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Mostrando postagens de Abril, 2010

CARTA PARA TAÍS >> Leonardo Marona

clique na imagem acima para ler a carta. a seguir, basta usar o zoom e... voilà!




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OS 3 PEDIDOS >> Kika Coutinho

Eu estava muito concentrada, de olhos fechados, quando a pessoa já foi dando o segundo nó. “Péra!”, eu gritei. Queria mentalizar com calma. Tinham me dito que aquela fitinha do Senhor do Bonfim era infalível e que, para cada nó, eu poderia ter um desejo. No primeiro, com o pulso esticado enquanto uma amiga amarrava para mim, do alto dos meus oito anos, eu mentalizava com força: “Casa da Moranguinho, Casa da Moranguinho, Casa da Moranguinho." Queria muito aquela casa... Quando permiti que ela desse o segundo nó, parti, ainda em silêncio, para o próximo pedido: “Banco Imobiliário, Banco Imobiliário, Banco Imobiliário”. Respirei, abri os olhos e disse “Está bem”, liberando-a para o último nó, quando eu voltei a cerrar os olhos pensando: “Coleção do pequeno pônei, pequeno pônei, pequeno pônei”.

Pronto. Eu olhei para o meu braço e admirei a fitinha do Senhor do Bonfim com os três nós que reluziam meus desejos mais ardentes, em breve esses sonhos se realizariam.

Ah, esses eram meu pri…

MANOEL EM MIM >> Carla Dias >>

Manoel de Barros é um poeta que me conquistou sem precisar sorrir aquele riso largo de poesia escancarada. Lembro-me do primeiro poema dele que li e me deixou meio abismada, com a alma boquiaberta. Do livro “O retrato do artista quando coisa”, garimpado de um editorial que não me lembro qual, dizia o poema: “Se a gente falasse a partir de um córrego/a gente pegava murmúrios.” E “Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas./As palavras continuam com seus deslimites.”

Os próprios títulos dos livros de Manoel de Barros são instigantes, provocam a vontade do receptor de sua poesia de endoidecer para descoisificar a si e descobrir que ser ou não normal não vem ao caso, mas sim ser, simplesmente e com todas as complicações que cabe a cada um de nós.

Em momento tão calcado na realidade explícita, os reality shows pipocando, nos mostrando histórias inventadas para rezarem verdade inventada, e histórias dissecadas sem cuidado qualquer. Nesse momento de necessidade de estar…

RIMAS, ABRAÇOS E CURATIVOS
>> Albir José da Silva

Dia de luz, festa do sol, e o barquinho a deslizar, Copacabana, céu e mar. Sol quente, areia quente, água fria, vou entrar. Tá cheio de criança no mar, que m’importa se eu não sei nadar?

E na cadência da pobre rima fui andando e corrompendo a obra de Bôscoli e Menescal, água na canela e precaução, tudo é paz, tudo é verão.

Dois passos à minha frente, uma senhora, cabelo vermelho nas pontas, braços estendidos para o mar e uma voz solene:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço! – se não falava com as pessoas a sua volta, também não se importava que ouvissem.

É o Rio de Janeiro: quando tudo está bom, alguma coisa tem de acontecer ou o tédio se instala. E aconteceu aquela invocação. Trocaram-se olhares, risinhos, alguns gargalharam, outros apontaram o cabelo vermelho, e assim estabeleceu-se a cumplicidade entre desocupados à procura de uma vítima. Dei mais alguns passos e me senti pertencendo à malta. Ria, enquanto pensava, e cometia novas rimas, se era ecologia, religião, filosofia, lirismo …

O BEM E O MAL [Debora Bottcher]

A imensa troca de percepções que se faz nesse espaço surpreende e faz pensar. É como o abrir-se do olho do furacão: uma roda-viva de considerações - todas pertinentes, ainda que sob prismas diversos. Então, talvez seja interessante polemizar um pouco sobre a expiação dos erros - se é que isso existe.

Há algum tempo, li do escritor judeu Harold S. Kushner o livro "Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas". Muito polêmico, o autor questiona o onipotência, onisciência e onipresença de Deus: ele acredita no acaso irrestrito dos acontecimentos.

