sexta-feira, 29 de julho de 2016

ESPERTO METIDO A ENGRAÇADINHO >> Zoraya Cesar

Nasci metido a engraçadinho. Sabe aquele dito ‘perco o amigo, mas não perco a piada”? Pois é, foi feito especialmente para mim. Divirto-me por meses seguidos com minhas brincadeiras sem noção. 

O problema é que nasci, também, com veia de malandro. Não que eu seja exatamente um mau-caráter, mas não costumo ter sérios pudores em me dar bem. E, por injustiça divina, é difícil sobreviver nesse mundo cruel sendo engraçadinho e malandro ao mesmo tempo. Há um momento na vida de um homem em que ele tem que decidir por um ou outro caminho. 

Vejam, por exemplo, aquele episódio em que, de uma só vez, perdi a namorada gostosa, um casamento que ajeitaria a minha vida e o emprego.

Cursava a faculdade de Letras e trabalhava como revisor de apostilas numa gráfica de quinta categoria (eu disse que era malandro, não vagabundo, certo?) quando conheci Vandinha. Era feiinha, a Vandinha, meio desengonçada, mas tinha uma bunda boa e, logo da primeira vez que saímos, mostrou o quanto era gostosa (dizem que mulheres feias tendem a compensar na cama. No caso dela, isso não podia ser mais verdadeiro). Era engraçada e cabeça fresca, graças a Deus, pois tenho horror a mulher neurótica. De problemas, já bastam os meus em pagar o aluguel do apartamento. Ela tinha, além das curvas calipígias, outro enorme atributo: era filha única de uma família com algumas posses. 

Talvez por eu ter sido seu primeiro namorado de cama e banho, ela se encantou comigo. Ficou tão enrabichada, que arranjou um emprego para mim na editora do pai dela. 

Beleza. De uma hora pra outra virei revisor de livros técnicos, ganhando muito melhor e trabalhando muito menos. Sou bom no que faço, e é incrível como, mesmo dentro de uma editora, encontram-se pessoas iletradas e desenxabidas. De forma que logo me sobressaí. Foi assim que o pai de Vandinha interessou-se, finalmente, em me conhecer, ao namorado de quem a filha vivia a falar. 

Não é para me gabar não, mas sei ser sedutor quando quero – e eu sempre quero. Assim como Vandinha, seu pai também me achou um sujeito trabalhador, honesto, eficiente, boa gente. E como ela queria casar e não tá fácil casar filha feiosa hoje em dia, aceitou de bom grado nosso casamento. 

Eu não podia estar mais satisfeito. Como disse, Vandinha era gostosa, tinha dinheiro e nos dávamos bem. Não digo que a amava, mas, caramba, quem disse que essa era uma história de amor?

Só havia ainda um único obstáculo à minha entrada definitiva no paraíso: a aprovação da antediluviana avó de Vandinha, a quem a família prestava obediência de joelhos dobrados. Não sei se por respeito à sua velhice macróbia, ou ao fato de ela, lúcida e ladina, manter com mãos firmes a maioria das ações da editora. Ninguém dava um pio sem seu o consentimento. E Deus livrasse Vandinha de contrariar a sacrossanta e doce avozinha. Doce? Sentia arrepios só de olhar para ela. Chamavam-na ‘matriarca’, mas bem poderia ser a patriarca da família, tal a fartura de pelos em seu buço português. Era mais feia que a necessidade de ir a um banheiro público e seus maus bofes a faziam parecer uma conselheira do diabo. Cruz Credo.

Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que eu precisava da aprovação daquela múmia encardida. Convidaram-me para o aniversário do vetusto fóssil, para que eu caísse nas suas boas graças. Vandinha, ansiosa por casar – mesmo que fosse com um toleirão como eu – aconselhou: “Vovó coleciona livros de culinária com figuras grandes e coloridas”. Aquela mãe de Tutancâmon não fritava um ovo, mas colecionava livros de culinária, vá entender. 

Encontrei o livro perfeito, conforme orientação recebida. Mas, no meio dos livros de culinária, vislumbrei um título que chamou minha atenção: ’"50 modos de cozinhar seu lagartão no coxão mole dela’’. Sei, tenho certeza, que não preciso dizer do que se tratava. As figuras eram bastante elucidativas e fariam corar a mais pornográfica das criaturas de todos os porno-tempos. Algum livreiro distraído guardou-o na estante errada. Comprei-o. Seria meu presente de lua-de-mel para Vandinha, aquela safadinha. 

Senti um impulso irresistível de fazer uma das minhas gracinhas. Xeroquei algumas páginas desse livro, inserindo-as no de culinária que comprei pra velha fuinha. Levei-os de volta à livraria e pedi que os embrulhassem de presente. Quando aquele cupim de sarcófago descobrisse as fotos, todos pensariam que se tratava de um erro da livraria, uma brincadeira de mau gosto de algum livreiro insatisfeito, algo assim. Eu já ria por antecipação. Talvez as figuras até a estimulassem a depilar aquela bigodeira, pelo amor de Padim Ciço!

Na grande noite, entreguei o embrulho pra velha batráquia. Esperava que ela só o abrisse depois da festa, mas o diabo da carochinha resolveu folhear o presente na hora. Engoli em seco. Tudo bem que as folhas proibidas estavam bem coladas e mescladas com as outras, mas…

Eu não precisava me preocupar. Não com isso. Pois o que eu entreguei foi o livro errado, claro. Mesmo que a velha não distinguisse as letras do título, a capa já dizia a que viera.

A morcegóide deu um ataque de gritos que acordariam as múmias do Egito. Foi um escândalo. Até hoje eu não sei como pude confundir os pacotes. Coisa de gente malandra metida a engraçadinha.

Fui expulso sumariamente, claro, da festa, da vida da Vandinha, do emprego e do casamento que parecia tão promissor.

Me dei mal... 
É por isso que digo, amigos, quem quer se dar bem na vida não pode ser engraçadinho. Ou bem uma coisa, ou outra. Desse caso ainda não consegui achar graça. Meu aluguel está atrasado.











foto do pixabay
#zorayacontos #zorayacesarcontos #zorayacesarescritora #espertometidoamalandro #zorayacesarcontos


Partilhar

7 comentários:

Anônimo disse...

E o cara ainda achava que podia ser "malandro"! Pelo visto vai morrer "engraçadinho"!

E cuidado com as trocas, sempre verifique!
Sei de uma amiga que pegou o balé "Gisele" na locadora, para fazer uma média com a avó, mas tinham trocado a fita dentro da caixa pela pornochanchada "Gisele"! A avó convidou as amigas para verem o balé, e na hora da exibição, nem é preciso falar a "mercadoria" que deu, hahaha...

Unknown disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Unknown disse...

Hahaha A-D-O-R-E-I

Ana Luzia disse...

Gente do céu, esse homem merecia um prêmio, não ser execrado pela família, afinal de contas, não é sempre que alguém promove um "mal"-entendido desses, rsrsrs...

Tadinho!

Anônimo disse...

"Velha macróbia"... hahahaha! muito bom!

Clarisse Amador disse...

Coitado, o cara não fez nada de tão horroroso; só promoveu diversão para a festa de família .... kkkk









Cristiane disse...

Adorei, bem descontraída! No fundo achei que a velhota ia gostar e ele iria ter que aturá-la!!! Rsrsrs.