quarta-feira, 28 de abril de 2010

MANOEL EM MIM >> Carla Dias >>

Manoel de Barros é um poeta que me conquistou sem precisar sorrir aquele riso largo de poesia escancarada. Lembro-me do primeiro poema dele que li e me deixou meio abismada, com a alma boquiaberta. Do livro “O retrato do artista quando coisa”, garimpado de um editorial que não me lembro qual, dizia o poema: “Se a gente falasse a partir de um córrego/a gente pegava murmúrios.” E “Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas./As palavras continuam com seus deslimites.”

Os próprios títulos dos livros de Manoel de Barros são instigantes, provocam a vontade do receptor de sua poesia de endoidecer para descoisificar a si e descobrir que ser ou não normal não vem ao caso, mas sim ser, simplesmente e com todas as complicações que cabe a cada um de nós.

Em momento tão calcado na realidade explícita, os reality shows pipocando, nos mostrando histórias inventadas para rezarem verdade inventada, e histórias dissecadas sem cuidado qualquer. Nesse momento de necessidade de estar na pele do outro, de ter direito de votar em para que ele seja isso ou aquilo, só me vem o desejo de me aprofundar na realidade alternativa do destempero do tempo. Embrenhar-me na locomotiva estacionada nas nuvens, só para sobrevoar o lugar-nenhum onde sorrisos moram em masmorras, à espera de pícaros heróis que irão resgatá-los e espalhá-los pelo mundo. E como diz Manoel de Barros: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:/a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca.”

Acredito que o poeta seja desses que pegam a realidade e a enfeitam com sutilezas e carinho as cruezas e as dolências... Contanto que elas digam assobiando, porque assobio é música. Há quem pense em criar uma orquestra de assobiadores tresloucados para assobiar a discografia dos Beatles. Ouvi dizer...

Uma das verdades é que a liberdade que a poesia oferece é das arrebatadoras. Seja no olhar moleque de um adulto Manoel de Barros ou na melancolia de um Rimbaud. Os poetas tecem cenários nos quais os que passam perdem olhar e coração, perdem a si e se perdem com gosto.

Alimentar a alma não basta... É preciso, depois da comilança, exercitá-la, colocá-la para caminhar e, ao ver navios, decidir uma viagem inusitada. É preciso que a alma tenha a sua identidade para que não deixe de cochichar nos nossos ouvidos a poesia, essa amante inquieta, fascinante, que traz escrito na barra da sua saia o segredo que nós, reles humanos, passamos a vida a buscar. E por não o encontrarmos, o inventamos, cada hora de um jeito.



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6 comentários:

Talles azigon disse...

"as cousas muito claras me noturnam" esse foi o primeiro verso do Manoel que eu li, me apaixonei de forma ardente. gostei bastante. te seguindo passa la no meu http://tallesazigon.blogspot.com/
quem sabes goste

disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
disse...

Você realmente me deixou motivada a conhecer mais a fundo o trabalho desse poeta.
Também gosto muito de escrever..
http://minhavidapreferida.blogspot.com/

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Manoel, o audaz. :)

albir disse...

Você me convenceria, Carla, mesmo que Manoel de Barros não se bastasse.

Carla Dias disse...

Talles... Manoel de Barros é apaixonante mesmo. Como gosto! Como me enrosco na poesia dele. Obrigada por me seguir e, claro, já estou te seguindo lá no blog. Vou ler com calma e depois te escrevo.

Má... Tenho certeza que você vai se sentir mais feliz com a poesia do Manoel de Barros na sua vida. Estou seguindo seu blog e, depois visitá-lo com calma, escreverei pra você, tá?

Eduardo... Manoel é audaz para satisfazer corações como o meu, que adora histórias de meninos curiosos, ainda que eles tenham vivido décadas.

Albir... Pois vou tentar convencê-lo sempre do que me merece ser visto, lido, escutado, tocado, experimentado. Coisinhas de fazer bem.