Isso nos remete à idéia de que nada tem alvo definido, tudo é obra da coincidência; não há destino nem predisposições, muito menos sorte ou azar. Para ele, a teoria de que os maus pagam por seus erros, não existe: estamos todos à mercê das tragédias, em completa igualdade.

No preâmbulo, tem um texto de Henry Sobbel que sintetiza a idéia:

"Existe uma aleatoriedade no Universo e a natureza é moralmente cega. Desta forma, não é Deus q…

A MADRUGADA DOS ESCRÚPULOS >> Leonardo Marona

Às duas e cinqüenta da manhã, Samantha Liu entrou no banheiro da Pizzaria Guanabara para retocar a maquiagem. Entrou assobiando a Aquarela do Brasil. Nas mesas, do lado de fora, mais ou menos a mesma cena de sempre. A cena Baixo Leblon de sempre. Mesas com uma média de cinco pessoas dentre as quais uma tem o dinheiro e paga a conta e as outras são agregadas ou puxa-sacos e riem e bebem sem parar.
Assim que Samantha meteu a cara no espelho, a ponta do nariz quase no vidro, o buço esticado pro batom, ouviu uns ruídos de dentro de um dos toaletes. De repente a porta explodiu na parede e uma mulher que um dia deve ter sido loira, mas que estava com o cabelo verde no momento, apareceu sentada na tampa da privada. Suas olheiras iam quase até os pés e ela tinha uma nota de 1 real enrolada e um espelhinho de bolsa numa mão. Havia outra mulher ali dentro com ela, mas estava muito escuro e Samantha não teve muito tempo para refletir, porque a loira logo atacou.
— Sua puta! Não tá vendo que o ba…

POST-IT >> Carla Dias >>

"Life is what happens to you,
While you're busy making other plans"
John Lennon



Recordo-me como fosse filme antigo que assisti, mas sem prestar muita atenção, lamentando a distração ao ver em que final ele foi parar. Recordo-me de algumas poses que, moleca, achava que era coisa de gente grande, então não precisava compreender.

Recordo-me do silêncio quase absoluto das minhas emoções. Quando elas ainda engatinhavam, eram alimentadas por outros, porque ainda não sabiam comer de garfo ou colher. Hoje também uso a faca.

Às vezes, essa recordação é apenas um zumbido baixinho, que atazana um pouco a minha concentração. Como quando estava nessa reunião, ouvindo as mil e uma peripécias comerciais do orador, ciente de que ele trabalhara um tanto para que nossos arranjos comerciais dessem certo. Mas não pude evitar...

Enquanto ele dizia e eu não ouvia, as mãos suadas dele descansando sobre as pernas, e as minhas distraindo as folhas do bloquinho de post-it, certamente pensando por elas…

A PONTE DA SAUDADE >> Eduardo Loureiro Jr.

"Gratidão é a memória do coração."
(Antístenes)
"Sempre hei de recordar esteja onde for
Daquele jeito simples que me conquistou
E que só nos dá beleza em cortesia"

(Validuaté)
Não sei por onde começar. Mesmo sabendo que é tarefa de um escritor se organizar e só levar ao leitor uma versão que o conduza de um ponto a outro, como se fosse uma ponte, não sei por onde começar, tampouco onde quero chegar.

Talvez baste dizer que fui feliz, e aqui é preciso diferenciar dois tipos de felicidade: a felicidade instantânea, fugazmente eterna, de caráter transcendente, e a felicidade cotidiana, prosaica, humana.

Já fui feliz das duas maneiras. Fui feliz durante poucas horas, numa felicidade que não ouso sequer desejar que se repita um dia — não sei se um ser humano merece ser feliz assim, tão completamente, mais de uma vez na vida.

Também já fui feliz do outro jeito, no miúdo dos dias. Quando fui feliz desse segundo jeito, eu costumava caminhar, todos os dias, pela manhã ou à tarde …

ONDAS [Debora Bottcher]

Todo mundo passa por fases em que, de repente, uma enorme onda parece descer sobre tudo e a vida perde o compasso: o amor (geralmente do outro) acaba e o romance finda; o trabalho desanda, a saúde baqueia, os amigos desaparecem, pessoas queridas morrem, você bate o carro, fica sem dinheiro. É uma sucessão de tragédias pessoais, acondicionada a uma terrível solidão se instalando pelas bordas: você está consigo mesmo e tem mesmo é que tratar de sair do buraco de areia em que foi enterrado - com que força, só você será capaz de saber.

