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DELEGACIA DE MULHERES
>> Albir José da Silva

— É aqui, comadre, delegacia de mulheres. Diz que não é que nem as outras não. Aqui eles acreditam. Não ficam rindo da cara da gente, não. Quem atende é mulher também, sabe o que a gente passa.

A comadre era Dona Minervina que foi pedir ajuda, manhã cedo, na sua porta e contou, desesperada, a noite sem dormir.

— Espero, Dorinha, espero.

Há muitos anos, quando o marido Joca ainda era ruim, ela foi numa delegacia reclamar e quase foi presa. Foram logo perguntando "o quê que a senhora fez pra apanhar do seu marido?". Jurou que nunca mais entrava naquele lugar.

— Mas agora é diferente — animou Dorinha. — Tem lei que não pode mais bater. Vamos entrar.

A delegada olha para o rosto sofrido de Dorinha:

— O que foi que ele fez com a senhora?

— Não foi comigo, não. Nem foi o meu marido — que Deus o tenha — que era um homem muito bom. Era difícil ele me bater, sempre cumpriu suas obrigação e ainda me deixou casa e pensão de viúva.

— Então foi a senhora — virou-se para Minervina, não menos sofrida. — Conte o que aconteceu que eu hoje ainda não prendi nenhum covarde que gosta de bater em mulher.

— Também não é comigo, não. O Joca já foi muito safado, me batia duas vezes por semana, mas hoje está diferente.

— Tá mesmo — confirmou Dorinha. — Pode até ter seus casos lá na rua, que isso a gente sabe que tem mesmo, mas nunca mais tirou sangue dela, nem deixou marca pros outros vê.

Acrescentou que se ele ainda dá umas sacudidas nela é tudo dentro de casa, sem escândalo. Além disso, não deixa faltar nada, nem arroz, nem feijão. Ajudou a criar as crianças e dá até presente pros netos.

— É outro homem, hoje, o Seu Joca.

A delegada começa a se mexer na cadeira:

— Então... qual é o problema?

Minervina começa, num tom solene:

— É minha neta Estefânia, que mês passado foi pra Bahia na casa da minha irmã. Pois minha criança chegou ontem pendurada num sujeito de cabelo grande e cheio de trancinha, que arrastava ela, a mala e um tal de berimbau. Chegou perguntando: "E aí, voinha, o que que tem pra comê que eu tô roxo?" Arriou a mala, comeu que nem um boi, foi pro botequim e ficou lá tocando música e dando pernada de capoeira. A mãe de Estefânia, que é uma mosca morta, disse que não podia fazer nada porque a menina gostava dele.

A velha senhora diz que acendeu umas velas pra Santa Rita e foi pra cama ver se conseguia dormir. De madrugada a coisa esquentou:

— O desgraçado passou a noite batendo na menina. E é por isso que eu estou aqui. A senhora tem que tomar uma providência, doutora — e a vovó cruza as mãos sobre a mesa, esperando providências.

A delegada vai perdendo a calma:

— Mas onde está a sua neta? Por que ela não veio? Se foi agredida, deveria estar aqui, tem que fazer exame de corpo de delito. Ela é maior de idade e tem que fazer ela mesma o registro de ocorrência.

— Ah!... mas ela não quer vir. A senhora não sabe o que é mulher enrabichada? Apanha e ainda gosta. De manhã, desceu abraçada com o carrapatento, como se num tivesse acontecido nada. Mas eu sei que ele bateu nela.

A delegada, reunindo um resto de paciência:

— Como é que a senhora sabe? A senhora viu?

— Ver, não vi. Mas escutei. Ela tava gemendo muito, como se tivesse sufocada, com uma voz tremida, inda falou "meu rei, você me mata!"

Minervina conta que ficou desesperada. Subiu correndo as escadas do sobrado e ainda escutou o safado: " morre não, neguinha, cê gosta que eu sei", com aquela voz mole de baiano. E tome mais barulho, parecia que o quarto tava se quebrando todo, a cama batendo na parede. A anciã diz que gritou: "Minha fia, o quê que se assucede?" O barulho parou e a neta enfeitiçada gritou: "Que foi, vovó? Vai dormir, pelo amor do Bonfim!".  A avó se desesperou. Aonde chega o feitiço. A bichinha apanha, mas não quer ajuda. Não! Era sua neta! Se não fizesse nada, ela acabava morrendo como se vê todo dia na televisão. E é por isso que estava ali, naquela cadeira.

Acostumada a situações complicadas, a autoridade sente que não está avançando e capricha.

— Dona Minervina, já lhe ocorreu que sua neta podia estar... namorando?

As duas amigas mostram indignação e surpresa:

— Namorando?!

A delegada tenta de novo:

— É... fazendo amor.

Minervina despertou primeiro:

— A senhora apanha quando está namorando?

E Dorinha completou:

— O seu marido bate na hora da saliência? A senhora é polícia e não faz nada?

Na saída, Dorinha ainda houve a reclamação:

— Tá vendo, comadre, sua delegacia de mulher não adiantou nada não. Eu acho que, pra ser preso, só se ele pegar ela de pau.

— Nem assim, comadre. Nem assim.

Comentários

Cláudia disse…
Albir, é triste a realidade e o conformismo de muitas mulheres neste Brasil. Sobre estas coisas modernas: são "pano para a manga"... Melhor não comentar. Parabéns pela crônica!
Ah, eu adoro esse humor de desentendidos. :)
Debora Bottcher disse…
Valha-me, Albir... Faço coro com o Eduardo: humor de desentendidos - define tudo! :))) Beijo.
albir disse…
Obrigado, Cláudia, volte sempre.

Edu, editor zeloso,
obrigado pela diagramação, obrigado por me desembolar.

Beijo pra você, Debora.
Carla Dias disse…
Isso é que atestar que cada um de nós tem uma versão diferente para o ocorrido :)
disse…
Discutir nvos conceitos com humor é demais...
Estou gostando muito do site de vcs, acabei de conhecer.
Se você tiver um tempo, poderia ler minha crônica e me dar alguma opinião e algumas dicas de leitura?
Abs,
disse…
O meu blog e a crônica é essa:
http://minhavidapreferida.blogspot.com/2010/04/sonho-9.html

Obrigada

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