domingo, 18 de abril de 2010

A PONTE DA SAUDADE >> Eduardo Loureiro Jr.

"Gratidão é a memória do coração."
(Antístenes)

"Sempre hei de recordar esteja onde for
Daquele jeito simples que me conquistou
E que só nos dá beleza em cortesia"

(Validuaté)

Não sei por onde começar. Mesmo sabendo que é tarefa de um escritor se organizar e só levar ao leitor uma versão que o conduza de um ponto a outro, como se fosse uma ponte, não sei por onde começar, tampouco onde quero chegar.

Talvez baste dizer que fui feliz, e aqui é preciso diferenciar dois tipos de felicidade: a felicidade instantânea, fugazmente eterna, de caráter transcendente, e a felicidade cotidiana, prosaica, humana.

Já fui feliz das duas maneiras. Fui feliz durante poucas horas, numa felicidade que não ouso sequer desejar que se repita um dia — não sei se um ser humano merece ser feliz assim, tão completamente, mais de uma vez na vida.

Também já fui feliz do outro jeito, no miúdo dos dias. Quando fui feliz desse segundo jeito, eu costumava caminhar, todos os dias, pela manhã ou à tarde (às vezes pela manhã e à tarde) na beira do Rio Poti em Teresina. Minhas primeiras caminhadas tiveram a companhia de meus anfitriões na cidade: Arimatéia e Graça, Ari e Gracinha. Em conversas amenas, eles me falavam da cidade que tanto amavam e na qual eu estava chegando após uma separação que só posso comparar a uma morte terrível. Eu era uma espécie de zumbi chegando a Teresina no início dos B-R-O brós: setembro de 2005. Enquanto Gracinha me dava o tão necessário colo, curando-me as feridas com seu carinho e com suas gargalhadas, Ari me ensinava seu humor pequeno, diário, com rápidas tiradas, algumas delas geniais. Foi ele que me falou das BRs. Não, nossas conversas não giravam em torno de questões rodoviárias. BRs eram as balança-rabos, as mulheres que também caminhavam na Av. Raul Lopes. Os rabos, que fique bem claro, eram os rabos de cavalo dos cabelos longos que balançavam de um lado para o outro enquanto as mulheres caminhavam ou corriam. Havia um trecho em que o calçadão estava reduzido devido a uma construção: "Ponte estaiada de concreto protendido", dizia a placa. E eu disse a mim mesmo: vou procurar no dicionário o que é isso. Mas nunca procurei.

Após um mês, aluguei meu próprio apartamento junto com um primo querido, que também estava a trabalho em Teresina. Comecei então uma rotina cuja atividade mais esperada era caminhar na Raul Lopes. Muito do que acontecia em outros espaços — na universidade, no centro espírita, no shopping — retornava à Raul Lopes da melhor maneira que as coisas podem retornar: no encontro com as pessoas. Embora minhas caminhadas solitárias fossem maravilhosas, seja ouvindo ou fazendo música, bom mesmo era quando eu encontrava alguém para caminhar. Nossas conversas quase nunca eram sobre temas banais — política, meteorologia, fofocas. Entrávamos mesmo — com a fala — era na alma e no corpo da gente. De conselhos espirituais a orientações sexuais, de cânticos a cantadas, da vida encravada feito unha ao prazer desmedido de paixão. E, sempre que passávamos pelo meio do calçadão, tínhamos que parar um pouco a conversa para passar, quase em fila indiana, pelo ponto em que a calçada estava reduzida devido à construção da ponte, que parecia estar parada.

Alguns meses depois, eu me sentia completamente à vontade na cidade e na minha vida. Eu havia ressuscitado. A literatura e a astrologia, que eu havia abandonado durante a depressão pós-separação, começaram a retornar. Meu primo se casou, e fiquei sozinho num grande apartamento: um palácio, um mosteiro, um estúdio, uma rede com a mulher amada, uma panela com baião-de-dois, uma varanda com violão, uma janela com vista para os relâmpagos da Chapada do Corisco e para a rua que a chuva fazia virar rio. E o calçadão da Raul Lopes, a apenas 200 metros, era uma continuação do meu pequeno paraíso. Os caminhantes já não eram mais os mesmos. Em quase dois anos, o entusiasmo para o exercício físico devia ter diminuído. Agora eram outros os estranhos que eu via quase todo dia na beira-rio. E eu lá, todo dia, batendo meu ponto de suor, leveza e alegria. Eu e a construção da ponte estaiada — que eu continuava sem saber o que era —, que eu já desconfiava que não ia acabar nunca.

