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RIMAS, ABRAÇOS E CURATIVOS
>> Albir José da Silva

Dia de luz, festa do sol, e o barquinho a deslizar, Copacabana, céu e mar. Sol quente, areia quente, água fria, vou entrar. Tá cheio de criança no mar, que m’importa se eu não sei nadar?

E na cadência da pobre rima fui andando e corrompendo a obra de Bôscoli e Menescal, água na canela e precaução, tudo é paz, tudo é verão.

Dois passos à minha frente, uma senhora, cabelo vermelho nas pontas, braços estendidos para o mar e uma voz solene:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço! – se não falava com as pessoas a sua volta, também não se importava que ouvissem.

É o Rio de Janeiro: quando tudo está bom, alguma coisa tem de acontecer ou o tédio se instala. E aconteceu aquela invocação. Trocaram-se olhares, risinhos, alguns gargalharam, outros apontaram o cabelo vermelho, e assim estabeleceu-se a cumplicidade entre desocupados à procura de uma vítima. Dei mais alguns passos e me senti pertencendo à malta. Ria, enquanto pensava, e cometia novas rimas, se era ecologia, religião, filosofia, lirismo ou psiquiatria, o que levava alguém a convidar Netuno para um abraço.

Não pensei por muito tempo. A onda explodiu no meu peito e eu caí sentado. Com o susto, inspirei com força e a água entrou pelos sete buracos da minha cabeça, como diria Caetano. Era o começo das dores. A areia embaixo de mim começou a fugir e eu fui atrás dela, arrastado sobre outras camadas que também se moviam para o fundo. Pela fricção percebi que já não havia mais o tecido de proteção entre mim e o chão e, pela ardência, imaginei a água se tingindo de vermelho. Como a areia, a água também voltou para o fundo e me descobriu a cabeça. Mas não durou muito.

Outra onda me atingiu e eu me senti numa lavadora. Batia a cabeça, às vezes o pé, o ombro se arrastava e subia, e agora eram as costas, e eu girando, sem saber se já estava no fundo do Atlântico ou a poucos metros do calçadão. Estiquei braços e pernas tentando encontrar o chão. Mas onde estava o chão?

O chão ia continuar desaparecido ou surgindo em forma de lixa por muito tempo. Muitas sacudiduras depois, muitos litros de água salgada no estômago e quem sabe no pulmão, o mar se cansou e devolveu seu brinquedinho à areia. Outras ondas ainda me alcançaram, mas me permitiram ficar lá, de bruços, guinchando para respirar. A água foi generosa, pois se afastou a lycra para melhor me esfregar no chão, ela própria se encarregou de recolocá-la quase no lugar. Esse quase provocou risos e piadas, mas evitou linchamento por ato obsceno.

Divertiram-se as pessoas, depois foram cuidar de suas vidas porque nem estabacado na praia eu merecia toda essa atenção. Com a dignidade que me restava, tentando encobrir uma escoriação mais ridícula, puxei pra cima a lycra cheia de areia, e fui para casa.

Até hoje não sei se irritei o mar, a bossa-nova, ou os dois. Isso aconteceu há alguns anos e tenho voltado regularmente à praia. Nessas ocasiões, estendo os braços, confiro se ninguém está me observando e repito discretamente:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço.

Pode ser que não tenha nada a ver, mas, como fazem Chico e Vinícius, “eu, que não creio, peço a Deus por minha gente”.

E a verdade é que,
depois desse cuidado,
ainda peco pela rima,
mas nunca mais
morri afogado.

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