sexta-feira, 2 de abril de 2010

BONSOIR, POUR TOI >> Leonardo Marona

Sinto sufocar a boca que me consome. Essa talvez seja a frase anotada em cardeninho pré-adolescente. Isso talvez seja o que me faça, com olhos doces, impedir um atropelamento viável, que talvez fosse bom, inclusive para a comoção geral. Estranho agora dizer a mesma coisa de sempre: que penso em ti até roer-me em osso, que penso no peso da nossa carne em atrito, na perda sem explicação das células a cada movimento abjeto, inseguro, cheio de paixão, e caganeira no dia seguinte.

E você, de repente, parece algo concreto, como a pedrada que despedaça famílias calmas enquanto rumam aos comícios demorados. Subi com vários erros a colina. Veja bem: eu havia feito compras para o cheiro próximo, a primeira refeição do dia. Mas, como diz a música, a distância não tem meios de tornar o amor compreensível. E, obviamente, nós também não.

Talvez seja engraçado. Falamos um monte de coisas mas, no fundo, pensamos em pequenos assuntos. Algo como “Será ainda possível se emocionar com um corpo suplicante?”. Mas não devemos perguntar nada. Perguntar, mais do que nunca, exige performances estéticas de ilusão e paz. A interrogação: Será a crise do sinal o único compreensível e, ao mesmo tempo, indesejável problema?

Estamos brochas em meio ao tempo. Não vai demorar muito até que viremos frases não anotadas, pressupostas em aulas ruins da antropologia do Homem. Isso é irreversível, e vemos os garotinhos inquietos nos dizerem coisas do amor, nas quais – nos disseram – não devemos acreditar. Mas fazemos nossa base em terrenos de brigas entre gangues. E não são gangues do tipo “Torço para o Flamengo, estou bem comigo mesmo” – são coisas mais estranhas, largadas no fim do jogo, e não pensem que quando você está ali no canto, sentindo que é a última pessoa no mundo, não exista uma pessoa com um pescoço mais bonito do que o seu, dizendo mesma coisa, desempenhando alegorias do corpo nas quais não acreditamos apenas porque temos medo.

E existe um milhão de coisas que poderiam fazer você pensar: “Estou apenas deslocado e, na verdade, quem não está?” – mas é mais bonito e arriscado desempenhar a falsa bravura do conhecimento irreversível, em termos de “espécies falhas”, vendo as compras feitas nas sacolas desvanecerem-se em siglas tão secas quanto o silêncio feito diante do câncer raro, irremediável.

Mas somos homens e, afinal, existem os olhos verdes e, é claro, uma certa comoção contida a cada encontro inusitado. Mas daí a isso fazer parte da nossa vida, para isso é necessário ser argentino: e ser argentino é bonito, mas é errado, quando um sabe, e não é.

Argentino ou não eu subia delirante as calçadas coloridas. Os ônibus faziam o barulho de uma terra abandonada por ciclos esparsos. Subi sem ver no primeiro, como sempre costumo fazer com tudo. A chance do erro sem volta mobiliza a paz da ação repentina. Dentro do ônibus, eu e minhas compras, um pouco da melancolia de quem sobe até a casa como quem volta da guerra para os escombros, quase um fado de Portugal, e uns senhores retirados dos contos de Roberto Bolaño. Aquela coisa crua, se derramando em beleza perigosa, me exigia algumas palavras estranhas, alguma emoção a ser reformulada e perdida em minutos, como de fato aconteceu.

Sobe no ônibus uma magrebina, ou etíope, ou quem sabe haitiana. Estamos à beira do caos então nos olhamos todos, o tempo todo, com olhos assustados, e é só isso que afasta o amor, por isso pensamos nele, temos nele a base do nosso pecado mor. Magrebina, etíope, haitiana, o que importa é que ela também carregava compras. Ela carregava compras e eu carregava compras e éramos dois retirantes da nossa própria trajetória, ela provavelmente fugida de algum parricídio ou praga, eu sem pai ou doença, me equilibrando em corda desgastada, e além das compras ela tinha as costas formadas num triângulo perfeito, apenas peles e músculos, terminados num coque africano, e aquilo era o medo e era a exatidão do ataque, e eu estava bêbado o suficiente, e doce, para cometer as mais arriscadas demonstrações de afeto, e foi bem o que fiz quando ela, finalmente, no embalo dos paralelepípedos quebrados como dentes latino-americanos, olhou para trás.

- Ei! – ridiculamente, eu fiz.

Ela apenas olhou séria, talvez tenha sorrido quando virou outra vez para frente, mas essa é a vantagem de escrever textos literários: lida-se positivamente com o que não se vê.

- Pssssssssssssiu! – eu tentei novamente.

Nada. O ônibus começou a descer a ladeira. Achei tudo aquilo muito estranho: Como chegar ao topo da colina descendo uma ladeira? Tentei ponderar: Apenas deixe de malandragens, fique quieto, não mexa com ninguém, que o ônibus voltará a subir. Sentei, tentei relaxar o ventre contraído, os dentes bruxos, o suor corrente no couro cabeludo. Então ela se levantou, assim como se levantam os mortos egípcios frente às grandes comitivas, veio na minha direção, olhos verdes, de branco amarelado, fixos em mim, sem raiva ou carinho (mas com o quê, afinal?), as veias nuas com o peso das sacolas plásticas, desceu as escadas e virou-se.

- Bonsoir, pour toi – ela disse, eu juro que foi o que ela disse, e eu tinha finalmente minhas palavras estranhas, o mundo havia me dado o que eu necessitava e aquilo era tão raro que eu me levantei como quem emerge da apnéia, e andei de um lado para o outro do ônibus, forcei janelas, apelei para as saídas de incêndio mas, como muitos, eu não tinha forças, estava entregue aos movimentos hesitantes e às sensações estrangeiras.

E enquanto eu discutia em dialeto violento com o motorista do ônibus, nem mesmo vi que ela havia largado suas compras no chão, não vi que o que ela queria dizer era “Espero por ti desde o fim da guerra”, eu sabia apenas que a guerra não havia ainda terminado – disso ela, pobre, não sabia – e talvez por isso ela chorasse, uma leve lágrima desértica pela maçã do rosto, e talvez por isso eu me debatesse, infrutífero, porque sabia que de uma guerra só saem mortos e encurralados, “pobres como ratos”, diria o poeta, mas ela disse apenas Bonsoir, pour toi, e quando dei por mim percebi que aquele era, sim, o ônibus errado, então eu mesmo chorei porque aquela guerra não era minha, aquelas palavras estranhas não eram para mim e eu teria que lidar outra vez com a normalidade dos dias, e eu queria tanto para mim, aquela guerra, aquelas palavras estranhas, porque às vezes precisamos mais do que apenas trocar de ônibus. É preciso, às vezes, encher-se pela metade em muitos copos de plástico, que ninguém mais vai usar.


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