Chegou um ponto em que eu pensei que jamais sairia de Teresina. O ponto foi quando minha ex-mulher morreu e eu quis voltar para Fortaleza para ficar mais perto de nossa querida sobrinha, de apenas oito anos. Nesse ponto, eu consegui não ser aprovado em um concurso no qual eu era o único inscrito. Foi uma mensagem clara: "Não saia daqui." E eu fiquei, pensando que era pra sempre. Continuei caminhando, entre estranhos e amigos, na Raul Lopes, passando todo dia em frente à ponte cuja construção não tinha fim.

Alguns meses depois, um grande amigo me convidou para trabalhar em Brasília, e eu resisti o quanto pude, dividido entre o pedido do amigo e o meu conquistado paraíso. Indo e vindo na Raul Lopes, fazendo meus oito quilômetros diários, eu queria ficar, mas algo em mim insistia no convite de meu amigo. De um lado, "não saia daqui", do outro, "está na hora de ir".

Até que um dia, longe do calcadão, bebendo chá, a verdade veio a mim como uma estrela cadente: "Vá". E eu, obediente à clara voz interior, decidi ir. Sair de Teresina foi como fazer o próprio parto às avessas, talvez seja melhor dizer que foi como fazer um aborto. Tive que me desfazer do útero quente do apartamento, tive que dar a má notícia para tantas e tantas pessoas queridas, tive que cortar o cordão umbilical do calçadão à beira-rio da Raul Lopes. Naquele momento, aquilo para mim era um ato de cega loucura, de uma confiança total — e talvez ingênua — numa coisa sorrateira chamada destino. Foi como abandonar uma ponte em contrução.

Poucas semanas, muitas lágrimas e um poema de despedida depois, eu estava em Brasíla. E a verdade é que, em nenhum dia, me arrependi. Aqui realizo novos trabalhos, aqui faço novos amigos, aqui conheço, um pouco mais a cada dia, a mulher que é meu amor, com quem decidi viver, de papel passado, de aliança no dedo, de disposição para construir essa ponte tão necessária entre dois seres humanos. Teresina, em sua generosidade, não era apenas um porto seguro, um paraíso terrestre. Teresina construiu em mim um cais, plantou em mim a árvore do conhecimento, que eu posso levar para qualquer lugar. Teresina, essa cidade com nome carinhoso de mulher, me amou com o desapego das almas evoluídas.

Faz dois anos que estou em Brasília. Fui a Teresina uma ou duas vezes, a trabalho, logo após minha mudança, e o tempo foi pouco para tantos amigos e para tantos quilômetros de Raul Lopes. No peito, a vontade de retornar com mais tempo, com mais calma, como se Teresina me cantasse com os versos de Wisnik: "Vê se encontra um tempo pra me encontrar sem contratempo por algum tempo."

Esses dias, Gracinha, minha prima segunda, minha anfitriã teresinense, minha segunda mãe, me mandou umas fotos. Essas fotos...





E o ar seco de Brasília não foi suficiente para impedir meus olhos de se transformarem em poças d'água. A ponte, a ponte, a ponte... Meu coração bateu, repetindo: a ponte, a ponte, a ponte... E eu, sem recorrer a dicionários, descobri finalmente o significado de ponte estaiada: é essa ponte com cabos que parecem raios, essa ponte solar. Raios de sol, raios de céu; calor e relâmpago sobre o Poti, esse rio de chocolate quente sob o céu das nuvens mais bonitas que existem.

O nome é Ponte Estaiada Mestre João Isidoro França, em homenagem ao homem que projetou as primeiras ruas de Teresina, em meados do século XIX. Mas para mim, esse fortalezense, agora residente em Brasília, que ama uma cidade como a gente só costuma amar pessoas, a ponte estaiada terá outro nome. Um nome que me permitirá atravessar a distância apenas pronunciando-o. Um nome que é, ele mesmo, uma ponte entre um corpo distante e uma alma presente. Um nome que liga o lado de cá ao lado de lá, uma ponte entre eu e Teresina. Um nome que vale por uma carta, por um telefonema. Um nome que é passagem de ida e volta, sem nem precisar ir, já que de lá, de certa forma, nunca saí. Um nome estaiado, sustentado por raios delgados e indestrutíveis de lembranças. Um nome que pode ser gritado, com letras garrafais, em manchete de jornal, e que também pode ser sussurrado no meio da noite, durante um sonho de felicidade.

