Pular para o conteúdo principal

PRECISA-SE DE GENTE ANTIPÁTICA >> Analu Faria

Ir atrás dos seus direitos é um troço de gente antipática. Pelo menos é o que pensa um usuário de um fórum público de discussão no qual entrei dia desses. O "deixa de ser antipático" é a versão século XXI do conceito de "homem cordial".

Era um fórum sobre direito do consumidor, área na qual atuo hoje. Um leitor perguntava se o dono de uma academia tinha direito de recusar o pagamento em dinheiro. Pelo que entendi, o tal dono só aceitava cartão de crédito. Logo depois da pergunta, havia vários comentários apagados, de um tal de Eduardo, seguidos de uma resposta do leitor, que dizia mais ou menos: "Desculpa se minha pergunta te ofendeu, mas eu só estou tentando entender que direito tenho." Daí o Eduardo solta uma resposta bombástica: "Ser antipatizado é escolha de cada um."

Meu Deus, é isso! Acabo de resolver uma grande equação existencial! Eureka: eu sou antipática! Eu nasci antipática. O anjo da antipatia visitou meu berço quando eu era bem pequena e disse: "Serás antipática até umas hora. Beijo." Eu respiro ar antipático. Eu como pão de antipatia, com manteiga extra-antipática. Na minha testa deveria estar escrito "Cuidado, sou antipática". Aliás, eu deveria me apresentar como a Miss Antipatia: eu quero processar o cara que bateu no meu amigo só porque meu amigo é gay. Eu quero Bolsonaro na cadeia. Eu quero poder denunciar o cara que parou com seu carro nas vagas destinadas a motos e mandou ir à merda a motociclista que o pediu para sair do local (será que mandaria à merda se fosse um homem dirigindo a moto?). Eu quero que o mundo saiba, nestas Olimpíadas, que nós, carinhosos brasileiros, não damos o assento a grávidas e idosos. Gente, eu sou antipática!

E já que eu me assumi, convido a todos a serem antipáticos também, igual ao meu amigo que, apesar das humilhações na delegacia, foi até o fim e denunciou o agressor. Ou igual ao procurador que fez Bolsonaro virar réu em duas ações no STF. Gente, vamos ser antipáticos "que nem" a mulher que tirou o celular da bolsa e, diante da recusa do motorista em tirar o carro da vaga de motos, começou a tirar fotos do carro e, ao final, ligou para a polícia! Sejamos superantipáticos como a grávida que saiu do metrô possessa e apontou ao repórter o grupo de garotos que fingiu estar dormindo para não dar lugar a ela! Vamos ser antipáticos, galera! Vamos criar a grife "Le Antipatique" e, junto com o amor, espalhar antipatia pelo mundo. É só começar! Vamos juntos?

Comentários

Eu até gostaria, Analu.
Mas acho que minha preguiça é maior que meu desejo de antipatia. :)
Analu Faria disse…
Você é definitivamente um simpático, Eduardo! :)
O mundo das Polianas já terminou. Creio eu, em alguma daquelas datas profetizadas para o "milênio". Belo texto Analu.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …