quarta-feira, 27 de julho de 2016

NÓS E O MUNDO >> Carla Dias >>

Fica cada vez mais difícil não se desapontar. Não falo sobre desapontamento básico, daqueles que figuram na vida da gente como trampolim para aprendizado. Falo sobre um desapontamento substancial, daquele que nos faz parar e pensar: onde iremos parar?

De padre sendo degolado às manobras para conter a imigração desencadeada pelo desespero. Das ofensas constantes aos desconhecidos à aniquilação de benefícios básicos aos que, por conta e risco, jamais os alcançariam. Pessoas jogando eu sou melhor do que você.

Será?

Às vezes, torna-se uma jornada complexa se levantar e encarar o mundo. É tanto desamparo, e muitas observações a respeito do outro e não a respeito de si. Estamos afastando de nós a responsabilidade pela decadência da humanidade, mas somos os autores dela. Alimentamos essa decadência a cada vez que violamos o direito do outro de ser, de estudar, de ter casa e comida na mesa. Quando, em vez de pensarmos a respeito da situação que encaramos, saímos discursando intolerância. O outro nem sempre está errado. Pode ser que ele não caiba no seu entendimento, que aquela não seja a vida que você deseja. Mas, e daí? A vida é dele, certo?

A sua vida é sua.

Lembro-me de algumas senhoras da minha infância. Eram carolas, que nunca faltavam à missa, que mantinham seus santos em altares em suas casas, que também eram pontos de parada da procissão. Eram devidamente casadas, algumas cuidavam de seus netos, e estavam sempre envolvidas com projetos sociais.

Olhando mais de perto — o que tive a oportunidade de fazer —, elas não eram boas pessoas, como a maioria pensava ao observá-las assim, a distância. Lidavam com Deus porque foram educadas para fazê-lo, senão iriam direto para ao inferno. Frequentavam a missa pelo status de devotas, recorriam aos santos com pedidos absurdos. Em dia de procissão, disputavam para ver quem decorava melhor a entrada de casa. Para escolher os beneficiados pelos projetos sociais dos quais cuidavam, eliminavam aqueles que julgavam pecadores sem chance de serem perdoados por Deus, o que incluía os mais miseráveis, negros, gays, e por aí vai.

Lembro-me dessas senhoras e percebo que elas são o retrato do mundo. Enquanto observarmos os acontecimentos com essa distância, seremos incapazes de compreender que a maioria das decisões, sejam políticas, sociais ou pessoais, tem sido feita sem observar aqueles que realmente precisam dos resultados delas.

Enquanto não observarmos o mundo, e tudo o que pontua nossa realidade, sem nos antecedermos e decidirmos o que é certo e o que é errado, cometeremos o mesmo erro das tais carolas. Atenderemos a uma agenda na qual não fomos nós que incluímos os eventos, por pura obrigação. E no processo, seremos cruéis, por mais generosos e beneficentes que sejamos na nossa rotina de cidadão que não é do mundo, mas do seu próprio e egoísta universo.

Há dias em que é realmente difícil se levantar e encarar o mundo. Mas continuo otimista, que acredito na parcela de pessoas que já compreendeu que faz parte dele, e que escolheu cuidá-lo.

Há coisas maravilhosas acontecendo por aí. Não é mesmo?

carladias.com

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sim, Carla, há coisas maravilhosas acontecendo... :)

Carla Dias disse...

Amém a isso, Eduardo. :)

Cristiana Moura disse...

Há sim, dias difíceis de encarar - carência de empatia e tolerância. E há coisas maravilhosas, tanta arte a nos salvar. Teus textos a nos salvar...

Carla Dias disse...

Cristiana, então, salvamo-nos. :)