sexta-feira, 16 de abril de 2010

O SEGUNDO ENCONTRO >> Leonardo Marona

Estou achando que deveria ter ido ao médico. Está quase em carne viva. Só não está mais viva porque me falta um pouco dela, não exatamente da vida eu estou falando, mas dela, um pouco mais a fundo que a vida, sim, aquela para quem, agora, me resta falar: “Então não conseguimos mais nem mesmo tomar uma cerveja”.

A frieza impressiona, mas sorrimos. Sorrimos mais do que temos. Sorrimos como se fosse foto. Somos foto. Restam os flashes de uma emoção partida em pequenas nomenclaturas como, por exemplo, “emoção partida”. Adoramo-nos, com medo. Nada poderia estragar a imagem duramente aceita do melhor de cada um.

Todas as mulheres ficam mais bonitas quando se separam. Algumas perdem os maridos em calamidades, estas não sofrem tanto, tem o aval de serem comuns. Foi quase como se visse uma mulher bonita, loira pintada, magra, boa postura, ereta, com belos pés também, e uma verdade impenetrável, nalgum ponto rente à minha verdade secreta, ponto que, infelizmente, não reconhecemos quando estamos chorando.

E já não choramos, aceitamos com sorrisos um vazio sereno. As perguntas não poderiam ser mais sem graça, mas você nunca as esquecerá justamente por isso. Parecem irreais, e que você é você mesmo pela primeira vez, falando uma chatice atrás da outra e também se lamentando em excessos silenciosos, porque algo tão irreal não poderia jamais acontecer com outra pessoa senão você, apesar de acontecer com todo mundo.

Um cigarro na boca, você infla as bochechas quando traga, não sabe fumar. Gosta porque considera charmoso. Mais lá na frente vai dizer que, pelo mesmo motivo, gostaria de usar óculos. “Tenho uma cara grande, os óculos ficam bem”, pelo que ela riria muito mais do que parece ter algum dia rido ao seu lado. Isso é ao mesmo tempo desagradável e caloroso, então você estala os dedos, antiga mania em momentos de pânico.

Ela havia pedido claramente na partida: “Queria apenas uma coisa, que você não fumasse. Você tem asma, vai morrer”. Agradava muito o jeito como ela tratava a morte, assim como um pedido de perdão quando se esbarra em alguém na rua. “E a vida?”, criminosamente ela pergunta. “Vai bem”, e você gostaria que isso fosse apenas um revide, mas é mais do que isso, é o que te restou, apenas um “Vai bem”. Ela ri demais. Parece uma imagem que um dia você poderia ter tido se o relacionamento tivesse durado mais tempo. Na verdade, mal sabe você que vai durar para sempre. Você vai procurar, quem sabe, outras mulheres, abandonará a si mesmo à deriva como um pequeno canalha, mas será sem a ingenuidade de querer encontrar o que sabe que vai e precisa encontrar: o retorno à emoção abandonada, que é o motivo pelo qual todos nos apaixonamos.

Você virando parte da minha literatura, talvez seja a única forma possível para deixar o meu corpo. Quanto mais distante, mais o amor aproxima os seres sem ternura – já não somos os mesmos, envelhecemos mal. Tenho medo da cor nova do teu cabelo, da leveza forjada da tua boca arregaçada de dentes, o vestido novo presente-da-mãe, as perguntas difíceis, “E a vida?”, as frases duvidosas, “Saudade da tua pele”, o alcance antecipado de uma regularidade sentimental que nunca foi o nosso forte.

Ela não ligará jamais, enviará mensagens de vez em quando: “Consegui colar o pau do chinês do nosso casal kama sutra. Mesmo com nove graus de miopia, consegui”. “Outra coisa: nasceu mais uma violeta, agora são cinco”.

Mas você é tão pequeno que não aceita tal tipo de delicadeza como atitude física, mesmo assim escreve sobre ela com ansiedade e displicência. Você fuma dez cigarros porque faltam braços para abraçar tantos ossos, pedaços de erros partidos pelo chão. “Lua cheia”, diz ela. Você não entende nada sobre luas, mas tem a perfeita noção de que aquela não é uma lua cheia. Você pode vê-la pela metade, querendo sair para a luz, sem sucesso. A lua é como nós, mais uma representação limitada de algo que deseja ir mais longe, que iria com todas as forças, que de tanta força cai voluptuosamente, mas agora essa quase frieza transbordante de sorrisos, essa absoluta negação de toda dor que sentimos juntos, e que por pouco válida foi ao menos nossa, ela ficou no canto, a dor, esperou nossa passagem maquiada.

