sábado, 30 de julho de 2016

SÁBADO EM SÃO PAULO >> Sergio Geia



Ela buscava Jonatas, mas também Glinda e Elphaba; ele não queria saber de Glinda nem de Elphaba, muito menos de Jonatas, mas nós queríamos saber dele. Foi com esse arranjo de ideias que partimos.
Antes de pegar a alça de acesso à Ponte das Bandeiras, o automóvel foi apanhado por uma chuva dilacerante; até então eram apenas uma ameaça o céu escuro, o vento, as previsões. No entanto, tão logo a máquina avançou marginal adentro, uma montanha de água nos sacudiu, invadindo ruas, criando piscinões, aprisionando-nos num asfalto encharcado e triste. Os sinais pararam de trabalhar, a Avenida Tiradentes virou terra de ninguém.
Ao receber os cartões, já no hotel, descobri que o senhor recepcionista também estivera metido no aguaceiro. Foi o que disse quando mencionei acerca da batalha hercúlea pra conseguir vencer a chuva. Falou-me que em alguns pontos da cidade não chovia, mas que em outros o temporal castigava e impedia o movimento natural.
À noite, comemos um bom lanche na Cesário Motta, ainda debaixo de muita garoa e não menos apetite. Depois pegamos um táxi e seguimos até o 411 da Brigadeiro.
O tempo... O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou, diria Vergílio. Ele e ela... Vendo-os agora, lembrei-me desse tempo, dos desarranjos, de mamadeiras, fubás e dos folguedos infantis; o tempo que nos fez compreender que o viver a partir de então ganhara outra dimensão, noviço sentimento nascia e a cada estação só faria ganhar mais espaço em nosso confuso e emaranhado mosaico de emoções.
Tempo que transforma o mundo, a vida, as pessoas. E que todos os dias se encarrega de lançar humildes servos das letras às felizes lembranças de outrora, às auroras primaveris; que faz jubilar o presente, que glorifica andanças, que preconiza efêmeras luzes de satisfação, e conquistas miúdas de pequenas criaturas que sonham embriagar-se na parcela de belo que o mundo tem a oferecer.
Em Pequenos Poemas em Prosa, Baudelaire diz que “é necessário estar sempre embriagado. Tudo está aí: é a única questão. Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direção à terra, deveis vos embriagar sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos”. Pois embriagar-se é o que há; à bebida, caros amigos, à bebida e ao encontro mágico com seu pedaço de felicidade.
Digo-lhes que felicidade foi o que a mim chegou assistindo sua face repleta de brilho; ela a encontrou na Brigadeiro, não em Jonatas, mas em Fiyero; eu mesmo saí de lá embriagado de enorme beleza; apaixonara-me não por Glinda ou Elphaba, mas por Fabi e Myra. No fim, o belo nos encharcou de alegria e não a chuva; saímos de lá embriagados.
Domingo, almoçamos bem num restaurante na Avanhandava; lembro-me do garçom, após a refeição, a nos instigar ao encontro com a mousse dos deuses: “degustem, não vão se arrepender” e depois... 
Dou-lhe um abraço de despedida. Ele segue sua marcha na direção da Caio Prado. Paro um instante para colocar uma blusa e vejo-o atravessando a Augusta. O coração dói. Há dezenove anos um guri. Hoje, homem e homem que solto, desbrava a metrópole, sem medo, sedento de belo.
Ela segue comigo; ainda. Feliz com seu cordãozinho comprado de um boliviano na Paulista.  

Ilustração:  Cliquetando

“O tempo que passa depressa...” Vergílio Ferreira


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4 comentários:

Cristiana Moura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiana Moura disse...

Quero embriagar-me " na parcela de belo que o mundo tem a oferecer". Sim...

Zoraya disse...

Sérgio,vc anda impossível. Tirar poesia de um dia de chuva em S. Paulo é covardia!

sergio geia disse...

Grato, Cris. Pois é, Zoraya, ontem o caos; hoje, poesia.