quarta-feira, 21 de abril de 2010

POST-IT >> Carla Dias >>


"Life is what happens to you,
While you're busy making other plans"
John Lennon



Recordo-me como fosse filme antigo que assisti, mas sem prestar muita atenção, lamentando a distração ao ver em que final ele foi parar. Recordo-me de algumas poses que, moleca, achava que era coisa de gente grande, então não precisava compreender.

Recordo-me do silêncio quase absoluto das minhas emoções. Quando elas ainda engatinhavam, eram alimentadas por outros, porque ainda não sabiam comer de garfo ou colher. Hoje também uso a faca.

Às vezes, essa recordação é apenas um zumbido baixinho, que atazana um pouco a minha concentração. Como quando estava nessa reunião, ouvindo as mil e uma peripécias comerciais do orador, ciente de que ele trabalhara um tanto para que nossos arranjos comerciais dessem certo. Mas não pude evitar...

Enquanto ele dizia e eu não ouvia, as mãos suadas dele descansando sobre as pernas, e as minhas distraindo as folhas do bloquinho de post-it, certamente pensando por elas mesmas sobre as palavras que desejavam rabiscar. Enquanto ele dizia estratégias eu não as ouvia, na minha cabeça outras ideias faziam festa. E se eu simplesmente me levantasse e fosse embora, sorrindo, porque não sou de deseducar? Se eu simplesmente me desconectasse desse momento e fosse dar uma volta pelo mundo, entregue às surpresas que tantos dizem haver detrás da porta de saída?

E se?

Quem nunca navegou nessas águas?

Mas enquanto ele continua, tão enfadado com o seu próprio monólogo, permaneço onde estou, rabiscando casinhas, árvores e palavrinhas soltas nas folhas do post-it. E penso: poderia escrever um livro inteiro em vários bloquinhos de post it, em diversas cores e tamanhos, colar suas partes em diversos lugares para que as pessoas pudessem encontrá-los e buscar pelo seu começo, meio e fim, encontrando algo muito mais especial: umas as outras.

Uma das professoras de História que tive, na época do colégio, dava suas aulas de um jeito tão apaixonado que não havia como não aprender. Além do mais, tratando-se de História, nada mais lógico do que contá-las, ao invés de nos fazer decorar páginas e páginas de um livro. Havia aquela paixão que fazia os seus olhos azuis brilharem e seus cabelos ruivos e espalhafatosos balançarem todos. Estudar História com ela era quase o mesmo que viajar para aqueles lugares, pertencer àquelas diferentes épocas.

Ouço o moço dizer que melhor mesmo é aplicar meu esforço no que sou capaz de fazer, e não ficar me danando com as experiências. Então, distraio-me com suas mãos sendo jogadas ao ar, como fossem gaivotas endoidecidas.

O que será que elas dizem?

Ainda bem que há pessoas que se interessam pelo que são capazes e ponto. Que conseguem ser específicas, diretas, fazer com que aconteça. Para a decepção desse moço, que parece gente boa, acertado com suas escolhas, eu sou das que adoram experimentar, que não me adapto fácil ao definitivo. E gosto de quem conta histórias por ter se apaixonado por elas.

Penso: uma biblioteca de post-it...

Houve esse moço que saiu de uma reunião chatíssima e foi para casa, ele estava absurdamente chateado. Chegando lá, encontrou a quarta página do terceiro capítulo do segundo livro que chegou ao primeiro lugar colado na porta da geladeira. Apertou os olhos e leu... E tudo mudou. Mudou de um jeito que ele jamais imaginaria ser esse tudo capaz de mudar. Mudou no susto e ele gostou. Ele não deixou de ser quem era. Apenas adicionou às suas certezas um pouco de flexibilidade. E agora ele as vê assim: dançarinas.

www.carladias.com


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, ter navegado em certas águas só se compara a ler você sobre a navegação nessas mesmas águas e à vontade de continuar navegando. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... às vezes, até mesmo quando navegamos nessas águas em barquinhos de papel, a gente aprende que a vida está sempre em movimento. Isso bom, não?

albir disse...

Estamos sempre nos protegendo dos sustos e, consequentemente,das mudanças. Ainda não comemos e já não gostamos. É verdade que coragem também se aprende, mas a vida é curta. Parabéns pela crônica, Carla.

Debora Bottcher disse...

Linda... Vc e o texto. :)
Beijo, moça.