sexta-feira, 22 de julho de 2016

SAGRADO HUMANO >> Paulo Meireles Barguil


Na crônica A arte da cura, apresentei, sucintamente, o pouco que aprendi sobre saúde e do que precisamos saber e fazer para conquistá-la e mantê-la.
 
No início da vida aqui na Terra, o bebê acredita que ele e a mãe são um.
 
Mediante um processo de diferenciação, permeado de emoções, por vezes conflituosas, que ecoam durante anos, décadas, cada um de nós se percebe, enfim, separado da mãe.

Melhor dizendo: muitos nós.

Retificando: alguns de nós.

O que costuma acontecer, infelizmente, é que, inconscientemente, buscamos, sem sucesso, substitutos para a mãe que nos proporcione o gozo eterno!

Na fase posterior, o mundo é percebido com a lente do antagonismo, da dualidade, a qual, ao mesmo tempo em que facilita a interpretação do mundo, necessária para as escolhas diárias e noturnas, é fonte também de empobrecimento e doença, pois nos coloca, sem que percebamos, em permanente conflito.

Várias teorias em distintas áreas do conhecimento vislumbram contrários na realidade, seja de modo integrativo, seja de modo excludente.

No Taoísmo, uma das expressões da Filosofia oriental, o yang e o yin simbolizam as forças, os princípios complementares que abrangem todos os aspectos e fenômenos da vida, formando o Tao: o caminho perfeito.

O yang tem a semente do yin e vice-versa.

Enquanto yang representa o masculino — viril, ativo, celeste, penetrante, quente, fogo, luminoso, o dia e o espírito —  yin simboliza o feminino — suave, passivo, terrestre, absorvente, frio, água, obscuro, a noite e a matéria.

Creio que superar a visão cindida e constituir uma consciência holística caracteriza a etapa seguinte no desenvolvimento humano, que propicia serenidade diante de acontecimentos, sentimentos e pensamentos — pois intimamente ligados — tanto para os de dentro, como para os de fora.

Para que isso aconteça é necessário nos purificarmos a cada instante, notadamente naqueles em que, de algum modo, nossas ilusões não se materializam, mas se esfarelam...

Conectar-se ao infinito, nomeado de distintas maneiras, é o que possibilita ao ser humano uma crescente calmaria, a qual precisa ser vivenciada não somente nos momentos de contemplação, adoração, silêncio, mas, principalmente, quando nos relacionamos.

As forças referidas no Tao são humanas e, como tal, podem se manifestar em mulheres e homens, sendo equivocada a crença, por vezes materializada em discursos e atitudes, de associar àquela dita feminina à mulher e àquela nomeada masculino ao homem.

O equilíbrio de cada pessoa, bem como da sociedade, é fruto da vivência de ambas as forças em intensidade variada, mas sempre permeada de muita amorosidade pela vida: a sua e a do outro.

Vislumbro, pois, o momento em que superaremos a cisão da percepção do divino, manifestada em expressões como "sagrado feminino" e "sagrado masculino", e vivenciaremos o "sagrado humano", independentemente do corpo no qual a alma, temporariamente, habita.

Melhor dizendo, o sagrado no ser humano.

Namastê.


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