Mas tem épocas em que, por um milagre vindo não se sabe de onde, nenhum contratempo nos assalta. Os dias transcorrem em profunda tranquilidade — manhãs, tardes e noites constantemente ensolaradas, não importa quanto chova ou faça frio lá fora. Aliás, lá fora passa a ser um lugar distante — onde tudo continua a acontecer sem, curiosamente, nos atingir. Não há aborrecimentos nem sombras — parecemos até personagens de um filme perfeito, com script de final fe…

O SEGUNDO ENCONTRO >> Leonardo Marona

Estou achando que deveria ter ido ao médico. Está quase em carne viva. Só não está mais viva porque me falta um pouco dela, não exatamente da vida eu estou falando, mas dela, um pouco mais a fundo que a vida, sim, aquela para quem, agora, me resta falar: “Então não conseguimos mais nem mesmo tomar uma cerveja”.
A frieza impressiona, mas sorrimos. Sorrimos mais do que temos. Sorrimos como se fosse foto. Somos foto. Restam os flashes de uma emoção partida em pequenas nomenclaturas como, por exemplo, “emoção partida”. Adoramo-nos, com medo. Nada poderia estragar a imagem duramente aceita do melhor de cada um.
Todas as mulheres ficam mais bonitas quando se separam. Algumas perdem os maridos em calamidades, estas não sofrem tanto, tem o aval de serem comuns. Foi quase como se visse uma mulher bonita, loira pintada, magra, boa postura, ereta, com belos pés também, e uma verdade impenetrável, nalgum ponto rente à minha verdade secreta, ponto que, infelizmente, não reconhecemos quando estamos c…

PROVA E RECOMPENSA >> Kika Coutinho

Algumas religiões dizem que a vida é puramente prova e recompensa. Você passa por provações e é recompensado depois. Como na escola: Fez a prova, passou, ganha nota 10 e sai de férias. Simples assim. Não sei se essas religiões estão certas no que diz respeito à vida como um todo, mas, com relação à maternidade, eu diria que acertaram em cheio.

Filho é pura lei de prova e recompensa.

Você passa uma noite em claro com seu bebê. Prova. Das mais duras. Quase amanhecendo e, de repente, ele te abre um sorriso enorme. Recompensa. Pronto.

Você aguenta horas com ela no colo, tentando fazer dormir e se perguntando se essa é a melhor forma, se é isso que a encantadora de bebês recomenda, se foi isso que a sua amiga fez, se era aquilo que a manicure ensinou. Será? Será? Quando consegue, enfim, você deita cansada, se perguntando por que a sua neném não obedece os livros, porque ela é assim, porque eu sou assim, será que um dia isso vai passar, meu Deus, o que vai ser de mim, ela vai acordar daqui …

DESAPEGOS >> Carla Dias >>

Desapegar-se é um processo que envolve dolências, ao menos para mim. Se durante muito tempo cultivei desejos, reverberei afeto por algum projeto ou pessoa, certamente assumir que é hora de deixar passar não é fácil. Entro no dial da catarse, do exorcismo que sempre é a contragosto.

Ao mesmo tempo, é esse meu desjeito para o desapego que vem garantindo que muitos dos meus relacionamentos, em todas as suas vertentes, não desabem por falta de paciência, que é a ciência da descoberta. Porque sei que não sou das pessoas mais fáceis de lidar, que não sei dizer o que escrevo. E nem todos aceitam a importância dos bilhetes.

Desapegar-se da tarde de outubro de 1994, ou do palco mais feliz no qual já estive. Das orlas banhadas pelo mar das dezoito horas e tantos minutos. Da tempestade à mercê de conversa que não temia a fúria da natureza. Dos brincos de quando eu os arquitetava, do cartão da biblioteca precisando de segunda via. Do olhar marejado do moço, azul de um jeito que nem te conto. De mom…

DELEGACIA DE MULHERES
>> Albir José da Silva

— É aqui, comadre, delegacia de mulheres. Diz que não é que nem as outras não. Aqui eles acreditam. Não ficam rindo da cara da gente, não. Quem atende é mulher também, sabe o que a gente passa.

