz, ainda, que infeliz feito ele, se não tomar rumo, jamais deitará lábios nos seios fartos e macios da felicidade.

Ele escuta o pai desfiar suas teorias sobre infelicidade, vida, lábios e seios fartos e macios. Ele é paciente, bom ouvinte, e até acompanha com o olhar as voltas do velho pela sala. Ultimamente, sente o pai mais atuante na sua função de curar infelicidade de filho. Semana passada, ele organizou festa surpresa de aniversário para seu rebento, mesmo a data sendo daqui a três meses. Contratou bufê, DJ e dançarinas exóticas em roupas minúsculas. Proibiu a esposa de dar as caras, isolando-a de seus atrevimentos ao mandá-la para a casa de uma de suas filhas.

As filhas dele sabem ser felizes. São parideiras de primeira grandeza, além de profissionais freelancer, que assim sobra tem…

EU JÁ, EU NUNCA >> Clara Braga

Já parei de ler livros na metade. Já fingi estar prestando atenção em algo só para ouvir a conversa dos outros. Já comprei roupa por causa do atendimento que foi tão bom que eu não tive coragem de dizer que não levaria nada depois de experimentar um monte de peças! Já fingi estar doente para matar trabalho. Já deixei de comprar livro porque a capa era o cartaz do filme e não a capa original. Já conversei com estranhos achando que algum amigo meu estava por perto, mas eles já estavam bem longe. Já fiz discurso de agradecimento do Oscar na frente do espelho segurando um desodorante. Tenho vários sapatos, mas uso sempre o mesmo. Já dei o número do meu telefone errado para pessoas que eu não queria que me ligassem. Tenho mania de deixar tudo para a última hora. Já critiquei alguém por fazer algo errado e quando fui tentar fazer errei também. Sempre confiro mais de uma vez se realmente acionei o alarme do carro, mesmo quando tenho certeza de que já fiz isso. Já ouvi a piada de uma convers…

INSTINTOS AMEBIANOS >> André Ferrer

Abraham Maslow (1908-1970) foi um psicólogo norteamericano. Seus estudos dizem respeito aos conflitos entre comunidades culturalmente distintas.  Por conseguinte, ele propôs uma hierarquia das necessidades humanas, a famosa Pirâmide de Maslow, em cuja base estão as necessidades fisiológicas (respiração, alimentação, sexo, etc.) e, no topo, a autorrealização humana (autonomia, moralidade, trabalho criativo, etc.).
Maslow é arroz de festa no Data Show de quem estuda e ensina Humanas. Portanto, não é um Maslow na íntegra e em profundidade, mas a Pirâmide de Maslow, um signo, um ícone, enfim, uma representação bastante superficial e conveniente de Maslow, que tem presença garantida nas aulas. Ou melhor, nesses verdadeiros jorros de tópicos que se acostumou, nas últimas décadas, a chamar de aulas.
Maslow trabalhou na Universidade de Cornell e no MIT. O pesquisador se debruçou, por exemplo, na difícil convivência entre negros e judeus. Um dos motivos pelos quais a ideia de que o trabalho do p…

ESPIANDO >> Sergio Geia

Na casa de muro verde duas pessoas conversam no portão. A dona, do lado de dentro; a outra, do lado de fora. Ficam algum tempo, depois a dona da casa entra, mas a outra não vai embora. A dona da casa volta e a conversa recomeça. A que está do lado de fora usa roupas brancas, parece uma enfermeira. Deve ser cuidadora. Deve haverdoente naquela casa, ou idoso que requer cuidados. São sete horas. O domingo é cinza e frio. Não tem ninguém na rua. O Pops está fechado. Nos bares que funcionaram madrugada adentro reina o mais inspirador silêncio. A quietude só é quebrada de vez em quando pela cantoria que vem da igreja. É canto de comunhão e a missa deve estar terminando; missa das seis e meia. Não ouço mais o sino chamando pra missa das seis e meia. Decerto, alguém reclamou. Um homem se instala em frente ao Pops e começa a espiar. “Não há nada a espiar aí, amigo!”. Desiste. Fuça o lixo. Cata latas. Vai embora. Dona Teresa caiu doente. É o que diz Braga, a respeito de sua empregada. Achou-se pe…

NO CLUBE DOS PROSCRITOS - Parte I >> Zoraya Cesar

Estava fria, a noite. O vento soprava em rajadas intermitentes, insinuando-se por entre as frestas da roupa. O homem sentia-se mal. Não acreditara que pudesse fazer tanto frio numa cidade tropical e não saíra convenientemente preparado. Seus músculos estavam travados e enrijecidos, seu corpo doía. 
Mas não era apenas isso que lhe trazia desconforto. Ah, não.
À medida em que ele se embrenhava por vielas escuras, os transeuntes rareavam. Havia vigilantes escondidos, espreitando por entre os vãos das janelas, disfarçados de sombra pela luz baça dos becos. Não se meteram com ele, apesar de nunca o terem visto. Afinal, nenhum desavisado entraria ali, àquela hora, sem saber o que estava fazendo. Ou pagaria o preço, alto, cobrado aos incautos. 
O homem caminhava devagar e compassadamente, os olhos se movendo de um lado para outro, pelo hábito de constante alerta no qual vivia. Percebia o escrutínio ao qual estava exposto, mas não se incomodou. Estava acostumado a ambientes estranhos e hostis e …