Estávamos tão sozinhos, certamente eu, o mais solitário ser humano que existiu, olhando para você, de costas e com os cabelos loiros esvoaçantes e se mexendo sem parar, fazendo poses e com as mãos afetadas por súbitas inspirações mitológicas, canastrice da pior espécie, como se fosse uma estranha literatura roubando a minha dimensão. E eu te neguei, meu amor. Eu te olhei como se fosse outra mulher e disse baixinho: “Daria com certeza uma bela foda”. Éramos ventríloquos num circo falido, bufões sem esperança de risada ou ao menos um porre.

De fato, braços e pernas vez em quando se esbarravam em meio à catástrofe das palavras entrecortadas, um sempre atrasado com relação ao outro, o que demonstrava que não estávamos bêbados, de maneira alguma. “Faz oito meses”, “Faz seis meses”. E o que fazer com os dois meses perdidos ou anulados, os dois meses que se tornaram o tempo vazio entre as partes? Fazer um segundo encontro. De qualquer modo, havia dois meses entre as duas compreensões. “Mas eles estavam ali, foram sentidos devidamente”, eu dizia a mim mesmo entre os dentes. “Não me lembro desse tempo todo, acho que eu te amava mais do que você a mim, vai ver foi isso que deu a diferença”.

O retorno repentino aos comentários sobre a lua e sua arcaica maquiagem interpretativa me deixou realmente preocupado. Ela apenas cuidava, passava a mão nos cabelos, os novos cabelos loiros. O que havia mudado em mim? Talvez eu tivesse menos cabelo, de qualquer forma jamais o teria pintado: é preciso viver o luto sem disfarce. “Acho que você cresceu alguns centímetros”. Ela sempre gostou desse tipo de ironia barata, era o seu forte, minha armadilha predileta e ela sabia. Mas aquilo não era mais para nós, e nos comportávamos com a alegria meio histérica de quem recebe a última refeição – e como ela é deliciosa! – antes de ser executado na cadeira elétrica.

Tínhamos a linha esticada ao máximo, e os músculos cansados. Ríamos como o idiota que acabou de matar alguém sufocado com um travesseiro, quando se reclina e acende um cigarro, finalmente aliviado, estupidamente sem pressa, no local do crime. Por um tempo, um tempo breve, não contamos os segundos para nada, demos alguns tiros para o alto, comemos vorazmente e discutimos sobre a mentalidade doentia dos apaixonados, dizendo “pobrezinhos”, e morríamos de rir.

“Mas isso foi há muito tempo”, “Não acho que seja tanto na verdade”, e de repente, assim de súbito, como nos filmes mal-dublados que passam à tarde na rede aberta, não havia mais como resistir àquela terrível ironia sorridente, àquele movimentar frenético de pernas, às mãos que se abanavam com um leque, os cigarros devorados em contra-abdução. Talvez, então, ambos tenham se dado conta. Quantos murros, cuspes, ovos jogados com violência nas paredes encardidas do quarto-sala que se tornava aos poucos claustrofóbico, um conto amassado e jogado no lixo de Julio Cortázar, quantos pequenos coelhos, aliás, mas do tipo com dentes pontudos, não precisamos vomitar para nos mantermos livres das garras do amor, esse amor destrutivo que cultiva o câncer, esse amor convulsivo apenas nas bocas de urna, esse amor quase despótico dos bem-aventurados – e então, finalmente, nos damos conta.

Não há nada errado conosco, somos apenas gotas frias num oceano de lava, nossos corpos escoriados na altura dos joelhos e arroxeados nas juntas percorreram já um longo caminho, estão exaustos, acabados, mas não sabem parar. Sabemos e podemos talvez até demonstrar às vezes, encolhidos nos banheiros e banhados em suor, o amor das entranhas arruinadas, o amor liberal da monotonia, podemos até mesmo ensinar o amor das grandes metrópoles, esses que se passam entre cabelos novos e comentários desatentos sobre uma lua indiferente. Mas então chega um dia em que nos apaixonamos, caímos nos erro de emparelhar o cérebro com o corpo, e cometemos tudo o que saberíamos e, portanto, não deveria servir, deveria ser lixo, mas dizemos que não, que vale a pena, mesmo o lixo. E só o que nos resta, e mais nada, são os segundos encontros.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, tem horas que não dá vontade de comentar, mas só de bater palmas. :)