A comadre era Dona Minervina que foi pedir ajuda, manhã cedo, na sua porta e contou, desesperada, a noite sem dormir.

— Espero, Dorinha, espero.

Há muitos anos, quando o marido Joca ainda era ruim, ela foi numa delegacia reclamar e quase foi presa. Foram logo perguntando "o quê que a senhora fez pra apanhar do seu marido?". Jurou que nunca mais entrava naquele lugar.

— Mas agora é diferente — animou Dorinha. — Tem lei que não pode mais bater. Vamos entrar.

A delegada olha para o rosto sofrido de Dorinha:

— O que foi que ele fez com a senhora?

— Não foi comigo, não. Nem foi o meu marido — que Deus o tenha — que era um homem muito bom. Era difícil ele me bater, sempre cumpriu suas obrigação e ainda me deixou casa e pensão de viúva.

— Então foi a senhora — virou-se para Minervina, não …

UMA COISA >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, tem uma coisa.

Se fosse no olho, eu saberia: um cisco. No pé: um espinho. No rim: uma pedra. Mas agora tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se faço qualquer coisa, sinto-a como um incômodo constante. Se paro, na tentativa de percebê-la, ela se esconde. É uma coisa em movimento que para quando paro.

Porque a gente tem sempre alguma coisa a fazer. Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa? A vida, às vezes, é um quebra-cabeças que a gente jura que está faltando peça. Não adianta se dar ao trabalho de montar uma imagem esburacada que só aparece inteira na imagem na tampa da caixa.

Será que tem uma coisa ou é uma coisa que está faltando?

No olho, eu saberia: um colírio. No pé: um carinho. No rim: um alívio. Mas agora não tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se for coisa que tem, talvez resolva ficar imóvel, paciente, fingindo que o que há é coisa que não se sente quando se para.

Se for coisa de não ter, talvez comida resolva. A não coisa pode ser fome d…

DEUS MORA NOS DETALHES... [Debora Bottcher]

Eu era muito pequena quando comecei a me embrenhar pela cozinha da fazenda da minha avó enquanto minha mãe e suas irmãs preparavam almoços, jantares, cafés, num interminável movimento na mesa grande de madeira maciça, o fogão à lenha em constante ebulição, chama e fumaça, aventais, colheres de pau e caldeirões, a falação - todas juntas ao mesmo tempo - e muito riso, numa deliciosa intimidade.

Essa é uma das minhas melhores memórias da infância: eu ficava maravilhada com essas cenas de fim de semana, feriados e datas especiais (havia muitas delas, inclusive fora do calendário oficial).

A porta dava para a margem de um rio onde os homens se sentavam para pescar e as crianças normais (meus primos) brincavam numa gritaria (espantando os peixes gerando natural indignação entre os 'pescadores' de plantão) que a mim parecia muito distante - acho que cresci antes da hora, minha inocência voltada para outras descobertas.

Ali, certamente, eu mais atrapalhava que ajudava, querendo sovar …

O CÚMPLICE >> Kika Coutinho

Era um dia normal, eu tinha feito a minha filhota dormir sua sonequinha da tarde e, depois de colocá-la no berço, de bruços, saí do quarto. Nem meia hora se passou quando eu ouvi o chorinho dela, acordando. Voltei lá e tive uma enorme surpresa. No berço, minha menina me olhava, acordada, de barriga para cima.

Fiquei alguns segundos em choque. Eu tinha certeza de que ela estava de bruços, eu a deixara de bruços, como ela estava de barriga pra cima? Meu Deus, ela virou! Foi a resposta que dei a mim mesma, em pensamento. Ela virou! Ela tem só quatro meses, mas ela vira sozinha, não acredito! Eu ri, animada pela conquista da minha menina que ainda olhava para mim, um bocado perdida, certamente sem entender como ela mesma havia feito aquilo. Corri pela casa para compartilhar com alguém a minha alegria.

