quinta-feira, 7 de julho de 2016

CASO DE TERAPIA QUE É UM CASO DE AMOR >> Mariana Scherma

Uma suposta amiga me disse que eu tinha problema em gostar tanto de ler romances, que era melhor levar esse assunto pra terapia. Veja bem, eu nunca achei que isso fosse um problema. Ela só sabia que gostava de devorar livros, dos romances com final feliz aos com protagonista serial killer, passando por algumas histórias fantásticas. Biografias também, não só romances. Sei lá, mas sou mais eu quieta na minha poltrona com o livro que transforme um pouco o que sou. Por que raios ela achou que isso seria um problema, eu não sei.

Mas na semana seguinte da terapia, lá fui eu com a dúvida: “seria mesmo um problema trocar um dia de compras no shopping ou um café da tarde com pessoas que nem lhe acrescentam nada por eu, eu mesma e meu livro?”. Óbvio que a psicóloga já sabia que eu não tinha problemas de socialização, era bem falante e estava longe da depressão. A resposta foi: “isso é seu charme. Seu hobby. Uma paixão. Ninguém tem nada com isso”. É bem por aí: ninguém tem nada com isso. Nem essa suposta amiga. Hoje eu penso que talvez eu devesse mandá-la a terapia por ficar comparando salários entre a turma. E tentando ver etiquetas da marca das roupas. Ou talvez ela tenha me mandado ao psicólogo por tanto furar com ela. Meus livros estavam mais divertidos. Vai ver foi ciúme.

Ao longo da minha vida, muitas pessoas entraram, saíram e entraram de novo. Ou nunca mais voltaram. Mas livros novos (ou usados, sem preconceito) só entraram. Se saíram, foram para empréstimos. Livros funcionam como pessoas. Depois que eles entram na sua vida, você dificilmente volta a ser igualzinha a antes deles. Hoje eu posso dizer que minha personalidade tem um pouco da ironia seca de Brás Cubas, uma pitada do desastre divertido de Bridget Jones, tem uma colher (das de chá) do amor louco de Anna Kariênina, tento ter uma dose investigativa tal qual as protagonistas de Gillian Flynn e por aí vai. Assim como também sou um pouco do humor sarcástico do Claudio, meu amigo, da insegurança do meu pai e do carinho sem medidas da minha mãe.


A gente não é mesmo uma ilha. E ao meu redor tem gente e personagens da literatura. Se às vezes eu passo a morar em algumas páginas, paciência. Sonhar é necessário. Levitar da realidade para pensar como seu personagem preferido. A vida não é tão exata como parece. A gente escolhe como é melhor viver. E eu escolho algumas páginas de papel cujo cheiro é uma mistura de felicidade e empolgação. Nunca mais alguém vai me fazer acreditar que isso é um problema pra terapia resolver.


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Um comentário:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Quem lê acaba sendo um estorvo ao lado de gente superficial. Identifiquei-me. Bom texto! Tenha uma ótima semana Marianna!