sexta-feira, 1 de julho de 2016

NO CLUBE DOS PROSCRITOS - Parte I >> Zoraya Cesar

Estava fria, a noite. O vento soprava em rajadas intermitentes, insinuando-se por entre as frestas da roupa. O homem sentia-se mal. Não acreditara que pudesse fazer tanto frio numa cidade tropical e não saíra convenientemente preparado. Seus músculos estavam travados e enrijecidos, seu corpo doía. 

Mas não era apenas isso que lhe trazia desconforto. Ah, não.

À medida em que ele se embrenhava por vielas escuras, os transeuntes rareavam. Havia vigilantes escondidos, espreitando por entre os vãos das janelas, disfarçados de sombra pela luz baça dos becos. Não se meteram com ele, apesar de nunca o terem visto. Afinal, nenhum desavisado entraria ali, àquela hora, sem saber o que estava fazendo. Ou pagaria o preço, alto, cobrado aos incautos. 
Estava acostumado a andar no submundo de qualquer cidade

O homem caminhava devagar e compassadamente, os olhos se movendo de um lado para outro, pelo hábito de constante alerta no qual vivia. Percebia o escrutínio ao qual estava exposto, mas não se incomodou. Estava acostumado a ambientes estranhos e hostis e se sentia à vontade no submundo de qualquer cidade. Não era, tampouco isso, o que lhe trazia desconforto. Com certeza, não. 

Continuou andando, calmo e resoluto, arrependendo-se por não se ter agasalhado o suficiente. Isso poderia ser perigoso. O frio é psicológico, pensou, preciso me concentrar em encontrar o lugar que procuro. 

Tinha de acertar de primeira, não podia ficar entrando e saindo dos bares, espeluncas, casas de jogos ilegais, inferninhos e redutos outros que a comum das gentes nem sonha existir. Os vigilantes poderiam desconfiar que estava ali para fazer algum malfeito; caso isso ocorresse, seria expulso ou morto, sem cumprir sua missão. Mas ele era bom no que fazia, prudente, e trazia na memória a descrição perfeita de onde deveria entrar. Era uma questão de paciência. 

Ao longo de seu caminhar, podia vislumbrar, de vez em quando, escadas sujas, bares à meia-luz, sombras dançantes, mesas de bilhar. Nada daquilo lhe interessava. Estava quase preocupado que tivesse deixado passar o lugar certo quando, finalmente, encontrou-o.

Apesar de todo o treinamento e preparação, seu coração acelerou, o esôfago fechou. Se fizesse tudo direito, seria considerado um herói. Mas, agora, precisava de foco. Uma missão só acaba quando o agente chega em casa vivo. 

A porta, larga, estava aberta, os batentes de madeira pintados de verde, encimados por uma placa de neon azul onde se lia o nome do clube e seu lema: The Outcast Club - Tomorrow is no one's land (*). Ele leu a mensagem e absorveu seu significado, concordando com o dito. 

Mal pisou no hall que antecedia ao salão, e foi imediatamente interceptado por dois homens, que surgiram como que do nada. Um dos doorman era enorme, um imenso gorila branco e louro, de aguadas íris azuis e traços eslavos. Vestia-se com o apuro de quem comprara o terno numa loja Armani. O outro, ao contrário, parecia ter saído de uma rave. Era um jovem magro, quase esquelético, coalhado de piercings. Usava uma camiseta estampada com o rosto de Sid Vicious. Lembrou ao homem uma versão punk de Billy the Kid, e igualmente perigoso. 

Os dois o examinaram com olhos experientes. sem pressa. Notaram que estava mal vestido para o frio da noite. Não parece um amador, seja qual for sua especialidade, mas cometeu um erro tolo, pensou o gorila. Se seus músculos não estão relaxados, suas reações ficam mais lentas, e, na hora de salvar sua vida, um segundo pode fazer toda a diferença. O outro, com seus olhos agudos, percebeu que, debaixo da suéter larga do homem havia uma arma. Tão discreta e profissionalmente alojada, que só mesmo um outro atirador perceberia. 

- Deixe a máquina aqui conosco, parceiro. Lá dentro você não vai precisar – disse. O homem entregou-a, sem reclamar. Era praxe, não esperava outra coisa. 

Eles se entreolharam e, de comum acordo, deixaram-no entrar.

Chegara a hora. Teria de encontrá-la, a mulher, e ganhar sua confiança. Ela era velha, aposentada, seus reflexos estariam lentos, e, a essa hora, provavelmente já bêbada de ouzo. Parecia um serviço simples. Então, por que estava ele tão nervoso?

Porque nada era simples em se tratando de Marta Atanasiou. A lenda.

(*) O Clube dos Proscritos - O amanhã é terra de ninguém, numa tradução livre.

Continua dia 15 de julho a 2a e última parte

Outras aventuras de Marta Atanasiou


A hora do chá

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7 comentários:

Ana Luzia disse...

Oba, ELA está de volta! aguardando ansiosamente os próximos passos!

Anônimo disse...

Isso está cheirando a defunto, ou melhor "defuntos", hehehe...

Clarisse Amador disse...

Viva Marta!!! Viva ou morta!!!

Anônimo disse...

Essa é aquela da bengala? Já deve estar de cadeira de rodas... vai ser fácil fácil....pra ela...kkkk

Arrtuza disse...

Podia ter dado mais pistas do que vai acontecer!!!! Assim a gente não aguenta!!

Cristiane disse...

Pobre coitado! Ansiosa pelo desfecho... apesar de parecer fácil adivinhar sei que você vai surpreender. Bjs.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Certo. O melhor a ser feito: reler a primeira parte quando sair o restante.