Na cozinha, a empregada fazia o almoço e nem se mexeu quando eu gritei: “Rose, ela virou!”. Falei mais uma vez, achando que ela não tinha entendido: “Ela virou Rose, virou sozinha!”. A moça …

GARGALHADAS E AMOR >> Carla Dias >>

Eu adoro comédias românticas, o que para mim são como contos de fada contemporâneos... Se não forem filmes de Tim Burton, pois aí os contos de fada tomam outro rumo. As fadas endoidecem um pouco...
Eu adoro Tim Burton e comédias românticas. E When Harry Met Sally. Será que vou adorar Alice no País das Maravilhas? Vamos ver, Tim, se a sua Alice e o seu Chapeleiro Maluco me ganham.
Comédia, na indústria do cinema, é algo com muitas facetas, de acordo com quem cataloga – ou seja lá o termo técnico usado – os filmes. Mas nem tudo está na tela do cinema. Comédias românticas acontecem nas nossas vidas quando, por exemplo, notamos alguém no supermercado, no ponto de ônibus, na fila do banco e achamos um charme um gesto dessa pessoa que passou despercebido para as outras ao redor. E que se não fosse nosso interesse pelo autor dele, o tacharíamos de bobo, inconveniente.
Às vezes, a comédia romântica é um leve drama, se é possível haver drama com toques de leveza. E o chororô que começa logo na pr…

EU PAREÇO ESCRITOR?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Aconteceu faz uns anos. Ali, naquela livraria do cinema, pertinho da Praça da Liberdade. Ando sozinho pela praça e depois resolvo dar um pulinho despretensioso na livraria. Folheio os livros que estão no balcão principal quando vejo – coração bate mais forte – um cuja capa me parece familiar. Um homem, de costas, sem camisa, com chapéu de palha, entrando no mar, acompanhando por seus dois filhos – um garoto, um pouco mais velho, e uma menina, mais nova, de maiô vermelho.

Deus, é o MEU livro. Acho que nunca o tinha visto assim, não vou negar que senti um raro prazer estranho. Puxei conversa. "E aí, meu velho, como vai? Puxa, entre os títulos principais, hein? E a vida? Anda comendo direito?". Folheio meu filho e vejo que ele está bem, sadio e corado. Com todas as páginas, capa e título intactos. Quem são esses amigos, pergunto?

Depois de resmungar uns monossílabos (filhos não gostam de perguntas de pais), o deixo em paz e continuo o passeio – discretamente, claro, espio de ra…

DAS PONTES DE CADA UM [Debora Bottcher]

"Num universo de ambigüidade, esse tipo de certeza vem uma única vez, e nunca mais, não importa quantas vidas você atravesse." (Roberto Kincaid, As Ponte de Madison)

Foi outro dia que assisti, mais uma vez, As Pontes de Madison.

O livro, presente de uma amiga há alguns anos, como sempre, traz passagens que podem ser sentidas com mais intensidade, mas o filme é igualmente belo.

Meryl Streep e Clint Eastwood fazem um casal perfeito e a história é uma dessas que, nesse momento, vou simplificar e julgar debaixo de conceitos e valores menos emocionais. Sim, porque, no fundo, o filme versa também sobre traição.

Não tenho certeza se já o tinha olhado sob esse prisma: normalmente, o amor se sobrepõe aos sentimentos menores. Mas fato é que talvez por já tê-lo visto tantas vezes, lido trechos do romance outras tantas e me emocionado sempre, peguei-me olhando-o com mais praticidade.

O romance entre Francesca Johnson e Robert Kincaid durou apenas quatro dias. Aproximadamente, noventa e …

BONSOIR, POUR TOI >> Leonardo Marona

Sinto sufocar a boca que me consome. Essa talvez seja a frase anotada em cardeninho pré-adolescente. Isso talvez seja o que me faça, com olhos doces, impedir um atropelamento viável, que talvez fosse bom, inclusive para a comoção geral. Estranho agora dizer a mesma coisa de sempre: que penso em ti até roer-me em osso, que penso no peso da nossa carne em atrito, na perda sem explicação das células a cada movimento abjeto, inseguro, cheio de paixão, e caganeira no dia seguinte.

E você, de repente, parece algo concreto, como a pedrada que despedaça famílias calmas enquanto rumam aos comícios demorados. Subi com vários erros a colina. Veja bem: eu havia feito compras para o cheiro próximo, a primeira refeição do dia. Mas, como diz a música, a distância não tem meios de tornar o amor compreensível. E, obviamente, nós também não.

Talvez seja engraçado. Falamos um monte de coisas mas, no fundo, pensamos em pequenos assuntos. Algo como “Será ainda possível se emocionar com um corpo suplicante…