Bela ponte sobre o belo rio dessa bela cidade, enquanto esse raio de vida me sustentar, para mim serás — sobre o rio quente dos meus olhos d'água — a Ponte da Saudade.



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19 comentários:

Ana Lucia disse...

Que texto lindo! Até eu me emocionei com a ponte! Antes tarde do que nunca!

ceíta disse...

Junoca, por onde começou e a versão que me conduziu foram prazerosos. Viajei livremente com voce. E me emocionei tambem. Beijo. Ceíta

Tia Monca disse...

Lindo demais!
Uma curiosidade astrológica: Você tem 2 mapas de nascimento? :o)
Bjs,
Tia Monca

Felipe disse...

Meu amigo, eu não vou dizer que esse é o melhor texto que você escreveu porque não quero ser injusto com os outros. Vou dizer apenas que é um dos melhores. Minucioso, poético, perfeito, faz a gente viver a mesma emoção junto. Até eu fiquei com saudades de Teresina, mesmo sem nunca ter estado lá. :)

Karina Loureiro disse...

Linda meu ismão!Karina

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pois é, Ana, a emoção é contagiosa. :)

Ceíta, grato pela companhia na viagem.

Tia, bem que eu poderia mesmo fazer essa mapa da minha chegada em Teresina: foi no dia 11 de setembro de 2005. Só tinha que pegar a hora do voo de chegada.

Meu querido amigo, brigadim por deixar meu coração e minha saudade bater também no seu peito. :)

Brigadim, Maninha.

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,

Você teceu as palavras com arte e pincelou o meu dia com emoção. Obrigada!

Cláudia disse...

Eduardo, seu talento, sua poesia, fizeram meu coração bater forte de saudades da felicidade miúda de todo dia. Coisas simples que às vezes passam desapercebidas. Lindo, lindo, lindo... Você conseguiu colocar seu coração no papel. Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Juliêta, também sou grato por você ter sido tela e tecido. :)

Grato, Cláudia, por bater seu coração no ritmo de minhas palavras. :)

Fabio Barros disse...

Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! :)

(de pé, claro!)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Rapaz Fábio, assim você vai precisar de hidratante para as mãos, ainda mais nesse ar seco de Brasília. :) Brigadim por seu entusiasmo. ;)

Marcela Santos disse...

E eu descobri o nome da Ponte antes de chegar ao final...
Super conexão com o texto. =D

Amei! Muito bom!

albir disse...

Um clássico, Edu. Dá vontade ler a autobiografia que você ainda não escreveu. Parabéns!

Larissa disse...

Olá meu amigo Eduardo!! Cara, quanta emoção sinti ao ler sua crônica ... LINDAS E SÁBIAS palavras!!! Vc retratou em palavras o que sinto depois que saí de Teresina! E fico feliz em saber que vc tem um grande apreço por minha terra. Forte abraço!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Superconectada Marcela, que bom que construiu essa ponte comigo. :)

Grato, Albir. Vou cuidar da vida pra ver se um dia ela vira grafia. :)

Nossa terra, Larissa. Como diz o Ari, meu anfitrião de Teresina, sou bi: tenho duas terras. :)

Carla Dias disse...

Dessa vez eu fiquei sem palavras...

Ana Lídia disse...

Caro Eduardo,

Eu moro em Teresina já há algum tempo e fico aqui a perguntar-me o que é que direi a você em agadecimento por tão belo texto.

Parabéns

Ana Flavia disse...

Parabéns, Eduardo!

O texto ficou lindo, acabei me emocionando junto com voce! Até eu, que nunca fui a Teresina senti saudade do lugar. Além disso, suas descrições são perfeitas; é possível visualizar a Av. Raul Lopes como se estivéssemos lá.

E aproveitando, eu citei a descrição porque vou usar o seu texto para fazer um trabalho. Obrigada por seu belíssimo texto, voce me ajudou sem ter a intenção.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla e Lídia, eu adoro o não saber o que dizer. :)

Flávia, e eu que pensava que não sabia descrever. :) Brigadim.