domingo, 11 de abril de 2010

UMA COISA >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, tem uma coisa.

Se fosse no olho, eu saberia: um cisco. No pé: um espinho. No rim: uma pedra. Mas agora tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se faço qualquer coisa, sinto-a como um incômodo constante. Se paro, na tentativa de percebê-la, ela se esconde. É uma coisa em movimento que para quando paro.

Porque a gente tem sempre alguma coisa a fazer. Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa? A vida, às vezes, é um quebra-cabeças que a gente jura que está faltando peça. Não adianta se dar ao trabalho de montar uma imagem esburacada que só aparece inteira na imagem na tampa da caixa.

Será que tem uma coisa ou é uma coisa que está faltando?

No olho, eu saberia: um colírio. No pé: um carinho. No rim: um alívio. Mas agora não tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se for coisa que tem, talvez resolva ficar imóvel, paciente, fingindo que o que há é coisa que não se sente quando se para.

Se for coisa de não ter, talvez comida resolva. A não coisa pode ser fome de alguma coisa, embora outra coisa que não aquela que a comida só irá distrair.

Pode ser coisa de escrever. Coisa que ao mesmo tempo tem e não tem, é e precisa ser, verbo ainda desencarnado.

Pode ser qualquer coisa, e eu aqui de besta catando agulha no palheiro, correndo o risco — na melhor das hipóteses — de furar o dedo ou então só ficar me coçando de alergia o dia inteiro.

Sim, pode ser alergia. Não na pele, na epiderme, mas muito abaixo da endoderme, lá onde o vazio se esconde, embrulhado por nossa carne. Uma alergia na alma, talvez.

Sim, eu sei o que fazer. É só pegar o dia de ontem e catar incômodos — mais fáceis de achar que agulhas em palheiros. Mas estou com preguiça. E, como diz um amigo, "preguiça não se desperdiça".

Então é isso: preguiça, um pecado capital. Não uma coisa que não é querendo ser. Mas uma coisa que já é tentando não ser mais. Uma tentativa de morte. Um suicídio de algum tipo. Um mergulho sem pulo. Um desmaio já deitado. Um sonho esquecido.

Só uma coisa que, de vez em quando, dá na gente.

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7 comentários:

Cláudia disse...

Eduardo, acho que eu estou com uma coisa destas. Não me peça para explicar, não sei nem por onde começar. Garanto que fome não é. Sede também não. Abraço e adorei a coisa...

Debora Bottcher disse...

Pois é, Eduardo... A 'coisa' dá em quase todo mundo. Em mim, por exemplo, a 'coisa' parece estar colada faz tempo... :)
Beijo.

albir disse...

É, Edu, uma coisa que incomoda quando dá e assusta quando não vem. A gente gosta de saber que não é só a gente que tem.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gente, e eu que pensando que a coisa coisava só em mim. :) Grato pela companhia.

Carla Dias disse...

Cada coisa que a gente sente e ressente, não? Ainda assim, quase sempre essa coisa não tem endereço, apenas adereços. E nos bolina com a sua falta de geografia, o olhar perdido no umbigo das coisas sem lenço e sem documento.

*Fê* disse...

Edu,
ninguem fala de COISA melhor do que vc!!!
Essa coisa de coisar é patente sua e pronto!!
Bjao!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, suas palavras são o salão de beleza da minha coisa. :)

Fernanda, se você está coisando, eu vou coisar. :)